Eleições de 2026: O impacto da Colômbia e do Brasil na dinâmica política da América Latina
Durante o ano de 2023, a América Latina experimentou um marco histórico ao ver as cinco maiores economias da região sob a liderança de governos de esquerda simultaneamente. Alberto Fernández (Argentina), Lula (Brasil), Gabriel Boric (Chile), Gustavo Petro (Colômbia) e Claudia Sheinbaum (México) ocupavam a presidência de seus respectivos países ao mesmo tempo. Entretanto, essa dinâmica está mudando, e a região tem testemunhado um aumento significativo das vitórias conservadoras nas eleições recentes.
Além do triunfo do conservador Rodrigo Paz Pereira na Bolívia em 2025, o Peru também vê o avanço da extrema direita. Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, que governou durante os anos 90 e faleceu em 2024, lidera as apurações do segundo turno presidencial. Enquanto isso, o Equador e o Paraguai, sob a administração de Daniel Noboa e Santiago Peña, respectivamente, estão implementando uma agenda reacionária alinhada aos interesses dos Estados Unidos, incluindo a presença de militares norte-americanos em seus territórios.
No que diz respeito aos ‘cinco grandes’, apenas Sheinbaum permanecerá no poder até 2030. Já Fernández e Boric foram sucedidos por políticos de extrema direita em 2023 e 2025, respectivamente. Lula se prepara para disputar um quarto mandato em outubro deste ano. Por outro lado, Petro não poderá concorrer novamente devido à legislação colombiana e decidiu apoiar seu aliado Iván Cepeda.
Cepeda é um dos candidatos na corrida presidencial colombiana marcada para o próximo domingo, 21 de junho. O resultado determinará quem sucederá Petro nos próximos quatro anos. Essa eleição não apenas impacta os interesses internos da Colômbia como também reverbera nos Estados Unidos. Apesar de estar entre os favoritos nas pesquisas de intenção de voto, Cepeda entrou na fase final da disputa em segundo lugar, superado pelo advogado conservador Abelardo de La Espriella, conhecido por sua admiração por Donald Trump, assim como Bukele e Milei.
Petro já havia feito uma viagem a Washington em 2026 para discutir estratégias com Trump visando reduzir tensões enquanto a soberania colombiana enfrentava riscos. Contudo, é importante lembrar que pouco antes dessa visita, Trump havia insultado Petro chamando-o de “traficante de drogas”, insinuando que poderia tratá-lo da mesma forma que fez com Nicolás Maduro – sequestrado pelos EUA após uma invasão militar violenta em Caracas em janeiro.
Por que isso é relevante?
- Em 2026, a administração Trump firmou acordos comerciais com El Salvador, Guatemala, Argentina e Equador, permitindo que produtos americanos entrassem nesses mercados.
- Conforme Dario Durigan, ministro da Fazenda do Brasil, os Estados Unidos representam atualmente 9% da balança comercial brasileira; em comparação, esse número era de 25% em 2003.
Se Cepeda vencer (embora suas chances estejam diminuindo segundo as últimas pesquisas), a alternância entre confrontos e distensionamentos poderá persistir como ocorreu durante os mandatos de Petro e Lula. No entanto, especialistas alertam que uma vitória de La Espriella estaria muito mais alinhada aos objetivos trumpistas na região.
Lucas Leite, professor doutor em Relações Internacionais pela FAAP e pesquisador do INCT/INEU, observa que no contexto colombiano essa situação é ainda “mais urgente” e pode criar novos desafios para o Brasil mesmo se Lula for reeleito.
“Dependendo do resultado das eleições colombianas, o país pode se alinhar mais fortemente à política dos EUA na região. Isso criaria um corredor ideológico que se estenderia do Pacífico até o Cone Sul. Para o Brasil isso é crucial porque isolaria ainda mais a posição diplomática de Lula numa região que está se movendo para a direita com apoio explícito dos EUA”, explica o professor.
Para entender a postura dos EUA sobre as eleições na Colômbia basta observar as declarações do próprio Trump. Como costuma fazer antes das eleições na América Latina, ele expressou seu apoio ao advogado colombiano – algo prontamente contestado por Petro que acusou Trump de romper um pacto contra intervenções nas eleições colombianas.
Essa não é uma novidade: no final de 2025, os EUA não apenas demonstraram apoio à candidatura conservadora de Nasry Asfura nas eleições hondurenhas como também indultaram abruptamente o ex-presidente Juan Orlando Hernández. Este último foi condenado nos EUA por narcotráfico em 2022. Os mesmos crimes usados por Trump para atacar adversários políticos na América Latina. Após o indulto concedido ao seu correligionário político, Asfura venceu as eleições envoltas em alegações de fraude.
Talita São Thiago Tanscheit, doutora e professora de Ciência Política na PUC-Rio avalia que essas vitórias – ou perspectivas delas – apoiadas publicamente por Trump reforçam um cenário inédito de aproximação ultraconservadora na região. A possível eleição de La Espriella adicionaria novos elementos a essa configuração.
“Estamos testemunhando um movimento dos EUA para estreitar laços com líderes ultraconservadores na América Latina semelhante ao período das ditaduras militares.” Mesmo naquele contexto havia maior diversidade nas relações. No caso brasileiro durante a ditadura militar houve uma postura nacionalista e desenvolvimentista que permitiu uma relação de aproximação e distanciamento com os EUA; atualmente figuras como Kast, Milei e Bolsonaro refletem um alinhamento total à agenda americana. Isso resulta em constrangimentos financeiros e políticos para os países da região além das tentativas constantes dos EUA de minar soberanias nacionais”, acrescenta a professora.
E se Flávio Bolsonaro vencer em outubro?
“Caso Flávio Bolsonaro seja eleito presidentes veremos uma tentativa clara de alinhar as políticas brasileiras sobre drogas com as dos Estados Unidos além do fortalecimento das relações sobre minerais e questões ambientais referentes à Amazônia. Isso colocaria o Brasil sob forte influência americana com consequências difíceis de reverter”, afirma Fabrício Pontin professor de Direito e Relações Internacionais na Universidade LaSalle no Rio Grande do Sul.
Lucas Leite menciona possíveis mudanças nas diretrizes internacionais brasileiras como forma explícita de apoio aos Estados Unidos sob uma nova gestão bolsonarista: “Esse apoio traria condições práticas: alinhamento às sanções contra Venezuela e Cuba; afastamento comercial da China; abertura aos termos americanos nos mercados; além da diminuição da força dos mecanismos multilaterais como um Mercosul progressista”, elenca.
Pontin destaca ainda que um retorno à presidência por parte do bolsonarismo não seria a única maneira pela qual Washington poderia interferir no cenário político brasileiro: “Se Lula for reeleito teremos um ambiente pós-eleitoral delicado onde gritos sobre ‘manipulação nas urnas’ poderão emergir. Muitos opositores não aceitarão bem um quarto governo Lula”, prevê ele. Em 2022 Joe Biden ajudou a silenciar manifestações bolsonaristas ao reconhecer imediatamente os resultados após a vitória do petista; será que Trump faria algo similar em 2026?
“O desenrolar das eleições será decisivo: se Lula vencer com folga é improvável que Trump tenha simpatia por Flávio já que ele despreza derrotados; mas se for uma disputa acirrada como aconteceu em 2022 é certo que Trump vai intervir especialmente se Flávio estiver à frente no segundo turno”, analisa Pontin.
Independentemente do desfecho eleitoral em outubro próximo, os ecos do trumpismo continuarão influenciando o Brasil enquanto houver uma administração republicana na Casa Branca: “Não importa quem ganhe; provavelmente Lula enfrentará um Congresso hostil tanto no Senado quanto na Câmara como ocorreu no segundo mandato Dilma”, afirma Pontin. “Os Estados Unidos podem explorar essa pressão sem necessidade real de investir recursos diretos para apoiar Flávio; eles simplesmente precisarão promover pautas favoráveis aos seus interesses.” Se Flávio for eleito terão alguém disposto a agir conforme seus desejos – uma situação vantajosa para eles”, conclui Pontin.
