Como Trump está utilizando os milhões recebidos de doações das grandes empresas de tecnologia

Como Trump está utilizando os milhões recebidos de doações das grandes empresas de tecnologia

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A candidatura de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos em 2024 recebeu um aporte significativo de fundos. Entre as contribuições destacam-se os 242 milhões de dólares provenientes de Elon Musk, além de 5,5 milhões do influente bilionário Marc Andreessen, 2,5 milhões de Benjamin Horowitz, seu parceiro de negócios, e 5,1 milhões do cofundador do WhatsApp, Jan Koum. Um levantamento realizado pelo Guardian indica que esses investidores da indústria tecnológica somaram um total de 349 milhões em doações para apoiar o retorno do republicano à Casa Branca.

Após sua eleição, o fluxo financeiro continuou a partir do Vale do Silício. A Meta, liderada por Mark Zuckerberg, a Amazon, sob a direção de Jeff Bezos, e Sam Altman – como pessoa física – cada um destinou um milhão de dólares para a cerimônia de posse de Trump em janeiro passado.

No entanto, as doações não cessaram após a posse.

A Meta, a Apple, o Google e a Amazon também contribuíram para o fundo do baile inaugural de Trump. Embora os valores exatos não tenham sido divulgados publicamente, o presidente mencionou que o projeto para construir um salão com mais de 8 mil metros quadrados e capacidade para cerca de mil pessoas terá um custo estimado em 400 milhões de dólares.

Além disso, os magnatas da tecnologia encontraram maneiras adicionais para financiar Trump. Desde sua vitória nas eleições, o presidente tem mantido ativo o esforço de arrecadação para seu “Super PAC” MAGA Inc., que recebe contribuições privadas sem uma transparência clara sobre seus destinos. Até agora, esse PAC já recebeu cerca de 305 milhões desde a eleição. Super PACs são entidades criadas especificamente para financiar campanhas eleitorais; outros presidentes também obtiveram recursos semelhantes, como o democrata Joe Biden. Contudo, segundo a Constituição americana, Trump não pode concorrer novamente. Ainda assim, ele conseguiu arrecadar uma quantia recorde entre todos os presidentes eleitos após suas eleições.

Uma semana antes da posse presidencial, a Tools for Humanity – outra empresa cofundada por Altman e responsável por um controverso projeto que envolve escaneamento da íris humana (projeto que foi vetado no Brasil) – fez uma contribuição de US$ 5 milhões para o MAGA Inc. Em setembro passado, Greg Brockman da OpenAI e sua esposa realizaram uma doação individual recorde ao Super PAC: US$ 25 milhões.

Recentemente, uma nova investigação conduzida pela Pública, parte do projeto A Mão Invisível das Big Techs, revela como esses recursos financeiros têm gerado retornos favoráveis na Casa Branca. O governo Trump utilizou tanto o Departamento de Comércio quanto o Departamento de Estado para pressionar diversas nações a aceitarem acordos que restringem sua capacidade de regular leis relacionadas ao mercado digital, afetando diretamente as Big Techs.

A pesquisa revelou que pelo menos 12 países firmaram acordos ou compromissos bilaterais prometendo não regular as grandes empresas tecnológicas. Entre eles estão Argentina, Equador, El Salvador, Índia e Bangladesh.

Essas nações se comprometeram a “superar barreiras que impactam comércio e serviços digitais” e “assegurar segurança jurídica quanto à transferência internacional de dados pessoais.”

Acordos mais rigorosos foram firmados entre Tailândia, Coreia do Sul, Camboja e Malásia com os Estados Unidos; eles concordaram em não adotar políticas “discriminatórias” contra serviços digitais oriundos dos EUA. Como quase todas as grandes empresas tecnológicas são americanas, esse é o cerne da questão.

O governo dos EUA incorporou essas exigências como condição para revogar tarifas elevadas impostas por Trump sobre produtos importados desses países. Mesmo após as tarifas terem sido consideradas ilegais pela Suprema Corte americana, os acordos permanecem ativos.

Tudo isso ocorre às ocultas e sem debate público nos países envolvidos.

“Os acordos atendem diretamente às principais demandas das empresas tecnológicas sem qualquer discussão multilateral ou regional. Elas apresentaram suas exigências e o governo [dos EUA] simplesmente aceitou. Isso nunca havia ocorrido antes”, afirma Burcu Kilic, pesquisadora no Centro para Governança Internacional e Inovação (CIGI), um think tank canadense.

Isto é corrupção. Assim como Daniel Vorcaro contratava firmas ligadas aos altos escalões da república brasileira em busca de favores políticos; as Big Techs estão despejando milhões em organizações vinculadas diretamente a Trump na esperança de obter benefícios governamentais.

Caso isso ocorresse em qualquer outro país ao redor do mundo, essa prática seria reconhecida como tráfico de influência ou conflito de interesses. No contexto americano é visto como uma prática comum; enquanto isso mantém-se a impressão errônea global que apenas outras nações enfrentam problemas relacionados à corrupção. Como discutido recentemente com um colega jornalista: corrupção é um fenômeno intrínseco à sociedade que permite que corporações floresçam sem respeitar limites éticos ou regulatórios necessários para assegurar que operem em prol do bem público e mitiguem riscos associados. Este é o profundo abismo onde os Estados Unidos nos inseriram a todos nós.