YouTube: O Influenciador dos Anúncios de Apostas na CazéTV
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Na análise sobre os anúncios de apostas na CazéTV, um aspecto essencial está sendo negligenciado: o YouTube, que fornece o público, algoritmos, recomendações, servidores e publicidade programática, ou seja, toda a infraestrutura necessária.
A plataforma firmou uma “parceria” notória com a CazéTV para atrair patrocínios de onze empresas, incluindo Bet365, BetNacional e KTO. Cada uma delas investiu R$185 milhões. Conforme o entendimento do acordo de revenue share com seus parceiros, o canal retém 55% da receita gerada, enquanto o restante vai para o YouTube. Ainda não está claro se essa dinâmica se aplicou à parceria em questão, pois a falta de transparência é uma característica comum das grandes empresas de tecnologia.
Portanto, é complicado compreender a natureza exata dessa “parceria” e se o YouTube teve um papel ativo na intermediação do negócio, como se a plataforma tivesse recebido parte desse valor ou se prometeu um alcance específico para os anúncios.
A relevância estratégica dessa aliança foi evidenciada em uma entrevista de Victor Machado, head de esportes, TV e filmes do YouTube, à revista Exame. Ele afirmou que “o torcedor já se acostumou”. Segundo ele, as famílias e bares sintonizarão suas TVs na CazéTV e no YouTube. Além disso, destacou que o esporte representa “uma alavanca global de receitas” para a empresa, garantindo que cada patrocinador teria acesso não apenas a visibilidade, mas também “diversas ferramentas e recursos” para “dominar a discussão”.
Não foi só Victor quem abordou esse tema. Em outra conversa com a mesma publicação, Tony Archibong, Diretor Global de Parcerias de Produtos do YouTube, expressou sua expectativa de que esse modelo de colaboração seja replicado em diversas regiões ao redor do mundo.
“O caso da CazéTV no Brasil é singular quando discutimos esse novo formato. Este ano eles irão transmitir todos os jogos; algo impensável há alguns anos atrás. É também um modelo muito democrático”, comentou.
Archibong insinuou que a participação do YouTube nas negociações com a FIFA pode ser mais significativa do que as palavras da estratégia de marketing sugeririam.
“A FIFA negocia os direitos de transmissão país por país”, esclareceu. “No Brasil, temos o direito de explorar o streaming.”
“Decidimos ser o local onde ocorre o fenômeno cultural do futebol em escala global. As partidas serão exibidas pelos parceiros detentores dos direitos em cada país; no entanto, todo o ecossistema do ‘antes e depois’ dos jogos — como entrevistas exclusivas e bastidores — ficará majoritariamente no YouTube.” Importante notar a expressão: “parceiros de direitos”, ao invés de “detentores de direitos”.
Ele ainda provocou a concorrência ao afirmar: “O conceito de TV está desaparecendo”, previu.
Vale destacar que a CazéTV ultrapassou limites éticos nas suas campanhas publicitárias relacionadas às apostas e acabou sendo investigada pelo Ministério Público Federal (MPF) e pela Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon).
A proposta de sugerir odds, ou apostas específicas durante as transmissões, era parte fundamental da estratégia publicitária da CazéTV. Felipe Tebet, responsável pelo conteúdo da plataforma, detalhou como ocorria essa colaboração com os anunciantes: “Eles estarão presentes em todos os jogos com entregas exclusivas criadas para cada mensagem específica e interações com o público”.
O resultado? Milhões de pessoas — incluindo famílias — foram levadas a arriscar suas economias.
Em 13 de junho durante um jogo contra o Marrocos, havia uma aposta favorável pela Bet365 sobre Endrick marcar um gol. Seis dias depois, no jogo contra Haiti havia odds vantajosas na Bet Nacional caso o Brasil marcasse dois ou mais gols no segundo tempo. Em 24 de junho contra a Escócia, apostava-se que Vini Jr. faria gol no segundo tempo através da KTO.
Esses odds foram promovidos pela CazéTV durante as partidas. Aqueles que seguiram essas recomendações acabaram perdendo dinheiro segundo uma análise realizada pela organização CTRL+Z à qual teve acesso exclusivo a Pública. A organização relata que das 98 propagandas veiculadas na CazéTV nos primeiros 15 dias da Copa mencionando odds, apenas 35 obtiveram sucesso.
A CTRL+Z apresentou suas conclusões à Senacon solicitando que o YouTube fosse incluído na investigação sobre publicidade enganosa relacionada à CazéTV.
Para essa organização “não se trata apenas da hospedagem de conteúdo alheio; trata-se de um empreendimento colaborativo estruturado para maximizar lucros publicitários, inclusive aqueles provenientes das casas de apostas patrocinadoras do canal.”
Particularmente preocupante é o fato mencionado pela ONG sobre as propagandas relacionadas às apostas serem prejudiciais às crianças – considerando que 48% delas assistem vídeos no YouTube diariamente conforme pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025.
“Com essa parceria bem estabelecida e frutífera não podemos ignorar que essa discussão inclui o YouTube”, afirma a carta da CTRL-Z. O documento ressalta que ao participar ativamente da cadeia de transmissão, o YouTube pode ser responsabilizado conforme estipulado pelo artigo 7º do Código de Defesa do Consumidor.
“A sinergia entre plataforma e canal – onde o YouTube lucra com anúncios enquanto exerce controle moderatório e decide algoritmicamente quais conteúdos promover – exclui qualquer alegação sobre neutralidade técnica e impõe responsabilidade solidária como forma de proteger consumidores e manter a ordem econômica,” conclui o texto.
É amplamente conhecido que após diversos escândalos relacionados ao tipo abusivo de propagandas feitas pela CazéTV esta decidiu interromper sua prática anterior; além disso, diante dessa situação delicada a FIFA optou por não renovar os direitos para transmissão da Copa do Mundo em 2030 com esse canal. Mas quanto ao YouTube?
A gigante Google foi indiscutivelmente beneficiada pelo acordo elaborado com a FIFA e LiveMode, controladora da CazéTV. Várias reportagens destacam como essa transmissão “revolucionou” a forma como consumimos esportes. Esse modelo tem potencial para ser ampliado e sem regulação pode ser extremamente lucrativo.
A fim de alcançar esses objetivos ambiciosos, o Google fez investimentos significativos; além da colaboração com CazéTV foi considerado um “canal prioritário” pela FIFA em outro acordo cujo valor permanece desconhecido.
Durante as partidas foram introduzidas várias inovações tecnológicas pelo Google incluindo inteligência artificial aplicada nos serviços Maps e Waze além do aplicativo Gemini para fornecer atualizações rápidas sobre resultados dos jogos. Durante seu evento anual chamado Google for Brazil, essas novas funcionalidades foram apresentadas como parte da estratégia voltada ao futebol.
Como já sabemos bem, o objetivo principal continua sendo evitar que usuários cliquem em canais concorrentes dedicados à informação ou entretenimento; preferindo mantê-los dentro do ecossistema Google.
Simultaneamente ao mesmo tempo em que busca expandir seus serviços diretos nessa área competitiva pelos direitos televisivos; informações divulgadas pelo canal CNBC indicam que tanto YouTube quanto Netflix estão competindo pelos direitos relacionados à Copa do Mundo em 2030 nos Estados Unidos por valores estimados até US$2 bilhões.
Outra matéria publicada pelo site Investnews menciona que o YouTube adquiriu os direitos para exibir jogos do Campeonato Brasileiro antes destes serem transferidos para CazéTV; aqui também LiveMode atuou como vendedora dos direitos enquanto mantinha sua posição como proprietária nesta operação complexa descrita como “sentar dos dois lados do balcão”.
Agora resta saber se Senacon acolherá a solicitação da CTRL+Z e se realmente haverá investigação acerca das práticas enganosas envolvendo o YouTube.
Entretanto mesmo tentando desvincular-se da imagem tradicional das emissoras — ou aspirando ao desaparecimento dessa ideia — está cada vez mais evidente que a Google é efetivamente uma empresa midiática. Assim sendo operar sem total transparência acerca dessas “parcerias” enquanto evita responsabilidades por práticas inadequadas deve tornar-se progressivamente mais desafiador.
