A exploração dos dados: entendendo as intenções dos grandes nomes da tecnologia.
O colonialismo, como sistema de dominação política, econômica e cultural, historicamente se embasou em ideologias de superioridade. Atualmente, além da exploração de recursos naturais e da força de trabalho, ele se expressa pela coleta massiva de dados para o desenvolvimento de tecnologias. Esses dados, controlados por grandes corporações do Norte Global, servem a interesses políticos e econômicos que agravam desigualdades sociais e flertam com ideologias autoritárias.
Como combater esse colonialismo digital e de dados? Existe uma maneira de o Brasil garantir sua soberania digital? Essas perguntas são discutidas neste episódio do Pauta Pública, que tem a participação de Sérgio Amadeu. Sociólogo e professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), Amadeu é uma referência no debate sobre tecnologia e sociedade. De acordo com ele, o colonialismo de dados intensifica a dependência tecnológica ao concentrar informações, infraestrutura e poder nas mãos de grandes corporações globais. “As corporações levam os dados das sociedades, das populações e dos indivíduos para suas grandes infraestruturas, em geral localizadas nos Estados Unidos ou no Norte Global. Elas trabalham esses dados e, em seguida, com base nessas informações coletadas, oferecem produtos e serviços para a mesma população de onde os dados foram extraídos,” explica.
Confira os pontos-chave da conversa e ouça o podcast completo abaixo.
O que é o colonialismo de dados?
O termo colonialismo de dados surgiu em diferentes lugares ao mesmo tempo, incluindo o Brasil, embora os autores mais conhecidos sejam norte-americanos. Ele se refere ao colonialismo histórico, no qual matérias-primas eram extraídas das colônias para serem processadas nas metrópoles e vendidas novamente às colônias a preços elevados. Hoje, esse processo se repete de forma análoga com os dados, que são essenciais para a inteligência artificial e têm alto valor na economia digital.
As corporações levam os dados das sociedades, das populações e dos indivíduos para suas grandes infraestruturas, principalmente situadas nos Estados Unidos ou no Norte Global. Após processar esses dados, elas oferecem produtos e serviços para a mesma população de origem dos dados. Esse colonialismo de dados não acontece isoladamente, mas está inserido em um quadro mais amplo de dependência tecnológica.
O Brasil adotou uma política tecnológica pautada pela Teoria da Dependência, defendida por Fernando Henrique Cardoso, que sustenta a ideia de que a dependência não prejudica a modernização do país. Porém, essa abordagem limita a criatividade e a soberania nacional, impedindo o desenvolvimento de alternativas e competição com grandes corporações internacionais.
Qual é o papel das redes sociais nesse contexto?
A região do Vale do Silício, berço de tecnologias emergentes, é influenciada por uma ideologia libertária que associa liberdade individual à força. Essa mentalidade se reflete nos modelos de negócios das empresas de tecnologia, que priorizam a liberdade individual em detrimento de direitos sociais e trabalhistas. Algumas dessas empresas defendem a necessidade de eliminar tais direitos para que a tecnologia funcione plenamente, perpetuando um modelo distorcido de liberdade.
É vital construir novas formas de interação nas redes sociais para evitar a exclusividade da elite dominante. O direcionamento das redes sociais por ideias libertárias ultracapitalistas pode impactar negativamente a sociedade e reforçar tendências autoritárias. A conscientização sobre essas questões é essencial para promover um ambiente digital mais diverso e democrático.
Como enfrentar a produção de conteúdo por inteligência artificial e suas implicações?
Embora a inteligência artificial esteja se tornando cada vez mais presente na produção de conteúdo, é fundamental não deixar que ela substitua completamente o trabalho humano, especialmente no jornalismo. É necessário continuar usando as redes digitais para compartilhar informações de qualidade e diferenciar conteúdos gerados por IA. A ética e a educação são chaves para lidar com os impactos da automatização e preservar a criatividade e a capacidade cognitiva humanas.
