Estratégias europeias para enfrentar o calor enfrentam avaliação extrema
Há mais de 20 anos, a França tem se preparado para enfrentar ondas de calor resultantes das mudanças climáticas. Em um verão de 2003, o país sofreu com temperaturas que ultrapassaram 35 graus por duas semanas consecutivas, resultando na morte de mais de 14.800 pessoas. Esse trágico evento motivou os responsáveis pela formulação de políticas públicas a desenvolver um dos programas de resiliência ao calor mais abrangentes globalmente.
No ano seguinte, foi implementado um plano nacional focado em ondas de calor que introduziu um sistema de alerta com quatro níveis. Quando as temperaturas alcançam o nível máximo, centros de crise são ativados para coordenar uma resposta em todo o país. As autoridades locais são obrigadas a executar seus planos, que garantem acesso a áreas refrigeradas e água potável, além de monitorar os cidadãos mais suscetíveis ao calor. As agências meteorológicas e de saúde da França trabalham juntas para acompanhar as previsões climáticas e os riscos à saúde, emitindo alertas sempre que condições perigosas se manifestam.
Nos anos subsequentes, diversas medidas foram adotadas para adaptar as cidades a verões cada vez mais quentes: foram plantadas árvores para mitigar o efeito das ilhas de calor, criadas ciclovias sombreadas e transformados espaços públicos em centros de resfriamento destinados à população sem ar-condicionado nos dias mais quentes (apenas cerca de 25% das residências no país possuem esse equipamento). Em Paris, simulações foram realizadas por formuladores de políticas para ensaiar cenários futuros com temperaturas podendo chegar a 50 graus.
Atualmente, essas estratégias enfrentam um dos seus maiores desafios. No final de junho, diversas cidades europeias enfrentaram temperaturas extremas, com várias registrando recordes históricos. Mais de doze países, incluindo a França, emitiram alertas na penúltima semana do mês, recomendando que a população permanecesse em ambientes fechados durante as horas mais quentes do dia e tomasse medidas como fechar persianas e evitar atividades físicas intensas.
Essa foi a segunda onda de calor no continente em apenas dois meses, ambas ocorrendo antes do início oficial do verão. Na capital francesa, as temperaturas ultrapassaram os 39 graus e, na última semana de junho, a média nacional atingiu seu nível mais alto já registrado.
Pelo menos 40 pessoas morreram afogadas enquanto tentavam se refrescar nas águas da França, muitas delas adolescentes. Autoridades na Espanha também relataram mortes relacionadas ao calor; uma agência local estimou que mais de 200 falecimentos na penúltima semana de junho podem ter sido causados pelas altas temperaturas. Os grupos mais vulneráveis incluem idosos, crianças e pessoas em situação de rua.
Estudos indicam que as cidades enfrentarão verões cada vez mais longos e quentes devido às mudanças climáticas e ao aquecimento global. A Europa é considerada o continente que aquece mais rapidamente no mundo e está na linha de frente desse desafio. Durante grande parte do ano passado, as temperaturas superaram em 1,5 grau as médias pré-industriais. Se mantida essa tendência atual, projeta-se que as temperaturas europeias possam aumentar até 3,1 graus até o final do século.
“As cidades ao redor do globo ainda estão se preparando para o calor atual da melhor forma possível”, afirma Ladd Keith, professor especializado em Planejamento e diretor da Iniciativa de Resiliência ao Calor da Universidade do Arizona (EUA). “No entanto, não estamos nos planejando adequadamente para o calor futuro que iremos enfrentar.”
Durante muitos anos, o fenômeno das altas temperaturas recebeu bem menos atenção e recursos comparado a desastres como furacões ou incêndios florestais. Contudo, com o aumento da intensidade das ondas de calor — apresentando consequências cada vez mais letais — os formuladores passaram a encarar esse problema com maior seriedade. Os primeiros planos focavam principalmente na proteção da saúde pública e respostas emergenciais; já as abordagens recentes abrangem iniciativas como arborização urbana e redução do calor gerado por veículos e aparelhos climatizadores.
As cidades costumam ser entre 3 e 5,5 graus mais quentes que suas regiões circunvizinhas devido ao aquecimento gerado por carros e indústrias pesadas assim como pelo calor retido por materiais sintéticos, formando as chamadas ilhas de calor. Para combater esse fenômeno urbano, tem havido investimentos no plantio de árvores e criação de parques. Tais esforços demandam colaboração entre diferentes setores públicos como urbanistas, autoridades sanitárias e equipes encarregadas das respostas a desastres.
Algumas cidades chegaram a criar cargos específicos conhecidos como “chefes do calor” (“chief heat officers”) encarregados da gestão dessa questão, enquanto outras conferiram explicitamente às suas equipes climáticas o papel central na coordenação dos esforços adaptativos. Em 2021, Miami-Dade se tornou pioneira ao contratar a primeira autoridade dedicada exclusivamente à gestão do calor no mundo. De acordo com Keith, existem cerca de 15 posições similares em países como Grécia e Austrália.
O estado do Arizona tem se destacado na resposta aos desafios impostos pelo calor extremo. Em 2023, aproximadamente mil pessoas faleceram devido a doenças ligadas ao calor nesse estado — um número superior ao registrado em qualquer outro lugar dos EUA. No entanto, nas temporadas seguintes esses índices diminuíram mesmo diante da severidade crescente das ondas térmicas. O governador passou a declarar oficialmente emergências durante episódios críticos relacionados ao calor; além disso foi designada uma autoridade específica para lidar com essa questão junto com um coordenador estadual responsável pelos centros refrigerados.
Cidades como Tucson também estabeleceram seus próprios planos para ações emergenciais. Durante os períodos menos quentes do ano, líderes locais se reúnem para discutir experiências adquiridas nas temporadas anteriores.
“Os esforços acumulados na última década convergiram num ano crítico”, declarou Keith. “Hoje estamos lidando com o verão quente de maneira muito mais coordenada do que antes.”
Essas iniciativas são cada vez mais cruciais diante da crescente frequência e intensidade das ondas de calor nas regiões tradicionalmente temperadas da Europa. Especialistas preveem que o verão de 2027 poderá ser histórico em termos de temperatura máxima devido à influência do fenômeno conhecido como “super El Niño”, que afeta significativamente os padrões climáticos globais.
“Isso está completamente alinhado com as expectativas resultantes das mudanças climáticas atuais. Qualquer aprendizado obtido neste evento deve ser rapidamente incorporado nas práticas futuras”, conclui Keith.
