Gaza: um ciclo interminável de tragédias e sofrimento

Gaza: um ciclo interminável de tragédias e sofrimento

Após um longo período de hostilidades que começou em 7 de outubro de 2023, Israel anunciou um acordo de cessar-fogo em outubro de 2025, com o objetivo de interromper os ataques e facilitar o diálogo. Entretanto, na prática, meses após esse anúncio, as operações militares e bombardeios persistiram, revelando a fragilidade do acordo e a continuidade da violência no território palestino.

A recente intensificação do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã fez com que a mídia internacional voltasse sua atenção para o potencial de uma guerra regional mais ampla. Neste contexto, a cobertura sobre a situação em Gaza diminuiu, mesmo com a continuação dos ataques e o aumento da crise humanitária na área. Desde o início das hostilidades, aproximadamente 70 mil pessoas perderam suas vidas apenas na Faixa de Gaza, e esse número continua a crescer diariamente.

No episódio atual do Pauta Pública, Andrea Dip conversa com o jornalista palestino Motasem A Dalloul, que relata os eventos diretamente da Faixa de Gaza. Dalloul expressa sua dor pela perda de sua casa e da maior parte de sua família, incluindo sua esposa e três filhos. Ele também discute as condições precárias enfrentadas pelos palestinos e critica a postura das potências ocidentais frente à violência na região. “Na prática, não existe cessar-fogo. O que vemos é uma diminuição temporária dos ataques. Contudo, eles frequentemente se intensificam novamente, resultando em mortes diárias entre os palestinos em Gaza. Não há um único dia sem novos falecimentos”, afirma ele.

Confira os principais destaques e ouça o podcast completo abaixo.

EP 212
Gaza: a guerra que nunca termina – com Motasem A Dalloul


Jornalista em Gaza narra os efeitos dos ataques israelenses e como a guerra impacta o cotidiano da população palestina.

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Teoricamente, após dois anos de conflitos intensos, um acordo formal para cessar as hostilidades foi estabelecido na Faixa de Gaza. Mas qual é a realidade?

Na realidade, não há cessar-fogo efetivo. O que ocorre é uma diminuição temporária nas agressões. Porém, periodicamente os ataques se intensificam novamente e diariamente há palestinos perdendo suas vidas em Gaza. Não passa um dia sem novas fatalidades.

Constantemente eles eliminam civis alegando ter atingido líderes militantes. Entretanto, as evidências mostram outra realidade. Quando visitamos hospitais e observamos os corpos das vítimas fatais, constatamos que muitas são crianças e mulheres; raramente homens adultos.

Essas alegações revelam-se enganosas e têm como função justificar as ações violentas contra os palestinos em Gaza. Se essa justificativa é baseada na ideia de que estão atacando combatentes, aceitemos isso por um momento. Mas então por que não permitem a entrada adequada de alimentos? Por que impedem a chegada de medicamentos? Por que barram materiais necessários para reconstruir hospitais e clínicas?

E deixem-me perguntar: por que não avançam para uma segunda fase do cessar-fogo se os palestinos cumpriram todos os requisitos estabelecidos no acordo? Eles libertaram prisioneiros, entregaram os corpos dos mortos e até abandonaram seus escritórios. O governo palestino em Gaza — acusado por Israel de ser composto por milícias do Hamas — fechou suas portas.

Afirmaram estar aguardando a chegada do Conselho de Paz para assumir responsabilidades. Contudo, negaram-se a permitir que seus membros entrassem em Gaza para iniciar operações e administrar as necessidades da população local. Não recuaram nenhum centímetro das áreas ocupadas apesar da exigência do cessar-fogo nesse sentido. Todos os dias expandem ainda mais essas áreas ocupadas empurrando a população para um espaço cada vez menor — menos da metade da Faixa de Gaza.

Caso você visite Gaza e olhe para a costa do Mediterrâneo encontrará uma orla repleta de tendas onde pessoas deslocadas vivem. Imagine centenas de milhares morando sob lona à beira-mar durante o frio intenso do inverno. Pense no desespero ao acordarem subitamente quando uma onda forte arrasta suas tendas durante a noite enquanto procuram por seus filhos desaparecidos. Essa é uma realidade insuportável.

Gaza tornou-se um lugar inabitável. As forças israelenses posicionadas ao leste da cidade continuam disparando contra as tendas dos deslocados.

Mês passado uma bala atravessou a tenda onde meus filhos estavam alojados. Por sorte nenhuma criança ficou ferida. Porém durante esse genocídio eu perdi minha esposa e três filhos.

No mês seguinte à escalada dos conflitos em fevereiro de 2024 perdi minha esposa junto ao meu filho pequeno Abu Bakr — ele tinha apenas dois anos e meio na época. Em maio do mesmo ano perdi outro filho e no dia 8 de outubro de 2025 meu terceiro filho morreu enquanto tentava buscar comida para nós dois dias antes do anúncio do cessar-fogo.

Não foram só esses quatro membros familiares que morreram. Também perdi um irmão — ele contava com 40 anos — além do filho dele, meu sobrinho. Uma irmã também foi assassinada dentro de casa juntamente com seu marido e filhos; somente seu esposo e um dos filhos sobreviveram ao ataque. Além disso perdi toda a família do meu irmão mais velho que atualmente reside no Egito.

No total já são mais de 200 parentes meus falecidos devido aos conflitos – comparado aos números totais isso não é incomum pois já ultrapassamos 72 mil mortos neste cenário trágico.

É importante observar que embora haja dados oficiais indicando mais de 72 mil mortos existem cerca de 10 mil desaparecidos não contabilizados nessa estatística – muitos destes estavam dentro das casas quando ocorreram os ataques significando que provavelmente seus corpos estão sob escombros; além disso existem milhares cujo destino permanece desconhecido – se estão vivos ou mortos ou se foram sequestrados pelas forças israelenses é uma incógnita total para nós.

E qual impacto tem tido essa escalada militar Estados Unidos-Israel contra o Irã na situação em Gaza?

Nós palestinos compreendemos qual é o objetivo final dessa ocupação israelense: estabelecer o chamado “Grande Israel”, abrangendo regiões desde o Nilo até o Eufrates — englobando partes do Egito, Síria, Líbano entre outros países – portanto entendemos esses ataques como parte desse projeto maior.

Ainda estão atacando Líbano ou Irã podendo futuramente direcionar suas ações contra Turquia ou Síria – alguns líderes israelenses já indicaram publicamente essa possibilidade após ações contra Irã indicando Netanyahu pressionando Trump para continuar tais ofensivas militares mantendo assim nosso foco longe das realidades aqui dentro.”

A ação militar promovida pelos EUA/Israel contra Irã nos afeta principalmente por duas razões: primeiro porque esses ataques são tão abrangentes dominando completamente atenção mundial fazendo com que mídia ignore nossa situação atual permitindo assim continuidade violenta sem vigilância internacional apropriada; percebo inclusive queda significativa no envolvimento com meu trabalho visto muita gente voltou atenção exclusivamente ao Irã – sem dúvida este tema merece destaque mas precisamos igualmente manter foco sobre eventos aflitivos ocorrendo diariamente aqui em Gaza pois nossa luta não cessa!

A segunda razão está relacionada ao fato desses ataques terem como alvo diretamente Irã seus aliados; resistência palestina presente Gazarecebe apoio deste país embora existam diferenças ideológicas entre sunitas xiitas mas mesmo assim reconhecemos Iran como um dos poucos estados apoiadores publicamente resistência palestina – Netanyahu afirma abertamente querer derrotá-los incluindo também aos próprios palestinos portanto impactando diretamente nossa situação capacidade atuar localmente sobre essas questões fundamentais.”

E como vislumbramos nós palestinos futuro região?

Duas reflexões surgem neste contexto:

A primeira diz respeito esperança intensa cultivada entre nós acreditamos firmemente dominação israelense estadunidense não prevalecerá até ano (data)2027!A segunda questão envolve recusa aceitar vida insuportável imposta atualmente à Gazanos restou hospital escola infraestrutura básica sequer redes esgoto funcionando!

Cremos firmemente nesta terra nosso direito existir aqui inegociável! Estamos preparados lutar resistir defender direitos nossa herança cultural ancestralidade! Todo povo palestino especialmente aqueles vivendo Gazacom quem convivo cotidianamente crianças mulheres idosos…Todos dispostos sacrificar tudo defendendo Palestina seus direitos!