Família afegã deportada por Trump tenta recomeçar no Brasil com bebê
O pintor e pedreiro afegão Jaffar Abassi*, de 39 anos, caiu em lágrimas ao lembrar da saga para deixar o Afeganistão, seu país, e chegar aos Estados Unidos, onde acreditou que poderia se instalar e viver em segurança com sua família, composta pela esposa e pelos cinco filhos, incluindo um bebê de 4 meses e uma filha de 17 anos. No entanto, o que era para ser um novo lar, tornou-se um dos maiores pesadelos de suas vidas, após serem deportados pelos agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, em inglês), sem que pudessem sequer trazer os seus pertences pessoais.
“Como sempre ouvimos dizer que a América é defensora dos direitos das crianças e dos direitos humanos, jamais imaginamos que tamanha crueldade pudesse ser cometida contra a nossa família e contra os nossos filhos, uma crueldade capaz de destruir completamente nossas vidas e deixar nossa família e nossas crianças deprimidas e desiludidas”, disse Abassi.
A truculência do ICE, a polícia migratória de Donald Trump, tem sido alvo de protestos nos Estados Unidos depois que os agentes mataram a tiros a estadunidense Renee Nicole Good, Minneapolis, no último dia 7 de janeiro, durante uma abordagem. Desde que assumiu seu segundo mandato, o presidente Donald Trump tem endurecido sua política anti-imigração, com revogação de vistos, deportações e perseguições.
O dia 11 de dezembro de 2025 parecia ser normal para a família afegã, quando receberam um e-mail que exigia a presença de todos eles no escritório do ICE, em Denver, no Colorado, às 8h do dia seguinte. A mensagem, pouco esclarecedora, gerou sentimentos dúbios nos Abassi, que nutriam a expectativa da iminente regularização do visto e, ao mesmo tempo, o medo de serem mandados de volta para o Afeganistão, onde podiam ser mortos por pertencerem à uma etnia perseguida pelos talibãs.
Embora movida pela esperança, Laila Abassi*, filha mais velha do casal afegão, de 17 anos, contou que aquele pedido soou “anormal”, porque exigiam além dos pais, a presença de todas as crianças. “Foi anormal, porque em outra ocasião, não convocaram apenas os meus pais, mas também a gente”, relatou.
A desconfiança da adolescente soou como um presságio ruim, que se confirmou no dia em que eles se apresentaram no escritório do ICE: o anúncio de que toda a família seria deportada para o Brasil, em um voo que deveria partir em poucas horas.
Laila Abassi contou que, instantes antes de saber que seria deportada, entrou no banheiro com a mãe e a irmã e ali cruzou com uma agente de imigração, que sempre deixou claro que o destino da família já estava traçado desde a chegada a Denver, a capital do estado do Colorado: era a deportação. “Quando a vi, comecei a chorar na hora”, lembrou a jovem. Ao voltar para a sala de atendimento, ela encontrou o ambiente tomado por agentes do ICE. Sem rodeios, eles anunciaram que a família precisava partir “e rápido”.
Por mais que os Abassi tentassem argumentar de que não podiam partir sem que pegassem pelo menos roupas e documentos, os agentes do ICE os ameaçavam. “Se falássemos alguma coisa, separariam meu pai e o mandariam para a prisão”, relatou aos prantos a adolescente.
“Não chorem e não falem nada, apenas nos sigam”, ordenaram os agentes de imigração. A comunidade onde a família vivia, contratou um advogado às pressas para tentar levar o caso à corte estadunidense, mas nada pôde ser feito.
Durante os cinco meses em que estiveram nos Estados Unidos, a solidariedade e a receptividade da comunidade afegã permitiram que os Abassi encontrassem um lugar para morar, comprassem móveis e roupas de inverno e matriculassem os filhos nas escolas. Contudo, assim como o sonho de viver bem nos Estados Unidos, os singelos bens conquistados ficaram para trás.
Três horas depois da fatídica notícia, todos estavam embarcados em uma aeronave que saiu do Colorado, fez uma escala em Dallas, capital do Texas, e encerrou o trajeto em um aeroporto do estado da Louisiana, onde foram deportados para o Brasil.
A vida antes dos EUA
A família Abassi demorou quatro anos para chegar aos Estados Unidos, passando por 11 países, entre eles o Brasil, na tentativa de fugir do regime Talibã, que assumiu o poder no Afeganistão em agosto de 2021, após a saída das tropas estadunidenses e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) que ficaram por quase 20 anos no território.
O vácuo de poder deixado pelas forças internacionais de segurança mostrou a fragilidade do governo afegão, que se deparava com a impopularidade de suas lideranças e os escândalos de corrupção. Poucas semanas após a retirada das tropas estrangeiras, o Talibã tomou Cabul, a capital do país, e expulsou o então presidente Ashraf Ghani.
Desde então, o regime Talibã instaurou o autoritarismo, baseado na interpretação das leis islâmicas, passou a perseguir etnias minoritárias como hazaras e cristãos, além de reverter avanços sociais recém conquistados, levando a família Abassi a deixar o país. “Por causa da discriminação e da nossa etnia, e também por causa do regime do Talibã, que proibiu a educação de meninas”, explicou o pintor.
A família Abassi pertence à etnia hazara, povo originário da região central do Afeganistão, composta majoritariamente por muçulmanos xiitas e falantes de um dialeto do persa. O grupo étnico carrega uma identidade marcada pela resistência, porque ao longo da história, foram empurrados para as margens do próprio país, tornaram-se alvo recorrente de violência e exclusão praticada por muçulmanos sunitas ou o próprio Talibã. Essa hostilidade forçou sucessivas diásporas para outras regiões do Oriente Médio.
Pouco antes de deixar o Afeganistão, a família assistiu o Talibã cometer um massacre contra os moradores de uma vila, na província de Ghazni, a 180 quilômetros de Cabul, onde viviam diversas famílias hazaras, entre a de Jaffar Abassi. “Da minha família, por exemplo, nove pessoas foram mortas […] Enquanto tentavam tomar o poder, eles foram até a vila e mataram muitas crianças, suas famílias e seus pais”, contou.
Com o risco de serem perseguidos e mortos, venderam todos os pertences, entre eles a casa, o carro e os móveis, tendo que sair às pressas. O primeiro destino foi o vizinho Irã, onde viveram até meados de 2023, quando conseguiram o pedido de refúgio e residência no Brasil.
Em São Paulo, a família disse que havia conseguido, também, o pedido de residência e que tentou se estabelecer por aqui, mas as experiências com a insegurança da capital paulista os fizeram desistir de viver no Brasil.
“Nós fomos roubados três vezes. Levaram meu celular e meu dinheiro em São Paulo: uma vez sob ameaça de faca, no caminho para o trabalho, e outras duas vezes no mercado. Depois disso, passamos a sentir muito medo”, cont
