Adolescente negro luta contra assalto e enfrenta 74 dias de prisão injusta em São Paulo

Adolescente negro luta contra assalto e enfrenta 74 dias de prisão injusta em São Paulo

Wesley Andrade Ribeiro, um ajudante de pedreiro de 18 anos, estava aproveitando uma ensolarada tarde de folga na praia do Jardim Ocian, em Praia Grande, litoral de São Paulo, quando foi surpreendido por gritos e uma correria. O alvoroço era provocado por uma tentativa de roubo de uma corrente de ouro que acontecia no calçadão. Em um ato de solidariedade, ele decidiu correr atrás dos dois adolescentes suspeitos do crime, com a intenção de recuperar o objeto roubado. No entanto, essa ação altruísta rapidamente se transformou em um pesadelo para ele. Ribeiro foi confundido com os criminosos e acabou preso pela Guarda Civil Municipal (GCM) no dia 8 de março deste ano.

Wesley passou 74 dias detido no Centro de Detenção Provisória (CDP) da Praia Grande, aguardando que as evidências pudessem demonstrar ao juiz que sua prisão era um erro. Sua prisão preventiva foi cancelada em 21 de maio, e ele foi absolvido das acusações após a vítima afirmar durante a audiência que ele não era o assaltante. Em entrevista à Agência Pública, Ribeiro descreveu essa experiência como “a mais difícil” de sua vida até agora.

O jovem relata que a prisão aconteceu quando ele conseguiu alcançar um dos adolescentes na rua Affonso Chaves, a poucos metros do calçadão. Segundo Ribeiro, os GCMs Raimundo Edvaldo Da Silva Basilio e Gabriel Alves Ribeiro estavam armados e ordenaram: “deitem no chão e não se mexam.” “Eu tentei explicar ao GCM que só queria ajudar, mas fui mandado calar a boca”, recorda o jovem negro.

Logo após sua detenção, outro adolescente e um jovem também de 18 anos foram levados ao mesmo local como suspeitos do roubo. Ribeiro mencionou que todos os quatro jovens eram negros e foram mantidos sob a mira das armas dos guardas civis até que a vítima chegasse para identificá-los na rua, ainda sob efeito da adrenalina da situação.

Após serem levados à delegacia, Wesley e o outro jovem permaneceram juntos na viatura da guarda. Ali compartilharam suas apreensões e incertezas sobre se conseguiriam voltar para casa ou se seriam mais uma estatística de prisões errôneas pelas forças de segurança brasileiras.

Um levantamento da Repórter Brasil revela que cerca de 1.400 pessoas foram presas injustamente nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro nos últimos cinco anos até julho de 2025. Além disso, uma pesquisa realizada pelo Conselho Nacional das Defensoras e Defensores Públicos-Gerais (Condege) em 2021 indicou que 83% dos indivíduos detidos erroneamente por reconhecimento fotográfico eram jovens negros e pobres.

Wesley compartilhou que o outro jovem capturado também estava voltando do trabalho quando foi abordado pelos GCMs: “Ele disse que nem sabia o que estava acontecendo.” Segundo Ribeiro, esse jovem não participou da perseguição nem estava correndo no momento da detenção.

Por que isso importa?

  • Nos últimos cinco anos, aproximadamente 1.400 prisões indevidas foram registradas nos tribunais de São Paulo e do Rio;
  • Uma pesquisa revelou que em 2021, 83% das detenções injustas no Brasil relacionadas a reconhecimento fotográfico envolviam jovens negros e pobres.

Embora todos os adultos e adolescentes envolvidos tenham sido supostamente reconhecidos pela vítima na delegacia, um dos adolescentes confessou ter tentado roubar a corrente de ouro, mas não mencionou qualquer participação dos outros ou do próprio Wesley.

O advogado Renan Lima considera a prisão uma “medida desproporcional”, já que a prisão preventiva deveria ser aplicada apenas em casos onde há risco à ordem pública ou possibilidade de fuga — circunstâncias ausentes neste caso.

Em resposta às indagações feitas sobre a conduta dos GCMs durante o incidente, a prefeitura da Praia Grande afirmou que as ações realizadas estavam dentro da legalidade e seguindo protocolos operacionais adequados. A nota ainda enfatiza que qualquer conduta inadequada é rigorosamente investigada pelos órgãos competentes.

Não houve depoimento na delegacia

Ribeiro relata ter aguardado cerca de três horas dentro da viatura da GCM antes de receber qualquer informação sobre seu destino ou as acusações contra ele.

Ele lembra que na delegacia não teve oportunidade de ser ouvido pela equipe policial presente naquele dia. O delegado Edson Bianchi Junior apenas apresentou um termo baseado nos relatos dos guardas civis para Wesley e o outro jovem assinarem.

Ribeiro afirma não ter prestado depoimento ao delegado, algo contrário ao previsto pelo artigo 304 do Código Brasileiro de Processo Penal. Ele ficou surpreso ao ver documentos supostamente baseados em suas declarações sem ter sido ouvido diretamente. O delegado teria dito: “Foram os GCMs que afirmaram que você falou durante a abordagem. [Então] esse é o seu depoimento.”

Lima argumenta que a versão apresentada por Wesley foi ignorada ao longo da investigação.

Além disso, os relatos dos guardas civis responsáveis pela ocorrência eram idênticos em seus detalhes — algo notável para a defesa.

“A coincidência absoluta entre os depoimentos indica claramente a ausência de uma inquirição eficaz e independente”, destacou Lima em sua defesa.

“Prender alguém por 74 dias com base em um reconhecimento informal feito sem respeito às normas legais é desproporcional tanto técnica quanto humanamente; Wesley só teve direito à sua voz clara durante a audiência”, acrescentou o advogado.

A Secretaria da Segurança Pública (SSP), sob supervisão do delegado Osvaldo Nico Gonçalves, foi questionada sobre as ações do delegado envolvido no caso. A pasta enviou uma nota afirmando que “a autoridade policial atuou com base em critérios técnicos e legais” cabendo posteriormente ao Ministério Público decidir sobre responsabilidade penal. A nota pode ser lida na íntegra.

74 dias preso

Apesar dos esforços para esclarecer sua intenção genuína em ajudar a vítima do roubo, Wesley Ribeiro teve sua prisão preventiva decretada durante sua audiência custódia quase um dia após ser detido. Ele foi encaminhado ao CDP da Praia Grande onde passaria mais de dois meses longe da família – incluindo sua mãe e oito irmãos.

A audiência ocorreu em uma sala separada no Central de Polícia Judiciária (CPJ) da Praia Grande, onde eles passaram a noite sob custódia. “Na hora [da decisão], o juiz mencionou prisão preventiva sem entender muito bem o significado… mas quando o delegado informou que iríamos para o CDP, eu comecei a chorar,” relembra Ribeiro. “Eu pensava comigo mesmo: eu não deveria ter me envolvido naquele dia.”

Durante os longos dois meses e quatorze dias encarcerado, ele viveu momentos marcados pelo medo e pela saudade da família. Somente em 21 de maio de 2026 é que o juiz Rhuan Dergley da Silva acolheu os argumentos defensivos constatando falhas no processo criminal e decidiu revogar sua prisão preventiva além de absolvê-lo das acusações.

O magistrado observou que o reconhecimento ocorreu “em contexto informal logo após a abordagem” sem seguir rigorosamente as medidas legais necessárias para assegurar sua validade — aspectos estes fundamentais para validar tal reconhecimento diante do tribunal.

O juiz também destacou as fraquezas nas declarações dos guardas civis envolvidos nas detenções, limitando-se apenas a confirmar se os acusados estavam correndo ou tinham sido identificados pela vítima imediatamente após abordar-los — sem testemunhar diretamente o ato delituoso nem fornecer provas concretas ligando os réus à infração cometida.

“Com os pés e mãos amarrados”, lamenta a mãe

Uma das memórias mais impactantes para Daniela Andrade, mãe solteira de Wesley Ribeiro com 41 anos, é ver seu filho sendo levado da delegacia rumo ao CDP.

“Vi meu filho saindo algemado pelos pés e mãos entre bandidos reais; essa cena machuca profundamente uma mãe,” disse ela emocionada ao relembrar como criou Wesley sozinha desde seu nascimento.

Naquele dia fatídico em que seu filho foi preso pela GCM, Daniela soube através vizinhos – presentes na praia – sobre sua detenção dentro da viatura.

Ela recorda ter percorrido várias delegacias até encontrar Wesley no CPJ localizado na Vila Tupi — quase quatro quilômetros distante do local onde ocorreu sua prisão — mas sequer pôde entregar-lhe comida enquanto escutava ofensas proferidas pelos guardas envolvidos: “Disseram-me que ele era um marginal infrator,” lembrou indignada. 

Embora sinta alívio por finalmente ver seu filho livre novamente, Wesley ainda luta contra traumas causados pela experiência traumática. “Sinto medo! Evito sair para não enfrentar olhares; fico trancado dentro casa… Quando saio tenho receio só pelo fato dela existir,” compartilha.

Entretanto, essa vivência traumática não apaga seus sonhos por um futuro melhor; ele deseja completar seus estudos já interrompidos no segundo ano do ensino médio devido à necessidade financeira familiar – almejando novas vivências: “A cada dia quero aprender algo novo; desejo explorar o mundo,” expressou esperançoso.