Flávio Bolsonaro faz discurso nos EUA voltado apenas para seus apoiadores

Flávio Bolsonaro faz discurso nos EUA voltado apenas para seus apoiadores

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Para aqueles que desejam ouvir uma análise imparcial sobre as audiências referentes ao aumento de tarifas nos Estados Unidos, recomendo a entrevista do canal Meio com Gustavo Pessoa, economista e docente da FGV. Ele participou das audiências públicas realizadas no Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). O foco de sua apresentação foi o sistema de pagamentos via pix, considerado um exemplo de sucesso e uma infraestrutura essencial para o sistema financeiro brasileiro, que concentra 60% das transações bancárias do país.

Gustavo compartilhou suas impressões no primeiro dia das audiências, onde se apresentou a uma mesa composta por representantes do USTR, Departamento da Agricultura, Departamento de Comércio, Departamento de Estado e Tesouro. A composição dos participantes variava conforme o tema abordado. O economista observou que as audiências foram predominantemente técnicas, exceto pela participação de Flávio Bolsonaro e seu irmão Eduardo.

“Naquela ocasião, houve um tom mais político; os assessores [de Flávio] estavam constantemente filmando e tirando fotos, tanto que foram advertidos pelo presidente da sessão, já que isso é estritamente proibido. O discurso dele foi carregado de política, responsabilizando Lula e mencionando a suposta ligação do filho do ex-presidente com um escândalo do INSS, além de afirmar que o Pix foi implementado durante o governo Bolsonaro. Com exceção dessa fala do Flávio, as discussões mantiveram-se técnicas”, declarou Pessoa ao canal Meio.

De acordo com a análise do economista, é evidente que Flávio Bolsonaro estava fazendo apelos eleitorais no ambiente inadequado e se expressando de forma confusa – a única pergunta dirigida a ele veio de um representante do USTR, que teve dificuldades em compreender seu discurso e solicitou mais informações sobre como o tarifaço beneficiava o governo Lula.

“A resposta dele foi complicada de entender; ele parecia surpreso e sem tempo para se preparar. Seu inglês teve algumas dificuldades, mas tentou argumentar que o governo atual estava entregando o Brasil à China e por isso pedia para não haver aplicação das tarifas; caso contrário, Lula venceria as eleições e levaria o Brasil nessa direção”, explicou Pessoa.

Curiosamente, antes da viagem de Flávio, ele teria recebido orientações para evitar manter um tom eleitoral similar ao adotado em sua carta anterior enviada ao USTR, com a intenção de atingir eleitores indecisos que poderiam ser persuadidos pela ideia de que ele defendia os interesses nacionais em vez dos seus próprios como candidato. Essa mudança parece ser uma resposta tardia ao impacto causado pelo último aumento tarifário, que acabou favorecendo Lula devido à sua postura em prol da soberania nacional e dos canais diplomáticos nas negociações.

Flávio acabou se envergonhando ao falar sem clareza e direcionar seus comentários às pessoas erradas sem cumprir sua função de trazer material publicitário adequado. Embora alguns setores empresariais brasileiros possam ter se beneficiado do apoio de colegas americanos afetados pelas tarifas sobre produtos importados do Brasil — como evidenciado em determinadas audiências técnicas — tudo indica que as declarações de Flávio não terão efeitos práticos significativos, apenas reforçando sua imagem como submisso aos Estados Unidos e solicitando quase explicitamente interferência nas eleições brasileiras.

Em relação ao tarifaço, todos sabem que essa decisão depende unicamente da vontade de Donald Trump — a própria abertura da investigação sobre o Brasil pelo USTR teve caráter político — enquanto Trump está envolvido em uma nova ofensiva contra o Irã.

Trump é um aliado ainda mais volúvel do que a relação de Flávio com o Brasil. É uma coisa se gabar por ter convencido Trump a rotular facções brasileiras como terroristas – um pedido que só favorece os interesses do presidente americano. Outra questão são as determinações sobre tarifas, sendo este praticamente o único recurso utilizado por Trump nas relações internacionais além da guerra.

O governo brasileiro fez bem em não se envolver nessa situação artificial, mantendo-se firme nas negociações oficiais e diplomáticas com os Estados Unidos. Na verdade, Flávio poderia aprender algo com Lula: a importância de falar português em eventos internacionais ou contar com um tradutor – nada é mais constrangedor do que tentar falar outro idioma publicamente apenas por subserviência.