A vida na Alemanha em meio a eleições que podem favorecer a AfD
Resido na periferia de Berlim, em um complexo habitacional criado pelo governo comunista para os trabalhadores, em um período em que a cidade ainda era separada por um muro. As edificações, de estilo brutalista, são amplas e abrigam muitos apartamentos, cercados por praças repletas de áreas verdes.
Esses condomínios, administrados por cooperativas, estão localizados longe do centro e apresentam aluguéis acessíveis, resultando em uma população majoritariamente composta por imigrantes. Como ocorre na maioria das grandes cidades, os imigrantes e os trabalhadores informais com salários baixos acabam sendo deslocados para as periferias, ou no caso de Berlim, para fora do “Ring”, como é conhecido o formato anelar da cidade.
Recentemente, enquanto caminhava pelo meu bairro durante o fim de semana, prestei atenção aos diversos idiomas que ecoavam ao meu redor: russo, chinês, inglês. Foi então que me deparei com um cartaz fixado em um alto poste de luz. “Migração precisa de Fronteira”, estampado em azul e assinado pela extrema direita Alternativa para Alemanha (AfD) em sua sigla alemã. Um pouco mais adiante vi outro cartaz: “Deportar imigrantes criminosos”. E outro ainda: “Na escola, o alemão é obrigatório”. A presença dessas mensagens dominava a área.
Com as eleições estaduais se aproximando em setembro nas regiões da Saxônia-Anhalt, Berlim e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, além das municipais na Baixa Saxônia, as ruas estão repletas de propaganda política. É não apenas irônico – dada a história comunista desse local – mas também alarmante que a AfD tenha escolhido esses slogans para divulgar neste meu bairro.
Não se trata apenas de campanha eleitoral; é uma declaração.
A AfD tem radicalizado cada vez mais seus discursos e seu crescimento nas pesquisas é notável. Desde as eleições federais que resultaram na escolha do chanceler Friedrich Merz da União Democrata Cristã (CDU) em 2025, a principal bandeira do partido tem sido a deportação em massa como uma solução fácil para a crise política e econômica e o aumento da criminalidade. “Deportar aos milhares”, entoavam jovens partidários durante os comícios onde a legenda obteve o segundo lugar.
No final do ano passado, participei clandestinamente de um evento da AfD na Turíngia, que avaliava os dez anos desde que a ex-chanceler Angela Merkel “abriu as portas” do país aos refugiados. Ao entrar, recebi uma pasta contendo uma extensa lista de nacionalidades e suas respectivas porcentagens de crimes cometidos na Alemanha. O telão exibia continuamente imagens de criminosos árabes procurados pela polícia. A plateia estava cheia de alemães de diferentes idades aplaudindo e clamando por deportações e pelo fim do multiculturalismo.
Com esse discurso cada vez mais agressivo e ultranacionalista, na Saxônia-Anhalt, o partido aparece com 43% das intenções de voto para as eleições marcadas para 6 de setembro.
“Formaremos o governo na Saxônia-Anhalt”, declarou Alice Weidel, co-líder da legenda, em entrevista à ZDF. Ainda assim, a AfD não conseguiu até hoje integrar um governo estadual ou federal devido ao fato de os principais partidos terem se recusado a colaborar com esta legenda extremista; essa estratégia é conhecida como “cordão sanitário”.
No entanto, esse cordão começa a apresentar sinais de fragilidade. Inicialmente porque partidos tradicionais da direita e centro-direita estão perdendo espaço nas assembleias legislativas e já consideram adotar pautas mais radicais para conquistar eleitores.
Além disso, num sistema político que demanda coalizões para governar, evitar a colaboração com a AfD está se tornando cada vez mais desafiador. Nas eleições federais passadas, por exemplo, o partido liderado por Merz precisou contornar a AfD — que ficou em segundo lugar — formando alianças com dois partidos menores para conseguir governar; isso envolveu um processo complicado e demorado.
Por último, essas eleições regionais trazem novidades importantes, especialmente na Saxônia. Com diversos partidos menores atingindo resultados próximos ao limite eleitoral de 5% na Alemanha, existe uma real possibilidade da AfD conquistar uma maioria absoluta nas cadeiras disponíveis; seu candidato principal, Ulrich Siegmund, pode se tornar o primeiro governador de um estado alemão desde a fundação do partido em 2013.
Entretanto, essa não é a única alternativa. A líder do pequeno partido BSW — autoproclamado como sendo de extrema esquerda (com muitas controvérsias) — Sahra Wagenknecht afirmou que se seu partido conseguir os mais de 5% necessários para entrar no parlamento irá romper o cordão sanitário e formar uma coalizão com a AfD.
Em Berlim, o estado mais progressista da Alemanha até agora apresenta o partido Die Linke à frente nas pesquisas eleitorais; logo atrás vem a CDU. A disputa entre AfD e os Verdes está acirrada pelas posições subsequentes.
O que causa apreensão nessas eleições programadas para setembro não é apenas a possibilidade da extrema direita ascender ao poder em alguns estados; mas também o fato dela já estar remodelando aspectos do cotidiano das pessoas — impactando paisagens urbanas, linguagem e convivência social.
Os projetos autoritários não triunfam somente ao vencer nas urnas; eles prevalecem quando o medo passa a ser parte integrante dos bairros onde vivemos.
Os cartazes da AfD no meu bairro não visam apenas capturar votos; eles delimitam território e promovem exclusão. Pendurados nos altos postes acima das cabeças dos imigrantes e fora do alcance das nossas mãos.
