Liberação de jornalistas na Venezuela resulta em embargo de comunicação

Liberação de jornalistas na Venezuela resulta em embargo de comunicação

Nas últimas semanas, o governo venezuelano libertou 84 presos políticos – de acordo dados da organização Foro Penal – “para consolidar um novo momento político que permita a convivência, o reconhecimento e o respeito entre os venezuelanos, com cumprimento da lei”, nas palavras oficiais da presidente em exercício, Delcy Rodriguez. Dentre eles, estavam 19 jornalistas.

Segundo dados do Sindicato Nacional de Jornalistas, ainda há 5 jornalistas encarcerados por exercer a profissão. A Agência Pública conversou com repórteres, diretores de veículos e familiares de presos para entender como tem sido a rotina daqueles que insistem em comunicar o que acontece dentro do país.

Após anos de endurecimento do regime, fechamento e repressão a meios, além de leis que igualam informar com “incitação ao ódio”, os profissionais ouvidos pela reportagem relatam um misto de expectativa, ceticismo e uma “esperança que tem que ser mastigada”, nas palavras de um deles.

Mesmo aqueles que foram liberados da prisão não estão livres. Seguem respondendo criminalmente na Justiça venezuelana. Não podem dar declarações, usar redes sociais e têm de se apresentar a cada 30 dias à polícia. Também estão proibidos de deixar o país.

“Eles estão na rua, mas com um tapa-bocas”, resume Vladimir Villegas, ex-congressista e jornalista que, durante muito tempo, foi identificado com o chavismo – chegou a ser presidente da TV Venezolana de Televisión durante o governo de Hugo Chávez – e hoje trabalha para dois meios de comunicação e tem um canal no YouTube.

Por que isso importa?

  • O regime chavista impede a liberdade de imprensa com a perseguição e prisão de jornalistas.
  • A libertação de jornalistas é vista como um sinal de esperança para os profissionais venezuelanos.

“A Venezuela é hoje um dos países mais difíceis para se exercer o jornalismo no continente”, explica Artur Romeu, diretor para América Latina da organização Repórteres Sem Fronteiras. “O cenário é de atrofia profunda do ecossistema midiático, resultado de mais de 15 anos de práticas repressivas: asfixia econômica dos meios independentes, leis abusivas, agressões, detenções arbitrárias, exílio de jornalistas e uma precarização generalizada da profissão”.

Ele lembra que existem 497 jornalistas venezuelanos em exílio, o maior número da região. “Uma parte significativa deixou o país por perseguição direta: esses jornalistas eram alvos frequentes de ataques nas redes sociais, ameaças públicas feitas por autoridades, vigilância e campanhas de estigmatização”.

Para ele, “a agressão ilegal dos Estados Unidos e o sequestro de Nicolás Maduro ampliaram ainda mais o cenário de incerteza para a atuação jornalística no país”, uma vez que há incerteza sobre o futuro político e um estado de exceção decretado pelo governo no mesmo dia 3 de janeiro.

Yanela, presa por reportar sobre roubos em Caracas

Dias antes de rever sua filha, havia apenas um fio de esperança na casa de Francis Ramos, que se define como “uma mulher batalhadora”. Ela falou à Agência Pública depois de colocar a neta de 6 anos para dormir.

Sua filha, Yanela Nakary Ramos Mena, ficou presa durante nove meses no Instituto Nacional de Orientação Feminina, em Los Teques, a 30 quilômetros de Caracas, onde vive. Seu marido, Gianni Ángelo González Díaz, foi enviado para a prisão de Rodeo II.

Seu crime? Em abril do ano passado, eles fizeram uma reportagem em vídeo sobre o aumento de casos de roubos de rua em Caracas para o canal de YouTube Impacto Venezuela. Gianno era a câmera e Yanela, a apresentadora. Era um vídeo noticioso, sem nada que chamasse atenção: havia depoimentos de cidadãos que foram assaltados e de um advogado. No final, os jornalistas incluíram uma fala do ministro do Interior, Justiça e Paz, Diosdado Cabello, acusando quem dizia que existiam roubos de estar mentindo.

A reportagem foi acusada de fazer parte de uma “campanha” por portais relacionados ao governo. Pouco depois, o casal foi apreendido pela polícia científica e nunca mais retornou para casa. Foram acusados pelo Ministério Público de “incitação ao ódio” e “difusão de notícias falsas” pela Lei contra os Delitos de Ódio, de 2017.

Durante nove meses, Francis teve que buscar transmitir tranquilidade para a filha do casal: “eu sou o amor do pai e da mãe para ela”, disse. Além de ter que fazer a viagem quinzenal para ver a filha, teve, ainda, que enfrentar um labirinto burocrático kafkiano, cruel de tão sem sentido.

“Às vezes eu nem tenho tempo de chorar. Isso mudou a minha vida. Neste momento, eu digo: eu não sou eu. Eu vivo agora para dar o melhor a Nakary”, disse à Pública.

Francis contou que, durante todos esses nove meses, a filha não conseguiu ter uma audiência sobre seu caso, embora o tribunal tenha agendado três datas distintas. Assim, sua prisão foi se prolongando. “Na primeira vez, não houve ‘expediente’, na outra, estavam em ‘auditoria’. E na última, havia outra coisa que também não resultou em audiência”, conta.

Durante o tempo encarcerada, ela teve uma piora na sua dor nas costas e necessitava atendimento médico devido a uma cirurgia de escoliose, pela qual ela possui parafusos de titânio. Quando foi libertada, explicou a mãe, “agora ela só quer descansar”.

Uma garrafa de champagne para Carlos Julio Rojas

Quando Carlos Julio Rojas saiu da prisão, havia uma garrafa de champagne na geladeira esperando por ele. Na sua última visita à prisão de Helicoide, em Caracas, onde ele ficou encarcerado por mais de um ano e meio, a esposa viu o estado de ânimo do jornalista, que mal continha a alegria. “Ele me agradeceu por tudo isso, porque ele mesmo está surpreso com o que eu pude fazer por ele. Passei por tudo nesses 20 meses: medo, sustos, lágrimas, risos. Houve de tudo”, diz Francy Rojas.

“Hoje ele me diz: ‘Você conseguiu minha liberdade’. Eu digo ‘não, não fui eu’ e ele diz: ‘Você, com sua voz, foi você quem conseguiu, mesmo que você não acredite, foi você.’”

Carlos Julio é um jornalista que sempre incomodou o regime chavista. Apesar de ser especializado em cobrir esportes, ele era membro da direção do a associação laboral Colégio de Jornalistas de Caracas e usava