Vale do Silício busca convencer cristãos de que a Inteligência Artificial é parte do desígnio divino
“Se Deus já utiliza o rádio, a televisão e as redes sociais para se comunicar com as pessoas, por que não aproveitaria também as Inteligências Artificiais? Sem dúvida, Ele fará uso delas!”. Essa afirmação é do pastor William E. Timm, que atua como coordenador de evangelismo digital na Rede Novo Tempo, e foi publicada na Revista Adventista.
A indústria tecnológica tem trabalhado intensamente para promover a ideia de que a Inteligência Artificial (IA) e suas ramificações são não apenas inevitáveis, mas essenciais – seja para gerar respostas, substituir nosso raciocínio, atender à demanda frenética do capitalismo neoliberal, resolver crises ou até mesmo atuar como um oráculo que se tornará tão necessário quanto água ou eletricidade no futuro.
Contudo, há um setor que ainda carece de convencimento por parte dos “tech bros”: a direita cristã, que permanece… dividida.
Essa divisão é algo que grupos no Vale do Silício buscam sanar, conforme revela uma matéria recente da revista Mother Jones. A jornalista Kiera Butler destaca que em 2025, durante a Conferência Nacional de Conservadorismo nos Estados Unidos – um evento anual que reúne influentes figuras políticas ligadas ao governo Trump –, o professor de psicologia Geoffrey Miller da Universidade do Novo México confrontou Shyam Sankar, diretor de tecnologia da Palantir. Miller afirmou que a indústria de IA era “globalista, secular, liberal e transumanista” e argumentou que seus defensores desejam o desemprego em massa e promovem um comunismo baseado na Renda Básica Universal. Ele ainda insinuou que veem a humanidade como meros “carregadores biológicos” para uma superinteligência artificial. Sankar aparentou desconforto durante a discussão.
Miller não está sozinho nessa visão; uma onda de cristãos ultraconservadores tem afirmado que a IA representa o anticristo e que o movimento “woke” vai além da transição de gênero, buscando uma transformação do humano em máquina.
As declarações alarmistas de algumas figuras proeminentes na tecnologia, como Sam Altman da OpenAI – que proclamou que a IA “provavelmente resultará no fim do mundo” –, também não contribuem positivamente para essa discussão.
Diante desse cenário polarizado na direita religiosa entre admiradores e céticos da IA, alguns oligarcas do Vale do Silício tentam mediar esse diálogo. Personalidades como Peter Thiel, próximo do vice-presidente JD Vance e proprietário da Palantir, assim como Katherine Boyle — uma influente voz da “direita tecnológica”, católica e próxima de Donald Trump — e Trae Stephens, cofundador da Anduril Industries e associado da Founders Fund de Thiel, estão liderando esforços para posicionar a IA como um “salvador”, até comparável ao Cristo messiânico.
Dessa forma, os cristãos são instados não só a aceitar a tecnologia mas também a considerar isso uma obrigação moral, visto que o progresso é apresentado como algo positivo.
Essa mensagem atrai tanto os defensores da tecnologia quanto os religiosos: enquanto os primeiros buscam legitimidade moral, os segundos enxergam nessa relação oportunidades financeiras e maior influência na sociedade atual.
Uma pesquisa realizada pelo Pew Research Center revelou que em 2023, 52% dos americanos expressavam mais preocupações do que entusiasmo em relação à inteligência artificial; em 2025 esse percentual caiu para 50%, mas a desconfiança continua elevada. Por isso, essa busca por legitimidade espiritual se encaixa perfeitamente nesse contexto ao priorizar crenças subjetivas sobre dados objetivos. Trata-se de uma tentativa de “reencantar a máquina”.
No Brasil, esse fenômeno também está em ascensão. O país conta com aproximadamente 47 milhões de evangélicos — cerca de 27% da população — enquanto os católicos permanecem na maioria com 57%. Segundo dados recentes do IBGE, 95% dos brasileiros acessam a internet diariamente. Assim, um país amplamente cristão e tecnologicamente conectado se torna um ambiente propício para plataformas capazes de transformar experiências religiosas em negócios digitais.
Cristãos brasileiros já abraçam inovações tecnológicas. O Hallow, considerado o aplicativo de oração mais popular globalmente, reporta ter alcançado 24 milhões de downloads em 150 países. No Brasil, foram mais de 4,8 milhões desde 2022, gerando US$400 mil em receitas entre janeiro e abril de 2026 conforme dados da AppMagic.
Aqui também se utiliza IA para desenvolver sermões ou criar vídeos sobre Jesus e até mesmo para “ouvir” e interagir sobre pecados que fiéis têm dificuldade em compartilhar com seus líderes religiosos, conforme discutido no podcast Pauta Pública.
A Igreja Adventista do Sétimo Dia tem investido em ferramentas digitais como o chatbot Esperança e o 7chat.ai. Em apenas um mês, o 7chat.ai contabilizou impressionantes 94 mil interações com os fiéis.
A teologia da prosperidade e o coaching religioso promovidos por influenciadores como Pablo Marçal também se entrelaçam nessa narrativa. Nesses modelos religiosos predominantes acredita-se que seguir certos princípios divinos resulta em bens materiais; agora nesse novo arranjo entre cristianismo e Vale do Silício surge uma mensagem semelhante: “adote as tecnologias certas e alinhe-se ao progresso como sinal de virtude espiritual”.
“No século XXI, o Anticristo é um ludita”, declarou Peter Thiel durante encontros secretos revelados em outubro de 2025 pelo Washington Post. Segundo o jornal, Thiel apresentou quatro palestras particulares em São Francisco sob o título “O Anticristo: Uma Série de Palestras em Quatro Partes”. Para ele, no contexto atual essa figura não seria mais representada por cientistas ambiciosos ou agentes caóticos; seriam aqueles que tentam barrar avanços tecnológicos — incluindo ativistas ambientais como Greta Thunberg. Com isso ele transforma conflitos econômicos em questões relacionadas à fé cega.
Essa iniciativa também gera repercussões políticas significativas. Imaginem se esses “tech bros” conseguirem estabelecer a IA como um bem moral com todo seu capital? Isso limitara críticas sobre concentração de poder, precarização laboral e vigilância excessiva. Além disso poderá resultar numa nova “Inquisição” contra aqueles que questionarem não só o conceito de “progresso”, mas também os desígnios divinos. Um cenário preocupante.
