A retirada do governo em Gaza não indica que o Hamas está disposto a abandonar seu arsenal bélico

A retirada do governo em Gaza não indica que o Hamas está disposto a abandonar seu arsenal bélico

Nesta segunda-feira (6), o Hamas revelou uma decisão que pode ser considerada a mais significativa de sua trajetória nas últimas duas décadas: o grupo palestino armado anunciou que não participará mais do consórcio encarregado da administração civil da Faixa de Gaza. Essa decisão não implica no fim do Hamas como organização ou na entrega de suas armas, mas pode sinalizar um possível caminho, ainda que sutil, para a resolução das tensões históricas entre palestinos e israelenses na região.

Por ora, trata-se apenas de um comunicado. A intenção expressa pelo Hamas requer implementação prática, dependendo do consentimento de pelo menos três partes envolvidas nessa questão.

O primeiro desses atores é o Comitê Nacional para a Administração de Gaza (NCAG, na sigla em inglês), uma entidade criada para gerenciar a reconstrução do território palestino de forma supervisionada. Os outros dois envolvidos que precisam aprovar a proposta do Hamas são Israel, que atualmente exerce controle militar sobre a maior parte da Faixa de Gaza, e os Estados Unidos, responsáveis pela mediação do acordo de paz que vem sendo colocado em prática desde outubro de 2025, apesar das contínuas oscilações e desconfianças entre as partes.

O NCGA adotou uma postura cautelosa enquanto Israel manifestou descrença em relação ao anúncio; por sua vez, os Estados Unidos optaram pelo silêncio até esta terça-feira, 7 de junho. “No final das contas, nossa avaliação será baseada em ações concretas, não em promessas”, declarou o comitê através de um comunicado. O ministro das Relações Exteriores israelense, Gideon Sa’ar, comentou que isso poderia permitir ao Hamas continuar oprimindo os habitantes de Gaza enquanto persiste em sua luta jihadista contra Israel. Donald Trump está provavelmente em diálogo com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, a quem deverá receber na Casa Branca no início de agosto.

As negociações entre essas partes estão oficialmente ocorrendo em duas frentes: uma no Chipre e outra no Cairo. O Egito atua como mediador principal nesta questão no Oriente Médio; contudo, os Estados Unidos são considerados os verdadeiros arquitetos do Conselho da Paz, criado no final do ano passado com o objetivo de negociar o término do conflito e supervisionar a reconstrução do território palestino, cuja devastação é tão extensa que levou à acusação de genocídio por parte da África do Sul contra Israel na Corte Internacional de Justiça.

Golpe e Controle

O Hamas tomou o controle total da Faixa de Gaza em 2007 após vencer as eleições parlamentares locais no ano anterior com 44% dos votos. O grupo rival Fatah foi não apenas derrotado nas urnas como também expulso à força durante uma série de conflitos internos.

Desde então, o Fatah – associado ao atual presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas – controlou politicamente a Cisjordânia enquanto o Hamas ficou responsável pela Faixa de Gaza. Esses dois territórios são geograficamente separados por Israel e constituem o que poderia se tornar um futuro Estado palestino caso a “solução dos dois Estados” seja efetivamente implementada.

Para Israel, Estados Unidos e Europa, Abbas é visto como o interlocutor mais qualificado para liderar a formação desse futuro Estado palestino. Entretanto, muitos palestinos consideram a ANP ineficaz e corrupta e enxergam Abbas como um líder excessivamente passivo diante das violações cometidas por Israel na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.

A insatisfação com a ANP permitiu ao Hamas ganhar força como um grupo rebelde desafiador e combativo, eliminando rivais do Fatah na Faixa de Gaza antes de realizar ações impensáveis contra Israel: os ataques ocorridos em 7 de outubro de 2023.

Os apoiadores do Hamas consideram as ações realizadas nesse dia como uma resposta legítima à opressão causada pelo bloqueio ilegal imposto por Israel aos palestinos na Faixa de Gaza. Para eles, essa seria uma reação inevitável frente à situação desesperadora vivida por uma população confinada há anos em condições precárias e sem acesso adequado a recursos básicos como água e saúde.

Por outro lado, críticos acusam o Hamas de ser um grupo terrorista que instaurou uma ditadura violenta dentro da Gaza ao eliminar seus adversários mais moderados e desviar recursos essenciais para fabricar armamentos usados contra Israel. Além disso, há acusações sobre seu uso indevido dos hospitais e sobre se misturar intencionalmente com civis para aumentar as vítimas durante os conflitos, tentando desgastar a imagem israelense perante a opinião pública internacional.

Esses pontos de vista opostos são profundamente distantes e irreconciliáveis. Por isso mesmo é tão relevante que o Hamas tenha anunciado sua disposição para abrir mão da administração civil da Faixa de Gaza em favor de outros agentes locais e internacionais com maior prestígio. Essa mudança pode ser comparada ao alívio da inflamação em um nervo humano antes que ocorra uma cura subsequente.

Quando Israel iniciou sua resposta militar após os atentados de 7 de outubro, seu objetivo declarado era eliminar completamente a capacidade militar do Hamas e suprimir seu protagonismo político na administração da região. Caso realmente se concretize esse recuo por parte do Hamas quanto à gestão territorial agora proposta, ao menos um desses objetivos poderá ser considerado alcançado.

A discussão sobre desmantelar completamente a capacidade militar do Hamas apresenta mais complexidades. É evidente que as ações militares intensivas realizadas por Israel nos últimos três anos impactaram significativamente as capacidades ofensivas do grupo. Atualmente, ele já não possui o mesmo arsenal com o qual anteriormente atingia áreas civis dentro do território israelense. No entanto, isso não implica que o Hamas tenha desaparecido ou que seus integrantes tenham sido eliminados.

Conforme analistas do jornal israelense Haaretz — conhecido por sua abordagem progressista sobre a questão palestina — representantes do Hamas teriam mostrado disposição durante as discussões no Cairo para renunciar parte de seu potencial ofensivo sem abrir mão totalmente das armas pessoais dos membros do grupo. Além disso, esses líderes estariam interessados numa espécie de anistia que permitisse integrar seus homens numa futura força policial palestina na Faixa de Gaza.

Enquanto tais propostas ainda estão longe da realidade concreta, o plano para restabelecer a paz continua sendo difícil de implementar. Uma das questões complicadas permanece: onde estabelecer campos temporários para abrigar os milhares de palestinos deslocados sem criar guetos sob controle israelense ou bolsões dominados pelo Hamas que possam desviar ajuda humanitária destinada aos civis?

Dentre várias sugestões apresentadas, destaca-se uma particularmente audaciosa: formar uma força multinacional capaz tanto de remover forças militares israelenses quanto integrantes do Hamas para garantir uma zona segura aos civis palestinos, inicialmente na área próxima a Rafah, no extremo sul da Faixa de Gaza perto da fronteira com o Egito. Inicialmente disposta a participar dessa força estava a Indonésia; porém acabou desistindo. O Marrocos assumiu então essa responsabilidade mas ainda não enviou tropas devido à necessidade prévia da assinatura de um acordo sobre imunidades com Israel.

Assim sendo, o bloqueio imposto à Faixa de Gaza permanece vigente apresentando consequências alarmantes especialmente agora que se aproxima a temporada chuvosa iniciando em novembro seguida pelo frio intenso entre dezembro e março com temperaturas podendo cair abaixo dos 10°C.

Há consenso sobre a urgência em permitir maior entrada de ajuda humanitária em Gaza; entretanto Israel reluta em autorizar principalmente materiais cuja utilização civil poderia ser convertida para fins militares — incluindo determinados tipos materiais para construção civil e casas pré-fabricadas além combustíveis e equipamentos hospitalares.

A discussão atual sobre o recuo do Hamas e sobre formar um governo transitório voltado para reconstruir a Faixa é apenas uma fração restrita diante dos desafios amplos desse cenário complexo cujo resultado parece cada vez mais distante: estabelecer um Estado palestino reconhecido internacionalmente com fronteiras definidas assim como ocorreu com Israel em 1948.