Desafiando a Inteligência Artificial

Desafiando a Inteligência Artificial

Recentemente, percebi que era o único entre meus amigos que nunca havia experimentado nenhuma forma de inteligência artificial.

É inegável que, atualmente, ao realizar buscas online, enviar mensagens ou fazer compras, estamos, de certa forma, interagindo com alguma tecnologia de IA. No entanto, a utilização consciente de um sistema de inteligência artificial é algo que confesso não ter feito até agora.

Não estou afirmando que essa situação permanecerá para sempre; pretendo continuar fazendo parte do mercado de trabalho por mais alguns anos, ainda que por obrigação. Gostaria apenas de deixar registrado este relato para futuras gerações que possam se interessar em entender como alguém se sentia neste importante momento de transformação da história humana. (E também para lembrar que já utilizava travessões muito antes do surgimento do ChatGPT).

Observo pessoas ao meu redor empolgadas com a ascensão das IAs e me pergunto se essa empolgação não esconde uma certa forma de desespero inconsciente. Elas estão rindo? Para mim, isso não tem graça: sinto uma profunda apreensão.

Como alguém cuja carreira sempre esteve ligada à escrita e ao uso do raciocínio, é impossível não encarar a IA com o mesmo olhar desconfiado que uma lavadeira teria ao ver uma máquina de lavar roupas pela primeira vez. Como pode um equipamento qualquer, da noite para o dia, ser capaz de executar — com mais eficiência e rapidez — a única tarefa na qual investi anos de estudo para me tornar razoavelmente competente?

Além do medo, sinto-me isolado. Uma amiga confidenciou-me baixinho que prefere pagar por um serviço de IA em vez de contratar um estagiário. Já uma colega compartilhou que conversa todos os dias com sua assistente virtual personalizada, a quem confia suas preocupações e desafios em busca de conselhos e soluções.

Como ignorar a gravidade dessa tecnologia que não apenas substitui funções mecânicas mas também elimina postos em atividades mais sofisticadas? Como aceitar passivamente a perda do último recurso pacífico que as classes trabalhadoras tinham para lutar por melhores condições — a inteligência adquirida através dos investimentos em educação?

Sinto-me semelhante ao meu avô — um bancário aposentado que adorava ir de agência em agência para pagar contas — diante da realidade do internet banking.

Sinto-me como Seu Valter — ex-montador de fitas em uma emissora e hoje vendedor de água de coco na UFBA — quando surgiu a transmissão via satélite.

Sinto-me como o linotipista frente à impressão offset; como um copista diante da prensa inventada por Gutenberg; talvez eu me sinta como um homem das cavernas diante da criação da roda.

Unido à angústia daqueles que veem seu valor social ameaçado por novas tecnologias, busco forças para enfrentar essa realidade, encontrando consolo na ideia divertida de que as máquinas nunca poderão nos igualar na arte de errar.

Isso porque as máquinas, projetadas para serem perfeitas, falham em compreender o erro humano. Tente jogar xadrez contra uma delas: nos níveis básicos cometem erros grotescos; nos avançados são tão implacáveis que geram frustração. Somente nós, seres humanos, temos a capacidade de errar da maneira correta: seja por cansaço ou ambição, sempre na esperança de acertos. Ao errar, expressamos nossa imperfeição — e somente seres imperfeitos têm o dom maravilhoso dos sonhos.

No dia em que as máquinas forem capazes de realizar todas as tarefas sem a necessidade da presença humana; talvez o último sobrevivente desse planeta perceba inutilmente que deveria ter valorizado mais seus medos, erros e sonhos. Até lá, precisamos resistir.