A incessante batalha de Trump altera a frágil dinâmica de poder no Oriente Médio
A administração da Casa Branca está analisando uma abordagem para lidar com a forte oposição à guerra com o Irã que vem crescendo entre os eleitores dos Estados Unidos. No último domingo, Donald Trump desqualificou uma nova proposta iraniana como “absolutamente inaceitável” em suas redes sociais. Conforme reportado pela agência Tasmin, a proposta do Irã incluía um cessar-fogo em todos os fronts, a garantia de que não haveria novos ataques e o controle sobre o estreito de Hormuz.
As conversações entre os Estados Unidos e o Irã, mediadas pelo Paquistão, continuaram sem progresso significativo até agora, embora essa situação possa mudar a qualquer momento. O presidente Trump está em busca urgente de um acordo que lhe permita declarar vitória e retornar ao país. No entanto, o Irã não demonstra disposição para colaborar nesse sentido. Enquanto isso, o Estreito de Ormuz permanece bloqueado, resultando em uma alta nos preços da gasolina globalmente, que subiram 50% desde o início do conflito no final de fevereiro.
Desde o início da guerra, os EUA enfrentam uma das mais impopulares entre as suas intervenções militares na visão da população americana. Uma pesquisa realizada pela PBS/NPR/Marist revelou que 60% dos entrevistados desaprovam a maneira como Trump tem conduzido a guerra, um aumento de seis pontos percentuais desde março. A resistência entre os republicanos ao conflito cresceu de 15% para 22%. Mais de 62% dos pesquisados acreditam que as políticas adotadas por Trump estão colocando em risco a posição dos Estados Unidos no cenário internacional. Uma porcentagem semelhante também desaprova sua gestão em relação à inflação e ao enfraquecimento econômico.
É incerto se o presidente possui um plano eficaz para afirmar que derrotou o Irã ou se está simplesmente aguardando uma solução inesperada que possa livrá-lo de potenciais desastres eleitorais neste ano.
Uma análise sigilosa da CIA, divulgada pelo Washington Post, indicou que o Irã pode resistir ao bloqueio naval imposto pelos EUA por um período de três a quatro meses. Isso sugere que Teerã pode estar buscando desacelerar as negociações de paz.
Os líderes iranianos estão cientes da enorme pressão interna enfrentada por Trump pelos republicanos, preocupados com possíveis consequências negativas nas eleições gerais programadas para novembro, onde estarão em jogo todos os deputados e um terço do Senado.
Na semana passada, Trump expressou sua frustração com a lentidão das negociações e alternou entre ameaçar bombardear as infraestruturas do Irã e afirmar estar otimista sobre alcançar um acordo com seu adversário. Especialistas acreditam que sua perspectiva positiva sobre as negociações visa estimular a queda do petróleo e impulsionar o mercado financeiro.
No entanto, a pressão sobre Trump no Congresso está crescendo. Os democratas estão tentando fazer valer a Resolução sobre Poderes de Guerra de 1973, aprovada durante o governo Richard M. Nixon (1969-1974) com apoio bipartidário. Essa resolução limita as ações do presidente ao enviar tropas americanas para fora do país sem aprovação prévia do Congresso, exigindo autorização legislativa dentro de sessenta dias após o início das hostilidades. Nesse caso, o presidente teria duas opções: buscar autorização do Congresso para continuar a guerra ou retirar-se em até trinta dias.
Com a aproximação do prazo de sessenta dias em 1º de maio, o Secretário de Defesa Pete Hegseth argumentou que tal resolução não se aplicava: “Atualmente estamos em um cessar-fogo; segundo nossa interpretação, isso significa que o prazo é suspenso ou interrompido”.
Ainda assim, Trump continua se referindo ao conflito com o Irã como uma guerra. Na última semana, Marco Rubio, Secretário de Estado atual, afirmou que a Operação Epic Fury (referente à guerra contra o Irã) havia sido encerrada. Ele também anunciou a Operação Projeto Liberdade — destinada a “guiar” embarcações encalhadas no Estreito de Ormuz — mas essa iniciativa foi suspensa devido à pressão da Arábia Saudita como resposta à influência iraniana na passagem marítima.
A troca contínua de tiros entre os EUA e o Irã nas proximidades do Estreito de Ormuz e a manutenção do bloqueio comercial evidenciam claramente que os combates ainda persistem.
Durante discussões sobre a eficácia da Operação Projeto Liberdade, Lindsey Graham, senador republicano da Carolina do Sul e aliado fiel de Trump, declarou: “Se recuperarmos o controle sobre o Estreito de Ormuz, será xeque-mate”. Em resposta à declaração dele nas redes sociais, George Conway — advogado conservador e ex-marido da conselheira sênior Kellyanne Conway — ironizou: “Isso deve ser algum tipo novo de xadrez onde você compete para recolocar as peças depois de derrubá-las.”
Apesar das aparentes dificuldades nas negociações, Trump ainda procura uma solução rápida para encerrar a guerra através da elaboração de um documento sucinto definindo os parâmetros das conversas entre os dois países. Entretanto, Teerã parece inflexível quanto à renúncia do direito ao enriquecimento nuclear — fator que poderia levar à fabricação de armas atômicas — além disso, não mostra disposição em abrir mão do controle sobre o Estreito sem antes garantir a suspensão das sanções econômicas e o descongelamento dos ativos financeiros iranianos. O impasse persiste sem vislumbres claros de resolução.
Mudanças nas Dinâmicas Políticas do Oriente Médio
A guerra teve impacto significativo nas relações políticas no Oriente Médio. Os Estados Unidos consolidaram sua presença na região através duma aliança duradoura com Israel e acordos estratégicos com várias nações árabes que veem o Irã como um inimigo declarado. A rede americana na região inclui bases militares espalhadas por diversos países e vendas massivas de armamentos aos seus aliados como parte da estratégia para conter Teerã e seus aliados regionais — Hezbollah no Líbano, Hamas em Gaza e Houthis no Iémen.
No entanto, tensões recentes entre Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos (EAU) provocaram fissuras nessa rede aliada dos EUA. Por exemplo, no mês passado os EAU decidiram sair da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) buscando maior autonomia na definição dos preços petrolíferos.
Ainda sob um cessar-fogo aparente, Teerã atacou os EAU como retaliação pela estreita colaboração destes com Washington e Tel Aviv; esse movimento aproximou ainda mais os iranianos dos seus aliados não árabes na região. As tensões também aumentaram com a Arábia Saudita na luta pela liderança contra Teerã. Assim sendo, Washington enfrenta agora o desafio de manter os EAU como aliados próximos sem alienar Riade — que mantém laços comerciais profundos com Donald Trump e investiu bilhões nos negócios familiares dele..
Enquanto isso ocorre sob um frágil cessar-fogo entre Israel e Líbano; Israel continua bombardear seu vizinho norte enquanto Hezbollah responde lançando mísseis nesta direção. O primeiro-ministro israelense Bibi Netanyahu baseou sua sobrevivência política em ações rigorosas contra Hezbollah no Líbano e seu envolvimento ativo na luta contra Teerã — adversário declarado desde a fundação da República Islâmica em 1979.
No entanto Netanyahu está diante duma encruzilhada política; parece claro que Washington anseia por uma saída desse suposto “conflito interminável” promovido por Trump no Oriente Médio. Apesar do apoio popular às ações militares israelenses contra Teerã ter crescido após ataques realizados pelo Hamas contra Israel em 7 de outubro deste ano; esse apoio não parece refletir diretamente nas próximas eleições parlamentares israelenses para compor um novo governo.
Pelas pesquisas atuais indica-se que Netanyahu perdeu força junto aos eleitores israelenses; análises sugerem uma aliança eleitoral composta por partidos ideologicamente variados — desde social-democratas até tradicionais conservadores — apresenta ligeira vantagem nas eleições agendadas para setembro ou outubro próximo. O voto dos árabes israelenses representa 21% da população fora das áreas ocupadas; podendo ser decisivo se comparecerem às urnas massivamente.
Netanyahu espera ardentemente conseguir uma vitória eleitoral para sua coalizão extremista para protelar seu julgamento por corrupção pendente; um novo acordo militar com os EUA visando atacar novamente Teerã poderia aumentar suas chances eleitorais consideravelmente ao destruir suas capacidades bélicas.
Neste contextoTrump se mostra relutante em engajar-se novamente numa guerra declarada apesar das suas constantes provocações belicistas nas redes sociais; por outro lado; uma ofensiva significativa contra Teerã poderia fornecer-lhe argumentos robustos defendendo mais uma vez ações americanas respaldadas por Israel visando neutralizar qualquer capacidade bélica nuclear ou convencional iraniana.
Ainda assim não há justificativa política evidente para Trump abandonar Netanyahu—um aliado leal— mas ele já demonstrou disposição deixar outros envolvidos caso isso beneficie seus interesses pessoais; seja qual for o caminho escolhido ele precisará encontrar meios eficazes para finalizar essa guerra apresentando resultados tangíveis capazes justificar os cerca US$ 72 bilhões já investidos neste conflito..
A continuidade desse conflito só resultará em preços elevados nos combustíveis —uma realidade diária imposta aos cidadãos americanos frente às consequências diretas dessa guerra.
A Arte Política nos Desenhos Eleitorais
Nesta última semana Trump obteve duas vitórias relevantes passíveis impactarem as eleições legislativas previstas para novembro mesmo enfrentando índices baixos de aprovação próximos aos 35%. A Suprema Corte dos EUA autorizou estados americanos redesenharem seus distritos eleitorais favorecendo candidatos republicanos ante democratas. Além disso,a Suprema Corte da Virgínia invalidou resultados referentes plebiscito recente alterando contornos eleitorais previamente estabelecidos beneficiando candidatos democratas.
Comandadas pelo Partido Republicano diversas legislaturas estaduais agora correm contra tempo buscando ajustar limites eleitorais visando proteger candidatos locais enquanto tentam impedir avanço democrático na Câmara baixa.
Caso Trump não encontre soluções rapidamente acabando com essa guerra nem reduzindo custos combustíveis enfrenta riscos sérios observando crescimento democrata.No horizonte paira ameaça real quanto possibilidade derrota avassaladora nos pleitos congressuais podendo resultar num maior controle sobre presidência já considerada fora controle.
