Moltbook revoluciona ao substituir zoológicos de animais por zoológicos de robôs

Moltbook revoluciona ao substituir zoológicos de animais por zoológicos de robôs

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Recentemente, estive em Berlim participando de uma conferência sobre IA, Big Techs e o futuro do jornalismo promovida pela Deutsche Welle. Em meio a uma breve pausa, visitei uma exposição no Fotografiska Berlin, galeria de exposições moderna localizada na zona central. As fotografias de Nikita Teryoshin retratam animais em zoológicos urbanos de diferentes países europeus.

Em uma das fotos, um elefante é mostrado atrás de uma grade, com os chifres cortados curtos, exibindo a clareza do marfim desgastado, os olhos cansados e perdidos. A imagem, intitulada “Prisão Perpétua”, choca não apenas pela violência do marfim, mas também pelo cenário sombrio que o envolve: um muro cinzento, arame de metal remetendo a uma prisão ou campo de refugiados, ambiente escuro com iluminação precária vinda de uma pequena abertura no teto. A exposição revela a maldade humana ao retratar estruturas metálicas, cimento, concreto e áreas artificiais recriadas de forma descuidada para lembrar aos animais seus ambientes naturais.

Os zoológicos surgiram como depósitos de presentes “exóticos” recebidos por monarcas e imperadores, como o rei Luís 14 fez no século 17 ao exibir sua coleção de animais em Versailles. Os zoológicos modernos tiveram origem na Inglaterra do século 19, durante o auge do Império Britânico, sob a justificativa de estudos científicos. O zoológico de Londres, ainda em funcionamento, foi aberto em 1828 para pesquisas científicas com animais e posteriormente aberto ao público em 1847.

Independentemente da perspectiva, os zoológicos continuam refletindo uma visão imperialista que submete animais e humanos à categoria de “exóticos” a serem aprisionados, estudados e exibidos para entretenimento do público.

Em um momento crucial em que precisamos aprender a respeitar o planeta para preservá-lo e, consequentemente, salvar a nós mesmos, os zoológicos representam o oposto, transmitindo a mensagem errada de que o ser humano pode controlar a natureza sem limites. O livro “Homo Deus”, de Yuval Harari, revela dados que evidenciam a redução da população de animais selvagens e o aumento da domesticação de animais.

Nesse contexto, questiona-se se não é o momento de encerrar de vez todos os zoológicos, como fez a Costa Rica, em vez de continuar honrando um passado colonialista em plataformas digitais. Paralelamente, a ascensão do Moltbook, uma rede social para agentes de IA, reflete um novo aspecto da interação homem-máquina, onde humanos não podem criar perfis.

Apesar de gerar debates sobre o impacto da inteligência artificial na humanidade, é importante analisar com cautela, lembrando que os programas de IA regurgitam linguagem de acordo com estímulos recebidos de seres humanos. Antes de nos preocuparmos com o futuro da interação homem-robô, é preciso lidar com as heranças negativas que ainda carregamos e nos livrar delas para nos tornarmos, de fato, humanos.