Entenda o Partido Digital Bolsonarista e seu potencial impacto nas eleições de 2026

Entenda o Partido Digital Bolsonarista e seu potencial impacto nas eleições de 2026

Estamos investigando o que realmente interessa aos brasileiros, além do que é veiculado nas campanhas eleitorais. Para acessar mais reportagens como esta, clique aqui.

As eleições no Brasil tiveram seu início oficial no último domingo (16), mas as interações políticas nas redes sociais ocorrem continuamente entre os políticos e seus seguidores. Atualmente, existem 30 partidos formalmente registrados para concorrer nas eleições de 2026. Contudo, não estão contabilizados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) os grupos de natureza partidária que se organizam online, conhecidos como “partidos digitais”. Este fenômeno vem sendo analisado por Marcos Nobre, que foi convidado do programa Pauta Pública desta semana.

Marcos Nobre, professor e pesquisador do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), coordenou um estudo sobre o Partido Digital Bolsonarista, abordando sua estrutura e funcionamento. Durante a conversa com Andrea Dip, Nobre detalha como este modelo se organiza, as principais distinções em relação aos partidos convencionais e o impacto das mobilizações digitais na política brasileira.

Ele destaca: “O partido digital compreende bem o funcionamento do partido tradicional e busca alianças com ele. Por outro lado, o partido tradicional não tem entendimento sobre o digital.” Além disso, Nobre discute a disputa pela liderança do bolsonarismo e as perspectivas para a próxima corrida eleitoral.

Acompanhe os principais tópicos da discussão e ouça o episódio completo do podcast abaixo.

EP 230
O que é o Partido Digital Bolsonarista? – com Marcos Nobre


Marcos Nobre fala sobre as transformações estruturais na política brasileira.

0:00

15
15


>

fasfa-download
fasfa-link

Veja mais episódios desta série

O que caracteriza um partido digital? E qual é a função do Partido Digital Bolsonarista?

Para iniciarmos nossa discussão, é essencial compreender que os partidos digitais são uma inovação recente do século XXI. […] Para ser considerado um partido digital, é imprescindível estar inserido no mundo digital. Em junho de 2013, no Brasil, testemunhamos um ciclo global de revoltas onde o ambiente digital foi crucial para as mobilizações e tentativas subsequentes de organização.

Um exemplo é o Podemos, que embora seja um partido institucionalizado, surgiu com uma base digital. Esses partidos são frequentemente designados como partidos-plataformas porque replicam a dinâmica de plataformas online como o Facebook, permitindo que os usuários se inscrevam e participem. Enquanto alguns desses partidos buscam a institucionalização formal, outros não têm essa intenção.

Especificamente, o Partido Digital Bolsonarista não almeja se tornar uma entidade institucionalizada devido às múltiplas vantagens dessa decisão no Brasil. Isso significa que ele não precisa prestar contas ao TSE ou está sujeito à supervisão de órgãos reguladores — algo que partidos tradicionais devem fazer.

Além disso, esse partido digital possui conexões com várias outras legendas políticas além do PL, seu principal aliado. Isso proporciona uma flexibilidade significativa na atuação política já que não há exigência de prestação de contas.

Estamos nos referindo a um conjunto de atividades nas redes sociais envolvendo diferentes participantes em prol do bolsonarismo?

Sim, esse é um aspecto importante. No entanto, devemos começar definindo o conceito de bolsonarismo. Nossa definição operacional considera que uma grande parte do eleitorado brasileiro se identifica com essa ideologia. Essa identificação abrange um ecossistema digital onde interações e conteúdos compartilhados resultam em um sentimento comum entre os bolsonaristas.

Dentro desse ecossistema digital bolsonarista está organizado o Partido Digital Bolsonarista. É como se houvesse uma grande esfera representando todo esse movimento e esferas menores representando grupos ou partidos associados a ele. O objetivo desse partido é liderar esse ecossistema para consolidar sua influência dentro do bolsonarismo e garantir uma fatia significativa dos votos — estimada em cerca de 25%.

Entretanto, essa hegemonia não é garantida apenas pela nomenclatura “bolsonarista”; há concorrência acirrada nesse espaço político. Um exemplo disso é o novo partido Missão, originado do MBL [Movimento Brasil Livre], que decidiu se institucionalizar e também compete dentro desse mesmo ecossistema digital bolsonarista.

Em suma, a estrutura organizacional e a força do Partido Digital Bolsonarista não estão asseguradas. Para entender melhor isso no contexto da política atual brasileira: qual é mesmo a essência de um partido?

Um partido tem como meta alcançar o poder político. Essa busca por poder requer unidade nas ações e programática entre seus membros — algo mais complexo em comparação aos movimentos sociais com causas específicas.

Por exemplo, no Partido Digital Bolsonarista coexistem indivíduos evangélicos contrários à posse de armas ao lado de defensores da armamentização total da população. A habilidade para unir essas vozes divergentes sob uma mesma bandeira é uma característica essencial da organização partidária.

Diante deste contexto discutido aqui e apresentado em seu livro, qual sua avaliação sobre as eleições deste ano?

Claramente será uma eleição acirrada decidida por margens estreitas — este é um ponto fundamental para nossa análise inicial. Outro aspecto relevante é a transformação na dinâmica política brasileira que ainda busca se estabelecer numa nova ordem…

Anteriormente existia uma configuração conhecida como presidencialismo de coalizão — caracterizada pelo desequilíbrio entre os poderes executivos e legislativos onde o executivo possuía mais recursos para formar coalizões com partidos políticos — porém essa situação mudou drasticamente nos últimos anos.

Atualmente observa-se uma divisão mais equilibrada entre esses dois poderes dentro da estrutura presidencialista vigente no Brasil. Isso implica numa diminuição da concentração de poder nas mãos do Executivo sem alterar sua natureza presidencialista.

No contexto atual sob liderança Lula, observa-se também dificuldades em contornar oposições robustas dentro do legislativo enquanto tenta manter certa governabilidade recorrendo ao STF quando necessário.

A projeção indica que caso o bolsonarismo mantenha uma maioria substancial no Senado isso poderá complicar ainda mais a reeleição de Lula diante das adversidades já enfrentadas em seu governo anterior.

Por fim surge a questão central da nossa discussão: Como lidar com um partido digital? Essa configuração traz desequilíbrios significativos ao cenário eleitoral ao permitir atuar simultaneamente em diferentes frentes políticas enquanto neutraliza algumas das vantagens usuais associadas ao governo incumbente.

Em resumo, espera-se uma eleição altamente competitiva onde pequenos detalhes poderão determinar resultados favoráveis ou desfavoráveis para ambos os lados envolvidos neste embate político.