JBS recua em compromisso de carbono neutro e gera polêmica ambiental

JBS recua em compromisso de carbono neutro e gera polêmica ambiental

Gostaria de receber os textos desta coluna diretamente no seu e-mail? Assine a newsletter Ligando os pontos, que é enviada todas as quintas-feiras. Inscreva-se aqui para garantir suas próximas edições.

Considere a seguinte situação: um amigo solicita um empréstimo de R$ 1 mil para reformar uma casa e convertê-la em um imóvel para locação. Ele organiza uma vaquinha e busca empréstimos com outras pessoas, prometendo que todos receberão de volta o capital investido com juros.

Quando ele apresenta o projeto, que inclui um belo jardim e uma atraente piscina, o investimento parece promissor. Contudo, com o passar do tempo, você descobre que esse amigo abandonou os planos de reforma. Sem comunicar nada a você ou aos demais participantes, ele decidiu destinar o dinheiro a outras finalidades.

Indignado, você questiona seu “amigo”. Ele se defende afirmando que a proposta da reforma não era uma promessa real, mas apenas uma “ambição ousada”.

Agora, imagine que algo semelhante ocorreu em uma escala muito maior no mercado financeiro. A JBS, considerada a maior produtora de carne do planeta, revelou que sua promessa feita aos investidores em 2021 – a meta de se tornar uma empresa sustentável – não passava de um desejo e não uma meta concreta.

O termo “ambição ousada” foi utilizado pelo diretor de sustentabilidade da empresa para justificar essa mudança de rumo. Em entrevista ao Financial Times, Jason Weller comentou que a multinacional brasileira foi excessivamente otimista ao se comprometer a eliminar sua pegada de carbono há cinco anos. Atualmente, ele admite que a JBS não tem controle sobre as emissões de gases geradas pelas fazendas dos seus fornecedores.

Entretanto, a JBS utilizou essas metas ambientais como alavanca para vender títulos financeiros sustentáveis, arrecadando um bilhão de dólares no mercado internacional. Esse capital está sendo destinado à expansão da empresa em novos mercados.

Na ocasião do anúncio das metas climáticas da JBS em 2021, uma campanha publicitária impactante foi veiculada prometendo “uma revolução verde” aos pequenos pecuaristas. Desde então, as emissões de carbono advindas de seus fornecedores aumentaram em 22,6%, conforme dados da própria companhia.

A contribuição da pecuária para o aquecimento global é alarmante. A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO/ONU) aponta que 14,5% das emissões globais são oriundas da criação de gado. No Brasil, essa atividade representa 51% das emissões totais – um impacto crescente devido ao aumento do rebanho bovino, que intensifica o acúmulo de metano na atmosfera.

A JBS não possui obrigações impostas por órgãos governamentais para cumprir metas de redução nas emissões de gases poluentes. Porém, aqueles que se deixaram levar pelo discurso ambiental para adquirir os títulos verdes foram enganados. Trata-se de um claro exemplo de greenwashing, onde a empresa fez promessas vazias para tornar seus produtos mais atraentes enquanto mantinha práticas convencionais.

Ao renunciar à sua meta sem hesitações, a companhia dos irmãos Wesley e Joesley Batista chocou muitas pessoas – e não estou me referindo apenas aos defensores do meio ambiente. O Financial Times destacou essa questão relevante e diversos outros veículos do setor financeiro também deram ampla cobertura ao anúncio recente da empresa sobre sua decisão de não seguir mais com o objetivo de neutralidade carbônica até 2040.

Essa situação provocou um abalo no mercado ESG (que se refere aos ativos comprometidos com questões ambientais, sociais e de governança).

Esse retrocesso levanta preocupações sobre a transparência e responsabilidade dentro do mercado financeiro.

Nos últimos anos, os papéis privados conhecidos como green bonds tornaram-se extremamente populares. Bancos multilaterais e governos também têm emitido seus próprios títulos verdes. Ao contrário dos títulos ou ações convencionais das empresas, esses papéis têm como objetivo específico financiar iniciativas sustentáveis.

Tanto as empresas quanto os governos oferecem não só taxas atrativas para quem lhes empresta dinheiro, mas também um propósito claro. No caso da JBS, a intenção era promover a redução das queimadas e do desmatamento dentro da sua cadeia produtiva – as principais fontes de emissão dos gases poluentes no setor da carne.

A justificativa apresentada pela multinacional para não agir na diminuição da pegada carbônica é similar àquela utilizada para evitar eliminar o desmatamento na sua cadeia produtiva. Como a criação do gado não é totalmente controlada pela empresa e os bois frequentemente passam por diversas fazendas antes do abate, são considerados responsáveis pelos danos ambientais apenas os fornecedores indiretos.

Permanece algumas questões: ser a maior empresa produtora de proteína animal globalmente não seria também uma ambição ousada? Se a JBS consegue garantir o cumprimento das normas sanitárias exigidas para exportar para mercados importantes como China e União Europeia, por que não teria capacidade para evitar adquirir propriedades rurais envolvidas em desmatamento? Esta é uma companhia responsável por 10% das exportações brasileiras e cujas emissões foram comparadas em algum momento às produções poluentes de países como Espanha.

Diversas ONGs já vinham alertando sobre a falta de compromisso da JBS em apresentar planos eficazes para mitigar sua pegada carbônica e controlar o desmatamento associado aos seus fornecedores. Algumas organizações como Mighty Earth e Greenpeace estão inclusive movendo ações judiciais nos EUA e na Holanda (atual sede da JBS) devido ao descumprimento dos compromissos assumidos pela própria empresa.

Em uma primeira vitória judicial durante o processo referente à abertura de capital da JBS na bolsa nova-iorquina, foi determinado pela justiça americana que a empresa indenizaria investidores por ter anunciado suas metas climáticas sabendo que não iria cumpri-las. Em novembro de 2025, ela firmou um acordo no valor de 1,1 milhão de dólares com a Procuradoria-Geral dos EUA.

Resta saber se os investidores que adquiriram os títulos verdes pressionarão a empresa ou se estarão apenas interessados nos juros prometidos. Se eu tivesse emprestado dinheiro a um amigo que fizesse promessas vazias como essas, certamente buscaria meu retorno.

Para mais informações: existem inúmeras investigações revelando as irregularidades na cadeia produtiva da carne e seus efeitos na Amazônia, Cerrado e além:

  • Bloomberg: Como grandes empresas do setor bovino estão contribuindo para a destruição da Amazônia;
  • Cobertura da Repórter Brasil sobre a JBS;
  • Agência Pública: Ações judiciais conectam JBS à devastação das Reservas Extrativistas mais afetadas pelo desmatamento na Amazônia.