Impacto das Ações de Trump na América Latina Levanta Sinais de Alerta para as Eleições Brasileiras
Entre os meses de maio e junho de 2026, a Bolívia foi palco de uma mobilização popular encabeçada por movimentos sociais, sindicais e indígenas, que tomaram as ruas em protesto contra o governo de direita liderado por Rodrigo Paz Pereira.
Os manifestantes se opõem à política econômica do presidente, um extenso conjunto de medidas liberais que agravaram a crise financeira no país. Dentre suas exigências estão o término de cortes orçamentários e privatizações, a melhoria da qualidade dos combustíveis e reajustes salariais.
A pressão nas ruas fez com que o governo recuasse, chegando a revogar uma lei prejudicial aos pequenos proprietários rurais. No entanto, uma declaração vinda dos Estados Unidos chamou atenção: a administração de Donald Trump enviou uma mensagem não solicitada afirmando que “os EUA apoiam incondicionalmente o governo da Bolívia”.
O secretário de Estado Marco Rubio elevou o tom ao se referir aos civis mobilizados como “criminosos e traficantes de drogas”, declarando que os Estados Unidos “não permitiriam” a queda do governo Paz Pereira – insinuando até mesmo uma possível intervenção direta caso fosse necessário.
A declaração de Rubio representa mais um capítulo na longa história de ações intervencionistas do governo republicano na América Latina, uma prática que se tornou ainda mais evidente na política externa dos EUA desde o retorno de Trump ao cargo em janeiro de 2025.
Especialistas destacam que as recentes intervenções diretas e indiretas da Casa Branca na política latino-americana acendem alertas para o Brasil, especialmente com as eleições presidenciais se aproximando – as implicações vão além disso.
Por que isso importa?
- A eleição do extremista Abelardo de La Espriella na Colômbia pode alinhar o país com Argentina, Chile, Bolívia, Equador, El Salvador e Paraguai como aliados do governo Trump.
- Uma pesquisa do Datafolha divulgada em 20 de junho mostra que 65% dos eleitores brasileiros não se importam se Trump apoiar algum candidato nas eleições presidenciais de 2026.
Esse processo eleitoral é crucial para a região, pois envolve a maior economia da América Latina. Além disso, entre os principais candidatos no Brasil está um aliado explícito de Trump, o que poderia representar um apoio estratégico significativo na América do Sul (e vice-versa), superando impactos similares gerados por Javier Milei na Argentina e José Antonio Kast no Chile.
Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022), atualmente preso por tentativa de golpe, não apenas promete indultar seu pai, mas também demonstra total alinhamento com os interesses trumpistas na região – semelhantemente ao comportamento do pai.
No final de maio, Flávio visitou Washington e posou para fotos com Trump. Esse ato foi interpretado por alguns analistas como um trunfo para a extrema direita e por outros como um gesto desesperado diante da desvantagem nas pesquisas naquele mês, após um escândalo envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Uma certeza é clara: as eleições brasileiras em outubro estão sob o olhar atento dos Estados Unidos.
“Washington demonstra disposição para agir tanto nas urnas quanto fora delas. Trump nunca escondeu sua intenção de criar um bloco conservador na região, incluindo aliados como Nayib Bukele em El Salvador e Milei na Argentina. Além deles estão Daniel Noboa no Equador, Santiago Peña no Paraguai e Rodrigo Paz Pereira na Bolívia”, afirma Lucas Leite, Professor Doutor em Relações Internacionais da FAAP e pesquisador do INCT/INEU.
Segundo Leite, a presença de um governo ultraconservador nos EUA favorece figuras como Flávio Bolsonaro ao proporcionar legitimidade externa e pressão econômica como ferramentas eleitorais. “A extrema direita [brasileira] ganha força porque recebe apoio ideológico internacional e garante proteção militar caso chegue ao poder”, completa o especialista.
Durante os quatro anos iniciais da presidência Trump (2017-2021), membros do alto escalão já não descartavam a possibilidade militar como opção para intervenções na América Latina; embora aquele discurso ficasse restrito às ameaças. As medidas concretas consistiram principalmente em sanções econômicas contra Cuba e ações políticas.
Com o retorno de Trump à presidência em janeiro de 2025, esse cenário mudou rapidamente: logo no início do seu novo mandato, ele assinou ordens executivas designando grupos criminosos latino-americanos como “terroristas” – uma manobra legal que indica menos sobre a visão dos EUA sobre esses grupos e mais sobre sua disposição para violar leis internacionais para enfrentá-los, potencialmente até através da intervenção militar além das fronteiras norte-americanas.
Trump busca expandir sua influência em quantos mais países possíveis, abrangendo desde a Patagônia argentina até o Rio Grande no México, passando pelo Altiplano andino que inclui Bolívia, Peru e Chile.
“Atualmente temos um contraste político significativo em relação ao governo Evo Morales [2006-2019]. O atual governo acredita que sua aliança com os EUA é benéfica para o país e utiliza a crise econômica como justificativa para essa aproximação”, argumenta Alina Ribeiro, doutoranda em Ciência Política pela USP e pesquisadora do Núcleo de Democracia e Ação Coletiva do Cebrap.
“Além disso, esse governo se mostra receptivo à interferência maior dos Estados Unidos. A DEA [agência antidrogas americana] retornou à Bolívia no ano passado”, acrescenta Ribeiro. Morales havia expulso a DEA em 2008 alegando que suas operações seriam disfarces para espionagens contra seu governo.
Em 2026, ficou ainda mais evidente a disposição dos EUA em atuar diretamente na América Latina (usando “o problema das drogas” como pano de fundo). Após invadir Caracas no início do ano para capturar Nicolás Maduro ilegalmente – resultando na morte de dezenas agentes venezuelanos –, os EUA foram notícia novamente ao conduzir uma operação militar dentro da Venezuela.
Em 12 de junho ocorreu um ataque aéreo letal que resultou na morte de Héctor Rusthenford Guerrero Flores, conhecido como “Niño Guerrero”, considerado líder do cartel transnacional Tren de Aragua. O grupo figura entre aqueles rotulados como “terroristas” pelos EUA. Essa ação foi atribuída a uma inesperada “operação combinada” entre Caracas e Washington conforme declarado pelas autoridades venezuelanas. Contudo, esse estreitamento só foi viável devido à pressão exercida pelos EUA após uma troca forçada no comando do Palácio de Miraflores.
O Brasil corre risco de algo semelhante?
Pesquisadores abordam essa questão com cautela. “O Brasil mantém uma relação distinta com os EUA. Na América Central existe outro paradigma intervencionista norte-americano que vê essa área quase como um ‘quintal’.” O país também não é visto como inimigo direto da magnitude da Venezuela nem tão estratégico quanto Colômbia ou Bolívia no contexto da guerra às drogas. Para completar, sua dimensão maior permite organizações eleitorais mais robustas e atores políticos estabelecidos”, analisa Fabrício Pontin, professor de Direito e Relações Internacionais na Universidade LaSalle.
Apesar das aparentes condições favoráveis para resistir às investidas americanas, o Brasil não está completamente seguro. “O [secretário de Estado] Marco Rubio possui uma agenda contrária ao governo Lula e estará atento às decisões sobre as eleições brasileiras caso sua estratégia seja bem-sucedida”, observa Pontin. “Trump pode mudar rapidamente seu posicionamento; ele pode estar favorável ao Lula hoje e adverso amanhã. As dinâmicas mudam velozmente”.
Talita São Thiago Tanscheit, doutora em Ciência Política pela PUC-Rio destaca que essas mudanças abruptas já ocorreram anteriormente nas relações regionais.
“Celso Amorim sempre menciona que a paz é algo constantemente construído; pode-se perdê-la repentinamente. No ano passado durante as eleições argentinas intermediárias houve anúncio por parte de Trump sobre um grande pacote [de auxílio] direcionado a Milei; isso acabou sendo determinante para sua vitória [do partido governista] Libertad Avanza”, comenta Tanscheit.
Após resultados insatisfatórios para o presidente nas eleições regionais em Buenos Aires, essa promessa feita por Trump – condicionada à vitória de Milei – foi suficiente para alterar significativamente o cenário político nacional apenas 49 dias depois.
Recentemente, a provável vitória do ultraconservador Abelardo de La Espriella nas eleições colombianas ressalta ainda mais a capacidade inflacionária da administração Trump sobre a região criando desafios adicionais às próximas eleições brasileiras previstas para outubro.
