Elon Musk: o magnata polêmico que sonha em apagar as constelações do firmamento
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A trajetória de Elon Musk, um dos homens mais ricos do mundo, é amplamente conhecida. Sua fortuna colossal se destaca em meio a um desejo de controle que remete até à saudação nazista durante a posse de Donald Trump, revelando um anseio por domínio que se estende ao cosmos.
O bilionário já manifestou planos para colonizar Marte e agora pretende estabelecer uma cidade autossustentável na Lua, com o intuito de abrigar os mil mais abastados da Terra “caso ocorra um cataclismo” no nosso planeta. Essa visão expõe o cinismo por trás do negacionismo climático: para aqueles que têm recursos, sempre existirão novas fronteiras, segundo a lógica dos capitalistas contemporâneos.
Preocupantemente, Musk parece estar em posição de realizar tais ambições. Além de foguetes e satélites, sua empresa SpaceX adquiriu a XAI, dedicada à inteligência artificial e famosa pelo Grok, um chatbot que permitia usuários criar imagens pornográficas de adultos e crianças.
Ao dominar a inteligência artificial — promovida pelas grandes empresas como essencial antes mesmo de uma análise crítica da sociedade — Musk força uma aceitação da expansão dos data centers até mesmo no espaço.
Em uma gravação relativa à abertura do capital da SpaceX, avaliada em 1,77 trilhões de dólares, Musk afirmou sua meta de lançar “milhares, talvez mais de um milhão” de satélites data centers em órbita a partir de 2028. Segundo astrônomos, isso poderia impactar tanto o brilho das estrelas que elas deixariam de ser vistas no céu devido à luminosidade dos satélites já em 2035.
Segundo o único jornal brasileiro que tem dado atenção ao tema — a Folha de S. Paulo — esse assunto foi debatido no recente episódio do podcast Bom Dia, Fim do Mundo. A publicação trouxe à tona estudos realizados por cientistas canadenses que já haviam previsto essas consequências antes mesmo do IPO da SpaceX. Os especialistas ficaram surpresos com as dimensões maiores do que o esperado para os satélites, o que pode trazer implicações significativas para a observação astronômica e os ciclos vitais tanto de animais quanto de plantas.
Musk argumenta que os data centers em formato de satélite não demandarão água ou energia ao utilizar radiação e luz solar — diferente das estruturas atuais. Na clássica prática de criar problemas para vender soluções, ele usa as próprias crises geradas na Terra para obscurecer o céu. A construção desses data centers enfrenta crescente resistência nos locais onde se pretende implantar, especialmente devido ao elevado consumo de água e energia; preocupações que vão desde comunidades indígenas no Ceará até cidadãos em cidades médias nos EUA. O New York Times reportou que há mais de cem moratórias judiciais nesse país suspendendo ou interrompendo obras desse tipo.
Defendendo sua proposta como ecológica, Musk ignora o aumento das emissões de carbono decorrentes dos milhões de lançamentos necessários para colocar os data centers em órbita e mantê-los operacionais (com substituição de chips e reparos). Um foguete Falcon 9 da SpaceX libera cerca de 28 milhões de toneladas de CO2 por voo — equivalente ao volume absorvido por 200 mil árvores durante toda a vida.
Não surpreende que o astrônomo Hanno Hein, da Universidade de Toronto, tenha definido a iniciativa de Musk como “o maior greenwashing da história”. Em simulações realizadas na latitude canadense, esperava-se ter 14 mil satélites visíveis em 2035 frente a apenas 5 mil estrelas. Em São Paulo, conforme estudo feito por uma pesquisadora da Universidade Regina para a Folha, o número visível poderia saltar de zero para 14 mil satélites — um cenário alarmante para uma cidade onde atualmente menos de 200 estrelas são visíveis.
O aspecto mais chocante é que para viabilizar seu plano, Musk só precisa ser honesto — alguns afirmam que sua proposta é apenas uma “venda de terrenos na lua”, repleta de desafios a serem superados antes que se torne realidade. Não existe nenhuma entidade internacional capaz de conter os lançamentos do bilionário extremista; suas ações dependem unicamente da autorização da FCC — agência reguladora americana sob controle do governo Trump neste momento.
Como disse o filósofo britânico Mark Fisher: “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”. Em tempos onde a democracia vacila e o multilateralismo está em crise enquanto poder e riqueza se concentram nas mãos de poucos indivíduos, a necessidade de resistir e priorizar interesses coletivos torna-se cada vez mais urgente.
Este texto foi elaborado com base nas reflexões e informações compartilhadas por Isabel Seta e Ricardo Terto durante o podcast Bom Dia, Fim do Mundo sob direção de Sofia Amaral.
