O impacto da inteligência artificial na espiritualidade: como a tecnologia está revolucionando a fé
No Brasil, cerca de 140 milhões de mensagens são trocadas por dia apenas com o ChatGPT, segundo a OpenIA, responsável pela tecnologia de Inteligência Artificial (IA) que destaca que o país está entre os três que mais utilizam o recurso no mundo. Esse uso já se reflete nos campos do trabalho, da informação e do aprendizado. Mas o que acontece quando a IA passa a mediar também o campo simbólico, espiritual e religioso?
Nesta temporada, Diálogos para entender o que é real, o Pauta Pública convida o acadêmico e pastor Valdinei Ferreira para falar sobre o atual cenário de uso da IA relacionado à fé, desde usuários que acreditam estar de fato conversando com uma consciência de outra dimensão, até as situações mais corriqueiras, como a utilização da IA para criar sermões e pregações que são reproduzidas por pastores nas igrejas. Na entrevista ele fala como tem sido a adaptação para estes novos tempos e aponta os principais desafios e limites das tecnologias em relação às vivências humanas.
De acordo Ferreira, o grande desafio é ajudar as pessoas a entenderem que existe um viés e que é preciso formar algum tipo de filtro crítico para que elas não sejam manipuladas pelas ferramentas de IA.” É difícil de entender e conseguir prever exatamente como as próprias igrejas e lideranças vão se posicionar em relação a isso […] e a gente tem uma falta de clareza de como as respostas são geradas. Então é bem difícil prever se isso pode recrudescer ainda mais o fundamentalismo.”
Leia os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.
Você escreveu um artigo sobre como alguns pastores já utilizam a inteligência artificial para criar sermões, e como alguns fiéis também já consultam ferramentas como o ChatGPT, como uma espécie de oráculo. Gostaria de saber como ainteligência artificial pode transformar a experiência religiosa?
Eu tenho a impressão que [a IA] está transformando e transformará ainda mais a experiência religiosa. Há muitas frentes ou direções, mas ainda é difícil a gente conseguir mapear. Uma delas é o uso que os religiosos fazem da inteligência artificial para elaboração do conteúdo, seja do sermão, de outras orientações, uma fonte de consulta. Isso é parte da performance religiosa, não é a performance toda, porque buscar um sermão, pedir para elaborar um sermão na inteligência artificial é uma parte do sermão, outra parte é entregar esse sermão, performar. Outra é a dos fiéis.
A coisa é tão dinâmica e surgem novas aplicações, atualizações. Por exemplo, eu menciono no artigo uma ferramenta PastorsAI, que foi desenvolvida por gente ligada à igreja, à teologia nos Estados Unidos, e é, inclusive, uma ferramenta que eu tenho recomendado também para alguns pastores, não para substituir o sermão. Porque na experiência religiosa, também tem esse elemento da inspiração pessoal, um tipo de jornada muito específica em que a leitura do texto bíblico é mediada pela experiência do pastor e, ao mesmo tempo, pela leitura das necessidades dos ouvintes, da comunidade.
E tem a questão do tempo. Existem, de fato, muitos pastores que se dividem entre o trabalho religioso e uma outra atividade profissional. Então, isso pode ser um encurtamento na produção de conteúdo. Mas eu tenho, por exemplo, utilizado essa ferramenta, PastorsAI, que você toma o texto do sermão que você escreveu, sobe e ele gera uma série de produtos a partir do sermão. Por exemplo, um guia de estudos para a comunidade, posts para o Instagram, outras reflexões a partir do sermão e feitas com muita qualidade, com uma interação bíblica, com um diálogo com a própria teologia evangélica protestante. E, nesse sentido, é mais uma ferramenta que encurta e acelera processos. O que envolvia, por exemplo, ter uma equipe de comunicação. Essa equipe já fica mais reduzida.
Digamos que eu quero me comunicar com Deus, então vou fazer uma pergunta ali para o ChatGPT esperar que Deus se comunique comigo a partir dessa IA. Será que isso não pode endurecer ainda mais
