Propriedades de Tenório Jr. são devolvidas à família, meio século depois da ditadura na Argentina
Duas correntes de pescoço que pertenciam ao renomado pianista brasileiro Francisco Tenório Cerqueira Júnior foram entregues a seus familiares nesta quarta-feira, como forma de homenagem. O músico foi sequestrado e assassinado aos 35 anos em Buenos Aires, em 18 de março de 1976, em um crime atribuído ao terrorismo de Estado da ditadura argentina.
Tenório, um dos maiores pianistas brasileiros, deixou sua marca na cena musical das casas noturnas do Beco das Garrafas. Com uma carreira marcada por parcerias com artistas como Milton Nascimento, Lô Borges, Gal Costa, Beto Guedes e Edu Lobo, o músico registrou seu único disco solo, intitulado “Embalo”, em 1964.
Emocionada, Sofia Cerqueira Borges, neta de Tenório, expressou sua gratidão durante a cerimônia de entrega das correntes, destacando a importância dos pertences do avô para a família após décadas de incerteza.
Em setembro de 2025, a Equipe Argentina de Antropologia Forense identificou as impressões digitais de um cadáver encontrado em Tigre, ao norte de Buenos Aires, como sendo de Tenório Jr., confirmado pelos documentos brasileiros. Essa descoberta foi crucial para retificar a certidão de óbito do pianista e possibilitar a entrega de seus pertences à família.
Identificação e restos mortais: “O corpo mesmo dificilmente será encontrado”
A investigação realizada pelo EAAF foi possível devido ao arquivamento de documentos e objetos do músico após seu assassinato. A descoberta das correntes levou a uma reviravolta na história da família e trouxe novas informações sobre o desaparecimento de Tenório Jr.
Apesar de a confirmação da identidade do músico trazer alguma paz à família, resta ainda a incerteza quanto aos seus restos mortais. Segundo o EAAF, os restos mortais de Tenório provavelmente foram movidos para um ossuário, o que dificulta sua localização até o momento.
“Ver uma família finalmente obtendo respostas após tanto tempo é a parte mais gratificante desse trabalho”, afirmou a presidente da CEMDP, Eugênia Augusta Gonzaga, em declaração à imprensa.
Quem matou Tenório Jr.?
A respeito da autoria do crime, diversas versões circularam ao longo dos anos. Uma das principais, divulgada nos anos 80, envolvia militares argentinos que teriam torturado Tenório Jr. na Escola de Mecânica da Armada. No entanto, a veracidade dessas informações é motivo de controvérsia, com indícios de que os documentos que corroboravam essas alegações pudessem ser falsos.
Com a identificação do corpo do pianista, abre-se a possibilidade de uma investigação mais detalhada, que poderá trazer luz sobre os eventos que culminaram na morte de Tenório Jr. e os responsáveis por esse crime hediondo.
Apesar das incertezas em relação aos restos mortais do músico, a entrega de suas correntes à família representa um passo importante rumo à justiça e à memória de Francisco Tenório Cerqueira Júnior.
