Brasil e EUA lideram discussão nas redes sociais sobre racismo na Argentina
A falta de conexão cultural, a utilização da tradução automática na plataforma X, o temor de que a Argentina conquiste seu quarto título mundial e ofensas racistas direcionadas a um influenciador negro dos EUA, somadas à indiferença com o racismo em outras nações, têm alimentado um intenso debate que entrelaça história e futebol nas redes sociais nas últimas semanas. Esse fenômeno é caracterizado pela superficialidade e virulência típicas do ambiente digital.
Um estudo exclusivo realizado entre 1 e 21 de julho, nas plataformas X, Facebook e Instagram, revelou que a agressão racista cometida por um torcedor argentino contra IShowSpeed, influenciador americano, durante uma partida contra Cabo Verde, coincide com um aumento significativo de postagens sobre racismo na Argentina. A seleção liderada por Messi venceu a partida por 3 a 2 após prorrogação.
IShowSpeed conta com mais de 55 milhões de inscritos em seu canal no YouTube. Ele ganhou notoriedade por suas transmissões de jogatinas e eventos esportivos nos Estados Unidos, como os jogos da NBA. Em 2022, quase foi banido das transmissões da Riot Games devido a comentários machistas feitos durante uma partida online.
Na plataforma X, onde IShowSpeed possui mais de 5,4 milhões de seguidores, a maioria dos posts que conectam a Argentina ao tema do racismo são originários dos EUA (21%) e do Brasil (18%). A Argentina aparece em terceiro lugar junto com a Colômbia, ambas registrando 12% das menções. Os adversários da final, os espanhóis, ocupam o quinto lugar com apenas 7% das postagens.
O elevado engajamento proveniente dos usuários estadunidenses pode ser atribuído à origem do assunto discutido; no entanto, as críticas dirigidas à Argentina rapidamente se espalharam globalmente através da ferramenta de tradução automática da plataforma X. Embora consiga traduzir textos entre idiomas diferentes, essa ferramenta falha em captar nuances culturais e tem potencial para distorcer informações e propagar desinformação.
Taís Seibt, coordenadora do Núcleo de Estudos em Jornalismo de Dados e Computacional – DataJor (IDP/CNPq) e pesquisadora de Cultura Digital na Unisinos, aponta que especialistas indicam que o mistranslation, ou erro na tradução, intensifica a propagação de conteúdos relacionados a paixões e ódios, como a rivalidade histórica entre Brasil e Argentina no futebol.
“As traduções automáticas nas redes ignoram fatores culturais e contextos locais, resultando em imprecisões que podem levar a interpretações errôneas e reforçar preconceitos e xenofobia”, explica Seibt, que estuda fact checking e desinformação desde 2015.
Conforme o levantamento realizado, dois em cada cinco posts no X sobre racismo na Argentina generalizam o povo argentino como racista. Apesar das agressões terem sido perpetradas por alguns torcedores específicos, existe um recorte relacionado à classe social e raça: aqueles que têm condições de assistir a uma Copa do Mundo mesmo em meio a uma crise econômica no país.
Um quarto dos comentários no X associa ofensas contra pessoas negras à Argentina, incluindo termos raciais ofensivos, gestos imitando macacos ou ataques aos brasileiros e discriminação contra outros latino-americanos. Muitos internautas destacam esses episódios como frequentes e argumentam que o problema vai além de casos isolados, manifestando-se em estádios, redes sociais e situações cotidianas.
Por que isso importa?
- A Federação Internacional de Futebol (FIFA) aprovou seu Posicionamento Global contra o Racismo em maio de 2024 para combater essa questão no futebol.
- A iniciativa engloba novas regras e sanções dentro do campo, além do incentivo às denúncias e ao acesso às opiniões dos jogadores.
Os ataques direcionados a IShowSpeed durante os jogos do Mundial correspondem a um sexto das postagens sobre racismo na Argentina na plataforma X. Essas mensagens refletem insultos diversos como cânticos hostis ou objetos lançados no campo com expressões como “volte para casa” ou “vá chorar no zoológico”. O levantamento sugere que parte dos usuários vê essas ações como racismo explícito; enquanto outros acreditam que as hostilidades surgiram devido às provocações direcionadas ao jogador Messi por parte de Speed.
Instagram e Facebook: Argentinos rebatem críticas enquanto brasileiros apresentam visões divergentes sobre o racismo no país vizinho
Nas plataformas Facebook e Instagram da Meta — com 91,6 milhões e 96,4 milhões de usuários respectivamente no Brasil — 42% das contas brasileiras analisadas consideram os argentinos racistas; já 39% defendem os vizinhos sul-americanos contra as acusações.
As interações nas redes sociais atribuem o racismo à torcida argentina ou à sociedade como um todo. Além disso, há menções ao apagamento racial nas narrativas públicas sobre Messi bem como à recorrência de atos discriminatórios.
Entre os argentinos analisados nas plataformas da Meta, 67% se defendem das acusações apresentando mensagens que negam o racismo ou minimizam as ações como comportamentos individuais. Eles ressaltam aspectos como miscigenação histórica e integração social ou transferem as acusações para países como EUA, Europa ou Brasil. Dentre os 25% reconhecem problemas relacionados ao tema mencionando gestos ofensivos no futebol ou discriminação contra negros e indígenas.
Os brasileiros que apoiam os argentinos rejeitam generalizações afirmando que tais atitudes representam uma minoria; fazem comparações com situações semelhantes em seus próprios países ou contestam as interpretações dadas aos gestos citados.
Um exemplo disso é a confusão gerada entre um gesto considerado racista e uma celebração conhecida como Topo Gigio realizada pelo jogador argentino Enzo Fernández após marcar um gol na semifinal contra a Inglaterra. Esta comemoração é vista pelos argentinos como uma provocação ao ex-presidente Mauricio Macri.
Durante a Copa do Mundo de 2022, Messi também celebrou um gol usando esse gesto sem receber críticas significativas. No entanto, Enzo Fernández se viu envolto em polêmica após publicar um vídeo da seleção argentina entoando cânticos discriminatórios após vencer a Copa América em 2024. Após esse episódio ele pediu desculpas publicamente enquanto o subsecretário de Esportes foi demitido por sugerir desculpas formais à seleção francesa.
“A lógica das plataformas ignora elementos qualitativos essenciais; elas operam seguindo discursos baseados no ódio. Isso não é propício para diálogos complexos”, pondera Seibt.
A pesquisadora ressalta ainda que tanto a rivalidade tradicional quanto o desempenho superior da seleção argentina poderiam gerar interações mais intensas nas postagens nas redes sociais. Contudo,o funcionamento algorítmico dessas plataformas tende a favorecer conteúdos simplistas que exacerbam conflitos.
“Quando ocorre uma aceleração do engajamento — especialmente quando todos falavam sobre a Copa do Mundo — essa simplificação impulsiona aquilo que os usuários já estão predispostos a defender”, alerta Seibt sobre o reforço contínuo dos preconceitos existentes nas interações online.
Embaixador brasileiro: “Se dez mil torcedores viajam para ver jogo e três imbecis fazem gestos racistas há tendência à generalização”
É nessa dinâmica social alimentada pelas redes digitais que surgem verdadeiras vítimas. Após o embate final entre Argentina e Espanha na Copa do Mundo houve relatos de agressões direcionadas aos argentinos residentes fora do país — incluindo brasileiros — amplamente divulgados tanto em português quanto espanhol.
A Pública informou sobre estudantes brasileiros vivendo na Argentina ameaçados após festejarem publicamente pela derrota argentina nas redes sociais.
O Embaixador brasileiro na Argentina, Julio Bitelli, declarou que tem orientado buscar apoio policial local diante dessas ameaças ou procurar assistência nos consulados brasileiros; porém questiona até onde vai essa hostilidade generalizada.
“Nas redes sociais as situações tendem a ser ampliadas além daquilo que realmente são. Até agora estamos lidando com casos graves — cada um deles tem sua própria gravidade — mas ainda são relativamente isolados”, afirma ele enquanto observa atentamente esse cenário com cooperação técnica entre os países envolvidos sem ainda demandar ações políticas conjuntas Brasil-Argentina.
Bitelli também lamenta certas tentativas políticas oportunistas frente ao tema sem citar nomes diretamente; menciona especificamente Agustín Romo deputado provincial alinhado ao partido do presidente Javier Milei (La Libertad Avanza).
Romo fez referência sem citar explicitamente estudantes brasileiros dizendo se referir “a estrangeiros vivendo na Argentina usufruindo gratuitamente da educação pública enquanto nutrem aversão ao país”. Ele anunciou em suas redes sociais proposições legislativas para exigir pagamento pelos serviços públicos aos estrangeiros sem residência permanente na província; porém até 23 de julho não havia registro dessa proposta na Assembleia Legislativa porteña.
O Embaixador destaca que o Brasil pode contribuir significativamente para discutir questões relacionadas ao racismo na Argentina, ressaltando que o futebol é uma oportunidade valiosa para promover diálogos construtivos entre dirigentes argentinos visando ações educativas voltadas aos torcedores.
“É necessário realizar esforços pedagógicos para explicar porque existe legislação brasileira voltada para combater práticas racistas. Muitas vezes não compreendem isso corretamente; alegam ser somente algo relacionado ao futebol ou brincadeiras inofensivas. É preciso enfatizar aqui que não se trata apenas disso: é sério demais para ser ignorado”, explica Bitelli.
Entretanto ele adverte: “se dez mil torcedores vêm assistir jogos no Brasil mas três indivíduos fazem gestos ofensivos há uma tendência perigosa à generalização dizendo que todos os argentinos são assim; isso não é verdade”, conclui ele.
