Na Copa do Mundo, o verdadeiro desafiador será o calor intenso
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Se a seleção brasileira alcançar a final da Copa do Mundo de futebol neste ano, no dia 19 de julho, no MetLife Stadium, em Nova Jersey, ela pode enfrentar não apenas o time adversário, mas também um desafio adicional: um calor extremo que pode comprometer o desempenho dos atletas. As condições climáticas atuais apresentam um risco duas vezes maior em comparação ao que se observou há 32 anos, quando o Brasil participou da final nos mesmos Estados Unidos.
A situação já era difícil em 1994, quando a seleção conquistou seu tetracampeonato enfrentando temperaturas de até 38 °C. A deterioração das condições climáticas desde então indica que até 25% das partidas poderão ser afetadas por condições desfavoráveis, com altas temperaturas e umidade excessiva. Para se ter uma ideia, a média global da temperatura naquele ano era de menos de 0,5 °C acima dos níveis pré-industriais; em 2024, esse número chegou a 1,5 °C.
Um alerta sobre essas questões foi emitido na quinta-feira, 14 de maio, pouco menos de um mês antes do início do torneio pela World Weather Attribution (WWA), um grupo de cientistas do Imperial College de Londres que investiga como as mudanças climáticas influenciam eventos meteorológicos extremos.
A crescente preocupação é que a Copa do Mundo será realizada durante o verão do hemisfério norte, em uma época marcada por ondas de calor severas nos últimos anos. Isso pode representar riscos à saúde tanto para os jogadores quanto para os torcedores. Um exemplo recente ocorreu na Copa América de 2024 nos EUA, onde um assistente desmaiou devido ao intenso calor em Kansas City.
Analisando os horários das partidas, os pesquisadores estimaram que uma em cada quatro das 104 partidas poderá ocorrer sob condições que excedem os limites de segurança recomendados pelo FIFPRO, o sindicato global dos jogadores. De acordo com as previsões, aproximadamente 26 jogos enfrentarão temperaturas superiores a 26 °C no índice WBGT (Temperatura de Bulbo Úmido), que integra fatores como temperatura ambiente, umidade e radiação solar para avaliar o estresse térmico sobre o corpo humano.
Destes jogos, cerca de cinco podem ultrapassar os 28 °C no WBGT – equivalente a 38 °C em clima seco ou 30 °C com alta umidade –, situação em que seria necessário considerar o adiamento. Essa análise detalhada é crucial porque uma elevada umidade dificulta a evaporação do suor e compromete a capacidade natural do corpo de se resfriar. Com valores acima de 28 °C no WBGT, os riscos incluem desidratação severa, exaustão térmica e até golpe de calor, colocando em risco não apenas os atletas, mas também o público presente.
A situação é ainda mais preocupante considerando que muitos jogos ocorrerão em estádios abertos e sem sistemas adequados de climatização; apenas três dos dezesseis estádios possuem ar condicionado. O estádio onde ocorrerá a final em Nova Jersey não conta com essa infraestrutura e será também o local da estreia do Brasil no dia 13; felizmente esta partida será disputada à noite.
Conforme as análises realizadas pela WWA, existe uma chance em oito de que a final aconteça com temperaturas acima dos 26 °C no índice WBGT e quase 3% de probabilidade de atingir níveis ainda mais críticos próximos aos 28 °C. Para os jogos iniciais da seleção brasileira, dificuldades são esperadas logo desde o começo; seu terceiro jogo contra a Escócia ocorrerá em Miami e as chances de se enfrentar condições superiores aos 26 °C são consideradas “quase certas”.
Pode parecer uma probabilidade baixa. Contudo, para um evento dessa magnitude – envolvendo atletas nos limites físicos e centenas de milhares de torcedores entre estádios e áreas para fãs – esse risco é alarmante. “O fato da final da Copa do Mundo ter uma possibilidade significativa de ser realizada sob condições extremas deve servir como alerta tanto para a FIFA quanto para os torcedores”, destacou Friederike Otto, climatologista do Imperial College London e uma das líderes da WWA.
A preocupação não vem apenas dos climatologistas. Um grupo composto por especialistas em saúde pública enviou uma carta aberta ressaltando que os protocolos atuais da FIFA não são adequados para garantir a segurança dos jogadores, trabalhadores e espectadores frente às altas temperaturas agravadas pelas mudanças climáticas.
No documento enviado pelos especialistas é destacado que o calor excessivo representa uma ameaça direta à saúde dos envolvidos – especialmente idosos e pessoas com doenças preexistentes. Eles propõem medidas preventivas mais eficazes para o torneio como ajustes nas programações das partidas, criação de áreas sombreadas adequadas, fornecimento suficiente de água potável e estruturas para resfriamento. Além disso, pedem revisão dos protocolos médicos e maior transparência nos critérios utilizados para determinar interrupções ou adiamentos das partidas.
Os médicos também criticam politicamente a FIFA por seus laços comerciais com empresas envolvidas nas emissões responsáveis pelo aquecimento global. A Saudi Aramco – maior produtora mundial de petróleo estatal da Arábia Saudita – é patrocinadora oficial da Copa. Segundo os especialistas envolvidos na carta aberta, essa “promoção ativa [dos combustíveis fósseis] gera um conflito direto com a proteção da saúde dos jogadores”.
A questão já havia sido levantada durante a Copa do Catar em 2022 quando o torneio foi excepcionalmente transferido para o final do ano visando escapar do calor intenso daquela região. Agora ele ocorrerá no auge do verão nos Estados Unidos – predominantemente num país afetado por frequentes ondas de calor – enquanto seu líder questiona publicamente a existência do aquecimento global. Nesta Copa do Mundo será impossível ignorar esse problema climático; ele atuará como um vigésimo terceiro jogador em campo contra todos.
