Origem fictícia de cartel é usada pelos EUA para justificar intervenção militar na Venezuela
No domingo, 4 de janeiro, apenas um dia após o ataque à Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro, o secretário de Estado norte-americano Marco Rubio reiterou que os EUA continuarão a atacar embarcações “que transportam drogas em direção aos Estados Unidos e são operadas por organizações criminosas transnacionais, incluindo o Cartel de los Soles”, afirmou em entrevista à rede de TV NBC. “É claro que o líder desse cartel está agora sob custódia dos EUA e enfrenta a justiça norte-americana. E esse líder é Nicolás Maduro.”
Naquele dia, assim como em incontáveis vezes anteriores, Rubio estava se referindo a um cartel que não existe. Nunca existiu.
“O Cartel de los Soles é uma gíria usada em Caracas para se referir à insígnia de sol que alguns altos oficiais militares carregam em seus uniformes”, explicou à Agência Pública Fulton Armstrong, ex-diretor para temas interamericanos do Conselho de Segurança Nacional dos EUA. “É apenas a expressão de ressentimento contra gerações de generais que acumularam riqueza em casos de corrupção, e não necessariamente do tráfico de drogas”.
Especialistas e analistas sobre crime organizado afirmam que há generais envolvidos com tráfico de drogas na Venezuela, inclusive altos oficiais do governo. Mas eles não atuam como uma organização criminosa e não podem ser classificados como um cartel.
Por que isso importa?
- A participação de Nicolás Maduro no Cartel de los Soles foi usada como justificativa para o indiciamento do governante nos EUA, que por sua vez foi usado por Donald Trump para justificar legalmente invadir a Venezuela. O cartel, contudo, não existe.
O termo começou a ser usado no início dos anos 1990 – antes mesmo de Hugo Chávez chegar ao poder – para designar generais que enriqueciam pedindo propina pra a população. Mesmo assim, essa “gíria” foi alçada à qualidade de coisa existente por uma série de decisões do primeiro e do segundo mandatos de Donald Trump.
O Cartel de Los Soles foi reconhecido oficialmente pelo governo americano não apenas de maneira retórica – ele consta em decisões importantes de pelo menos dois departamentos, o do Estado e do Tesouro, além do distrito sul da Justiça de Nova York, que responde ao Departamento de Justiça.
Em março de 2020, durante o primeiro mandato de Donald Trump, a pretensa organização narco-terrorista foi usada no indiciamento criminal de Nicolás Maduro e mais 14 membros do governo venezuelano. A acusação afirmava que Maduro “ajudou a gerir e, por fim, a liderar o Cartel de los Soles à medida que ganhava poder na Venezuela” e que “enquanto a maioria das organizações de tráfico de drogas na América do Sul e Central procurou recuar da importação de narcóticos para os Estados Unidos (…) o Cartel de los Soles, sob a liderança de Maduro Moros e outros, priorizou o uso da cocaína como uma arma contra a os Estados Unidos, ao…
Depois do sequestro, EUA voltam atrás
Foi apenas na manhã de sábado, depois do ataque contra a Venezuela, que o governo Trump publicou a nova acusação criminal contra Maduro elaborada pelo Distrito Sul da Justiça de Nova York, recuando sobre ele ser líder de um cartel. Àquela altura Nicolás Maduro já estava a bordo do navio de guerra USS Iwo Jima. O novo documento de acusação havia sido impetrado pela Justiça de Nova York por volta do Natal.
Além de incluir sua esposa, Cilia Flores, como ré, o novo documento reduziu significativamente o papel do Cartel de los Soles. A organização é citada apenas duas vezes, e descrita como um “sistema de patronagem administrado por aqueles no topo”.
“É mais uma narrativa exagerada que provavelmente teve uma utilidade no momento em que começou a ser usada, e que agora não tem mais a mesma utilidade”, avalia de Luca. “Isso agora fica claro porque houve esse recuo. Juridicamente seria impossível provar …
Advogado de Trump supervisionou narrativa sobre Cartel de los Soles
A acusação feita em 2020 foi supervisionada por um procurador de má fama e poucos amigos que trabalhava no Distrito Sul da Justiça de Nova York.
No ano seguinte, Emil Bove III sairia do cargo para ir para um escritório privado, e em 2023 ele se tornou advogado de Donald Trump – foi um dos que defendeu o presidente no caso da atriz pornô Stormy Daniels, no qual ele foi condenado por pagar propina para silenciar histórias sobre um encontro sexual durante a campanha eleitoral de 2016. Bove também defendeu Trump no caso de roubo de documentos confidenciais durante seu primeiro governo.
Graduado em direito pela Universidade de Georgetown, Emil Bove tornou-se procurador em Nova York em 2012. Enquanto estava no cargo, se especializou em casos contra narcotraficantes. Esteve envolvido, por exemplo, no caso dos sobrinhos de Nicolás Maduro, Efraín Antonio Campo Flores e Francisco Flores de Freitas, presos em novembro de 2015 em uma operação armada pela DEA, na qual eles tentavam transportar 800 quilos de cocaína para os Estados Unidos. Condenados a 18 anos de prisão, em 2022 os dois foram liberados em uma troca de prisioneiros entre o governo de Joe Biden e o governo c….
Outro caso no qual participou foi igualmente ruidoso: a investigação que levou à condenação do ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, a 45 anos de prisão por conspiração para traficar 400 toneladas de cocaína para os EUA, ao lado do seu irmão, Juan Antonio Hernandez.
O ex-presidente, que é aliado do candidato Nasry “Tito” Asfura, declarado vencedor em uma eleição altamente questionada em Honduras, foi perdoado por Donald Trump em 1 de dezembro de 2025.
Em resposta, Bove não reclamou. “Tenho orgulho de ter representado e servido anteriormente ao Presidente Trump, e confio e respeito completamente o seu julgamento no exercício do poder de perdão, que a Constituição confere exclusivamente a ele em virtude de seu mandato do povo americano”, afirmou ao New York Times.
Trump demonstrou o quanto confiava em Bove logo no começo do seu segundo mandato. Em janeiro de 2025, Bove foi nomeado como número 2 do Departamento de Justiça, como Procurador-geral adjunto.
Foi ele quem operacionalizou a interferência do Departamento de Justiça sobre os procuradores de Nova York – justamente a divisão onde ele havia trabalhado – para extinguir a ação contra o ex-prefeito de Nova York Eric Adams, aliado de Trump, por corrupção. A procuradora interina e mais cinco funcionários se demitiram em protesto.
Em resposta, Bove sugeriu que quem discordasse deveria renunciar. “Não há uma soberania separada neste poder executivo” escreveu.
Em setembro de 2025, Trump recompensou Bove com o cargo de juiz no Tribunal de Apelações do terceiro circuito, que inclui os estados de Delaware, Nova Jersey e Pensilvânia – um cargo vitalício.
E agora?
Para Fulton Armstrong, que hoje é professor
