Gol anulado? Entenda o atraso na decisão!

Gol anulado? Entenda o atraso na decisão!

No âmbito contemporâneo, existe um tipo de angústia que Dante Alighieri não incluiu em sua representação do Inferno; afinal, no século XIV, a ideia de transmissões via antena digital, por assinatura ou plataformas como o YouTube era inimaginável. Refiro-me, evidentemente, à ansiedade de acompanhar uma partida decisiva em um bar, cercado por uma infinidade de outros televisores.

A situação é bem familiar. Você se encontra com amigos, bebida na mão, espremido entre um indivíduo vestindo uma camisa da seleção que parece prestes a se rasgar e um grupo ao fundo que grita para o árbitro como se ele fosse seu credor. Não importa se o evento é uma Copa do Mundo, Libertadores, Champions League ou até mesmo a cerimônia do Oscar.

O atacante pega a bola e começa a driblar adversários, enquanto a defesa se abre como o Mar Vermelho. Você para tudo e segura a respiração. O ambiente inteiro faz o mesmo. Uma onda de expectativa toma conta, e todos aguardam um momento mágico. Ele prepara o chute e…

— GOOOOOOOOOOOOOL!

Como assim? Espere… O grito não provém da tela do bar onde você está. É do bar vizinho? Ou seria da padaria na esquina? Não dá para saber. Que desespero! Seu coração parece fazer um salto mortal e sua mente entra em colapso. Enquanto isso, você observa sua tela e vê que o jogador ainda está se preparando para chutar. O tempo parece elasticamente distendido. Aqueles três a cinco segundos de atraso entre a realidade e seu streaming pirata ou a antena digital mal ajustada parecem durar uma eternidade.

Nesses breves momentos, você passa por um turbilhão emocional que Freud levaria anos para analisar. Primeiro vem a negação: “Não pode ser gol; deve ser um replay”. Segue-se uma esperança quase delirante: “Foi gol nosso! Com certeza!”. E então surge a cruel incerteza e o pânico total: “E se foi gol deles? E se aquele grito foi do padeiro torcedor do Vasco e não do garçom flamenguista?”.

Impotente, você fixa os olhos na tela. O atacante finaliza. A bola bate na trave e todo o bar solta um “UHHHH!” coletivo de frustração. Mas espera aí… Se não houve gol, de onde veio aquele grito?

Então você percebe a dureza da situação: aquele grito não foi pela anotação de um gol; foi apenas um clamor por quase-gol que soou como tal. Ou talvez o gol tenha sido invalidado. O atraso não só rouba a alegria da surpresa como também semeia a paranoia.

Você pensa em trocar de local: “Vou para o bar da frente”, promete-se. Reclama com o garçom, que nada pode fazer para ajudar. Contudo, logo percebe que o bar da frente está tão cheio quanto um trem na Sé às seis da tarde. Além disso, o jogo já começou. Se você sair agora, corre o risco de perder o verdadeiro gol enquanto atravessa a rua em busca de um lugar para sentar, podendo até ser atropelado por alguém ouvindo o jogo no rádio — o único meio sem latência no universo conhecido.

Com cada ataque ao gol rival, surge novamente aquela agonia insuportável. O eco dos gritos vizinhos chega antes da imagem na tela. É como viver em um mundo onde se escuta primeiro o trovão antes de ver o relâmpago aparecer. Você acaba comemorando gols indiretamente, abraçando estranhos ao ouvir explosões vindas da rua de trás. Na dúvida, você grita GOOOOOOOLLLLL sem ter certeza sobre nada.