Flávio Bolsonaro e seus apoiadores apresentam apostas do Polymarket como indicadores eleitorais
Recentemente, ao menos 10 candidatos, entre eles Flávio Bolsonaro (PL), têm usado informações de plataformas de previsão de mercado, como Polymarket e Kalshi, para sugerir uma possível vantagem sobre Lula (PT) nas eleições. Especialistas consultados pelo Núcleo afirmam que essas divulgações infringem a legislação eleitoral, que proíbe a apresentação de dados não registrados como pesquisas oficiais, o que pode induzir os eleitores a equívocos na sua percepção.
O fenômeno começou a ganhar destaque após uma postagem do Polymarket no X, que indicou que Flávio Bolsonaro atingiu “o nível mais alto das probabilidades da eleição presidencial do Brasil, com o primeiro turno se aproximando em duas semanas”. No post realizado no domingo (20.set), foi exibido um gráfico mostrando as apostas daquele dia, onde o candidato aparecia com 58% das chances.
Embora plataformas como Polymarket estejam proibidas de operar no Brasil desde 24.abr.2026, o acesso à página permanece possível para usuários brasileiros no X. A referida rede social não faz parte do Conselho Digital, um grupo que congrega 10 grandes empresas de tecnologia e possui um acordo com a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) para retirar conteúdos considerados irregulares sem necessidade de intervenção judicial.
Consequentemente, perfis dessas plataformas no Instagram foram desativados no Brasil desde a proibição. Além disso, 27 sites de mercados de previsão foram bloqueados após notificação da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), conforme solicitação da secretaria.
Proibido, mas ainda disponível
A assessoria da Secretaria de Prêmios e Apostas declarou que “a maioria dos provedores já implementou o bloqueio”, mas investigações revelaram que em certos estados brasileiros, como o Rio de Janeiro, o acesso ao site do Polymarket ainda é viável mesmo sem o uso de VPN.
No Instagram, Flávio Bolsonaro compartilhou um Story com o gráfico do Polymarket em 21.set., originado da página @hora_livre22, que possui mais de 146 mil seguidores e reproduziu o tweet do Polymarket no X.
As publicações dos candidatos localizadas pelo Núcleo ocorreram principalmente na própria plataforma X.
Diversos vereadores e deputados federais do PL, como Lucas Pavanato (SP), Mário Frias (SP), Gilson Machado Filho (PE) e Renan Paes (SP), compartilharam ou comentaram sobre o post original ou sobre o gráfico da plataforma, acompanhados da frase “vai ser no primeiro turno!”. O deputado Lucas Bove (SP), também do PL, postou algo semelhante com a frase “vai ser Bolsonaro!” junto a uma imagem destacando Flávio Bolsonaro.
O deputado federal Mauricio Marcon (PL-RS), buscando reeleição, comentou sobre os dados no sábado (19.set), enfatizando que uma diferença de 15% em favor de Flávio “nunca havia sido registrada” e comparou essa situação à vitória de Donald Trump sobre Kamala Harris em 2024. Dois dias depois ele celebrou em nova postagem: “Pela 1ª vez Flávio atinge 60% nas chances de vitória!”.
Com um tom semelhante, Rodrigo Lima (Novo-PB) expressou entusiasmo pelo gráfico dizendo: “ACABOU LULA, ACABOU 60 pontos na Poly pow. Isso é pornográfico”.
O deputado federal Bibo Nunes (RS), vice-líder do PL na Câmara, utilizou inteligência artificial para criar gráficos ilustrativos com os dados do Polymarket e Kalshi. Ele acompanhou os gráficos com uma imagem manipulada de Flávio Bolsonaro e comentou: “a nossa vitória será com glória!”, incluindo seu número eleitoral e o da filha Camila Nunes, que também concorre à Assembleia Legislativa gaúcha. A imagem indicava que os percentuais eram provenientes de mercados de previsão.
Entre os candidatos analisados, apenas Major Mecca (SP) impulsionou uma publicação no Instagram e Facebook com uma foto ao lado de Flávio Bolsonaro e informações sobre suas probabilidades: “Flávio atinge 59% na Kalshi e 58% no Polymarket”, seguidos pelos números eleitorais deles. Na legenda estava escrito: “Dá para acabar com o sofrimento já no primeiro turno”.
Dados da Biblioteca de Anúncios da Meta mostram que Mecca gastou entre R$ 1.500 e R$ 2 mil para promover esse post em 21.set., que até quarta-feira (23) alcançou entre 250 mil e 300 mil impressões.
Aposta não é pesquisa
Em análise solicitada pelo Núcleo, Rafael Martins, advogado vinculado à Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (ABRADEP), juntamente com Fernando Neisser, professor especializado em direito eleitoral na FGV, consideraram as publicações perigosas por violarem normas eleitorais e potencialmente distorcerem a percepção pública dos eleitores.
“O mercado de previsão não deve ser confundido com pesquisa eleitoral. Os dados apresentados por plataformas como Polymarket e Kalshi refletem apenas as quantias que um grupo restrito está disposto a apostar em determinados resultados e não representam a opinião real do eleitorado”, esclareceu Martins.
“Um pequeno número de contas com alto capital pode influenciar esses percentuais. Por isso é incorreto tratar essas probabilidades como se fossem amplamente respaldadas pela vontade popular. Divulgar esses números como se fossem pesquisas legítimas é claramente irregular ao ignorar as exigências legais relacionadas ao registro e metodologia exigidas para pesquisas eleitorais”, acrescentou.
Neisser corroborou essa visão: “A maneira como os dados são apresentados – através de gráficos ou barras – espelha exatamente a linguagem usada nas pesquisas eleitorais”.
Apesar do Código Eleitoral não mencionar explicitamente os dados provenientes dos mercados de previsão nas campanhas eleitorais, essas publicações poderiam ser enquadradas na norma referente à divulgação indevida das pesquisas não registradas na Justiça Eleitoral. As sanções incluem multas variando entre R$ 54 mil a R$ 100 mil além da remoção das postagens infratoras.
Os especialistas alertam ainda que dependendo da recorrência desse tipo de conduta pelos candidatos pode-se caracterizar abuso do poder econômico ou uso indevido dos meios comunicacionais em benefício próprio ou partidário segundo a Lei Complementar 64/1990.
“Cada caso será avaliado pela justiça eleitoral levando em conta sua gravidade e repercussão sobre os eleitores”, explicou Neisser. “São análises subjetivas; se for considerado abuso isso poderá resultar na cassação da candidatura ou declaração de inelegibilidade”.
Vale lembrar que o parágrafo 7 do artigo 6º da Resolução nº 23.735/2024 do Tribunal Superior Eleitoral proíbe o uso das mídias sociais para oferecer bens ou serviços relacionados às candidaturas durante as campanhas eleitorais. O descumprimento pode configurar crime eleitoral por abuso econômico ou captação ilícita de votos.
O Núcleo tentou entrar em contato com todos os candidatos mencionados através dos canais oficiais disponíveis; porém nenhum deles respondeu até a divulgação desta matéria.
Nesta semana também foi reportado por alguns veículos que perfis estrangeiros ligados a Trump estavam patrocinando posts no X sobre as métricas favoráveis a Flávio Bolsonaro provenientes do Polymarket. Não há informações disponíveis sobre quem pagou por esses conteúdos nem seus valores devido às políticas da plataforma social.
A legislação brasileira proíbe partidos e candidatos de receberem recursos financeiros provenientes do exterior assim como proíbe propaganda eleitoral impulsionada por terceiros tanto dentro quanto fora do país.
Na terça-feira (22.set.), foi requerido pela Secretaria de Prêmios e Apostas a remoção da conta @polymarketbrasil no Instagram – agora renomeada para @polymarketportugues – após investigações feitas pelo Núcleo mostrarem que promovia apostas relacionadas às eleições brasileiras apesar das restrições existentes. O perfil utilizava colaborações com páginas voltadas para fofocas ou entretenimento visando aumentar seu alcance sem informar se tais publicações eram pagas – algo exigido legalmente em casos publicitários.
Algumas contas nas redes sociais também tentaram associar a limitação ao perfil do Polymarket à campanha eleitoral do candidato Lula; contudo essa informação é incorreta já que questionamentos feitos pela Advocacia-Geral da União à SPA ocorreram antes das postagens relacionadas às métricas favoráveis a Flávio Bolsonaro.
Neisser alerta que além das punições individuais aos candidatos pelas infrações cometidas é necessária uma abordagem mais abrangente para evitar um aumento dessa prática conforme as eleições se aproximam: “É preciso não apenas desativar sites dessas empresas no Brasil mas também seus perfis nas redes sociais acessíveis aqui para prevenir um efeito manada falso gerado por informações distorcidas”, conclui.
Quando questionado pelo Núcleo sobre as publicações dos candidatos envolvidos nesta situação, o Ministério Público Eleitoral afirmou que “não antecipa possíveis manifestações processuais”.
A reportagem também buscou respostas junto aos assessores do Tribunal Superior Eleitoral assim como dos tribunais regionais eleitorais (TRE) nos estados mencionados – São Paulo, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Paraíba – porém as respostas foram limitadas.
O TRE paulista informou através de nota oficial que atua apenas quando acionado judicialmente: “Questões concretas poderão ser analisadas pela juíza responsável diante duma eventual representação; não há espaço para juízo prévio pela Justiça Eleitoral.”
Os demais órgãos consultados não retornaram até o fechamento desta matéria.
