Desvendando a complexidade da leitura: um desafio à parte

Desvendando a complexidade da leitura: um desafio à parte

Atualmente, em Portugal, está em pauta a proposta de tornar a leitura das obras de José Saramago opcional para os estudantes do ensino médio. A decisão sobre a inclusão dos livros do laureado com o Prêmio Nobel no currículo ficaria nas mãos de cada professor ou instituição de ensino. Os defensores dessa mudança argumentam que as obras do autor de Ensaio sobre a Cegueira apresentam um nível de complexidade que pode ser desafiador para alguns alunos.

Recentemente, uma influenciadora compartilhou um vídeo com seus seguidores, onde revelou que adquiriu um livro atraída pela capa e se surpreendeu ao chegar em casa com a quantidade de páginas que ele continha. “Eu me conheço, não vai dar (para ler)”, confessou a jovem.

Algumas semanas atrás, outra influenciadora admitiu utilizar inteligência artificial para redigir suas colunas em um conceituado jornal. Justificando sua escolha, ela afirmou que as ideias são dela, enquanto a IA apenas organiza seu pensamento em palavras. A colunista, que também é uma empresária bem-sucedida na área da beleza, ressaltou que essa abordagem lhe proporciona mais tempo em sua rotina atarefada.

A falta de tempo, energia e paciência para ler (e muitas vezes escrever) é uma reclamação comum. No entanto, é interessante notar que esse argumento não se aplica a diversas outras atividades. É frequente ouvir coaches incentivando o esforço e a resiliência como chaves para alcançar metas. Pessoas que levantam pesos nas academias, seguem dietas rigorosas ou investem em tratamentos estéticos frequentemente se orgulham do sacrifício feito por seus objetivos físicos. O culto à privação é comum tanto em ambientes religiosos quanto corporativos.

Portanto, eu me pergunto: por que essa narrativa não se aplica à literatura? Por que não reconhecemos que ler exige esforço, foco e comprometimento? Para dominar textos mais elaborados e profundos, é imprescindível ter lido bastante antes e dedicado tempo e paciência a essa prática.

E qual é o problema nisso? Não enfrentamos desafios difíceis todos os dias? Alguém acredita que cozinhar é simples? Existem pratos que demandam complexidade e trabalho consideráveis, mas isso não nos impede de prepará-los. E dirigir? Não é tarefa fácil; leva anos até alguém se tornar um motorista habilidoso e acidentes podem ocorrer no processo. Poderia listar inúmeras atividades desafiadoras que realizamos regularmente, mas meu ponto já está claro.

Recentemente, vi uma pesquisa comparando romances antigos com os contemporâneos. A conclusão indicava que os livros atuais costumam ter significativamente menos palavras do que os do passado. Essa observação refere-se não à extensão dos textos, mas à riqueza vocabular. Parece-me evidente que essa tendência não se limita à literatura; estamos empobrecendo nosso uso da língua e isso impacta na clareza da comunicação e na compreensão mútua. Se conhecemos menos palavras, nossa capacidade de expressão e entendimento diminui.

Há alguns meses, assisti a uma aula ministrada pelo poeta José Luís Barreto Guimarães na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Ele também exerce a medicina e ensina poesia aos futuros médicos. “O médico que só sabe de medicina nem mesmo medicina sabe”, diz uma placa na entrada do prédio onde ocorrem as aulas. Essa citação é de Abel Salazar, médico, pesquisador e artista plástico que atuou como professor naquela instituição e foi opositor político durante a ditadura em Portugal no século passado. A direção da faculdade acredita que ao aprenderem a interpretar poemas, os alunos adquirirão habilidades adicionais para compreender melhor as preocupações dos pacientes no futuro. Com as lições de poesia, eles poderão se tornar profissionais mais competentes e – acrescento eu – pessoas melhores.