Copa de 2026: manifestações no México expõem a dor de 130 mil famílias em busca de desaparecidos

Copa de 2026: manifestações no México expõem a dor de 130 mil famílias em busca de desaparecidos

Cidade do México – Durante a abertura da Copa do Mundo 2026 nesta quinta-feira, 11 de junho, familiares de pessoas desaparecidas em todo o México se reuniram na capital. Mães, pais, irmãos e cônjuges utilizaram vuvuzelas, bandeiras e camisetas da seleção mexicana para chamar a atenção mundial.

A ação visava expor a grave crise humanitária que aflige o país. A mensagem era inequívoca: enquanto o governo mexicano investe na Copa, mais de 130 mil pessoas permanecem desaparecidas, conforme dados oficiais.

Na Cidade do México, milhares de cartazes com fotos dos desaparecidos foram fixados em pontos icônicos. Ao menos nove marchas e 26 concentrações de protesto marcaram o evento de abertura do torneio. De acordo com a Coordenadoria Nacional de Trabalhadores da Educação (CNTE), essas manifestações reuniram cerca de 6 mil participantes, embora o governo não tenha fornecido um número oficial.

No dia da cerimônia inaugural, os manifestantes não estavam sozinhos. Em meio a policiais, vendedores ambulantes e torcedores em um trânsito caótico, diversas categorias de profissionais – incluindo professores, aposentados e trabalhadores da saúde – se uniram em protestos por diferentes causas.

Na véspera do torneio, grupos conhecidos como “Madres Buscadoras” realizaram uma marcha fúnebre ao redor do Estádio Azteca, uma imagem que repercutiu globalmente. Intitulada “Iluminemos la búsqueda”, a manifestação do dia 10 contou com representantes de pelo menos 10 estados mexicanos. O Coletivo Luz de Esperança de Jalisco trouxe mais de 100 famílias em busca dos seus entes queridos.

“Por que procuramos? Porque amamos! Até quando? Até encontrá-los!” eram os gritos dos familiares presentes, que usavam camisetas e cartazes com fotos e nomes dos desaparecidos.

Yuri Peralta foi uma das participantes da manifestação. Com um cartaz que trazia a foto do marido desaparecido, Luis Fernando Luna Juárez, ela utilizou um formato similar aos álbuns de figurinhas para atrair a atenção dos turistas e torcedores. Juárez desapareceu no ano passado e desde então a família não obteve respostas das autoridades sobre seu paradeiro.

Por que isso importa?

  • A Copa do Mundo 2026 será realizada em três países: Estados Unidos, Canadá e México. O investimento do México no evento é estimado em R$ 41 bilhões.
  • O país ocupa atualmente o quarto lugar entre os mais violentos do mundo, apenas atrás da Palestina, Mianmar e Síria.

Peralta, funcionária em um hotel luxuoso na Cidade do México, tirou folga para participar da manifestação diante do Estádio Azteca. “Queremos mostrar quantas pessoas estão desaparecidas. Para nos fazermos ouvir. Para que não esqueçam seus rostos. Muitos vêm aqui apenas pelo futebol, mas nós estamos aqui para lembrar que também existem desaparecidos.” Ela expressou sua tristeza pela falta de empatia dos turistas que visitam o local durante os jogos.

Horas depois, o apito final do jogo inaugural anunciou a vitória do México por 2 a 0 contra a África do Sul. Na famosa avenida Paseo de la Reforma, torcedores vestidos com as cores da bandeira nacional comemoravam sob uma tempestade forte.

Um palco com telão foi montado entre duas glorietas emblemáticas: o Anjo da Independência e a Glorieta de la Palma – esta última rebatizada pelos movimentos sociais como “glorieta dos desaparecidos”. Ambas estavam decoradas com fotos e nomes das pessoas que desapareceram.

No meio da celebração esportiva havia um contraste inegável: enquanto muitos viam segurança no país durante os eventos esportivos, escondia-se por trás disso uma violência silenciosa. O México ocupa o quarto lugar entre os países mais violentos conforme o Índice de Conflitos e Violência Política 2025 elaborado pelo Armed Conflict Location and Event Data Project (ACLED), ficando atrás apenas da Palestina, Mianmar e Síria.

Um relatório da Anistia Internacional aponta que o México soma cerca de 133.500 pessoas desaparecidas até 2025, com um aumento alarmante de 10,5% neste ano em comparação ao anterior. A pesquisa revela que 88% dos casos registrados desde 1950 ocorreram entre 2006 e 2024 — período marcado pela militarização da segurança pública no país.

Em março do ano passado, Claudia Sheinbaum, presidente do México, divulgou uma “Declaração sobre Pessoas Desaparecidas”, que gerou críticas severas por parte de 158 coletivos familiares que acusaram Sheinbaum de ignorar as realidades enfrentadas pelas famílias afetadas ao elaborar sua estratégia.

“Se nós mesmos não procurarmos nossos familiares, ninguém fará isso.” Héctor Flores é cofundador do Coletivo Luz de Esperança Desaparecidos Jalisco e busca seu filho Héctor Daniel Flores Fernández, desaparecido forçado aos 19 anos em maio de 2021. Ele enfatiza que ter um evento internacional como a Copa no país é uma chance única para expor ao mundo a grave crise humanitária vivida no México.

Além da falta de apoio na busca ativa por desaparecidos, os grupos também reclamaram sobre a ausência total de diálogo com as autoridades governamentais. Em dezembro de 2025, Sheinbaum provocou descontentamento ao afirmar que muitos dos casos não estariam ligados ao crime organizado، mas seriam resultado de “ausências voluntárias devido a problemas familiares”.

Os casos de desaparecimentos no México raramente são aleatórios. Liliana Meza viveu essa triste realidade quando sua casa foi invadida por homens armados à noite em outubro de 2020; eles se apresentaram como policiais sem mandado judicial e levaram seu filho Carlos Maximiliano à força. Desde então ele continua desaparecido.

O recrutamento forçado é apontado como mecanismo comum para esses crimes: grupos criminosos sequestram jovens para integrá-los às suas operações através da violência e coerção psicológica. As vítimas podem variar entre pais responsáveis ou estudantes; no entanto, predominantemente são homens jovens sem envolvimento prévio com atividades ilícitas.

Meza destaca que muitos recrutados acabam sendo usados para trabalhos forçados nas fazendas ou em funções domésticas — formas modernas de escravidão que geram lucros legais para os criminosos envolvidos. Segundo ela, as células criminosas estão dispostas a explorar qualquer oportunidade financeira disponível.

O controle sobre esses indivíduos é mantido através da intimidação constante às suas famílias. Aqueles que conseguiram escapar relataram ao coletivo as táticas brutais utilizadas pelos cartéis.

“Eles agrupam os reféns e perguntam quem quer voltar pra casa. Quem levanta a mão leva um tiro na frente dos outros. Se você tentar fugir ou se rebelar contra eles، sua vida ou sua família estará ameaçada!”, narra Meza sobre as atrocidades reveladas pelos sobreviventes. 

Os sequestrados frequentemente são levados para áreas remotas onde as forças policiais têm dificuldade para atuar devido à localização estratégica dessas regiões isoladas entre estados distintos.

Jalisco: centro dos desaparecimentos forçados no México

Jalisco apresenta o maior número registrado oficialmente quanto aos desaparecimentos no país: mais de 16 mil pessoas atualmente estão listadas como desaparecidas nesse estado. A maioria desses casos é atribuída ao Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), reconhecida como uma das organizações criminosas mais perigosas e influentes na última década.

O Coletivo Luz de Esperança Desaparecidos Jalisco é um dos grupos mais ativos nesse contexto; conta com aproximadamente 500 membros dedicados à realização frequente de ações comunitárias e buscas noturnas por pessoas desaparecidas nas ruas.

Fossas clandestinas cercam estádio onde ocorrerão jogos da Copa

O Estádio Akron localizado em Zapopan – município próximo à Guadalajara onde ocorrerão partidas da Copa – está rodeado por fossas clandestinas descobertas por coletivos locais desde 2022. Até agora foram recuperados pelo menos 456 sacos contendo restos humanos nas proximidades dessa arena esportiva; somente nos últimos oito anos foram localizadas cerca de 224 fossas clandestinas no estado.

Dias antes do início da Copa do Mundo,a reportagem acompanhou uma das buscas realizadas pelo Luz de Esperança — atividade contínua desde sua fundação sem apoio institucional significativo — nas serranias locais; integrantes escalaram barrancos buscando vestígios dos seus entes queridos entre lixo acumulado. No mesmo local onde haviam encontrado anteriormente o corpo amarrado das mãos há quinze dias atrás,novamente retornaram na esperança frustrada mas persistente pela recuperação destes corpos.[…]