Lições da Tragédia Nepalesa: Reflexões e Aprendizados
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Após a devastadora avalanche e a subsequente enchente de lama que atingiram o Nepal, fico refletindo sobre o que poderia ter sido feito para evitar tantas perdas humanas. Doze dias após o trágico evento, já foram contabilizadas mais de mil mortes, com cerca de 3 mil pessoas ainda desaparecidas. Seria possível ter alertado a população com uma sirene ou uma mensagem no celular sobre o iminente perigo?
Especialistas apontam que a rapidez com que um bloco de gelo se desprendeu e atingiu o rio Trishuli, na fronteira com o Tibete, foi tão grande que não haveria tempo hábil para emitir um alerta de emergência. Contudo, reportagens recentes indicam que não havia um sistema de alerta prévio na área afetada. A Reuters informou esta semana que os avanços nos monitoramentos das geleiras foram interrompidos devido à falta de colaboração do governo chinês em compartilhar dados com o Nepal.
Alec Luhn, repórter da revista britânica New Scientist e especialista em criosfera – os ecossistemas congelados do planeta – destacou em um post que um incidente similar ocorreu na Suíça no ano passado, quando um glaciar colapsou sobre a vila de Blatten. Nesse caso, apenas uma pessoa perdeu a vida porque houve um aviso emergencial que permitiu que os moradores evacuassem a área rapidamente.
Os glaciares ao redor do mundo têm se tornado cada vez mais instáveis devido ao aquecimento global. As camadas de gelo em regiões montanhosas, como onde ocorreu a avalanche no Nepal, estão se afinando constantemente. Nos últimos dois verões na região afetada, as temperaturas alcançaram níveis recordes. Algumas dessas geleiras levaram milênios para se formar, mas podem desaparecer dentro da expectativa de vida atual das pessoas.
Embora o Brasil não possua geleiras, enfrenta eventos climáticos extremos próprios. Um dos episódios mais memoráveis é a megaenchente que ocorreu no Rio Grande do Sul em 2024, resultando em 440 mil desalojados e 184 fatalidades. Naquela ocasião, houve uma mobilização significativa por parte dos órgãos responsáveis: alertas meteorológicos foram emitidos e a defesa civil atuou. No entanto, a imprevisibilidade teve um papel crucial; a transformação de uma tempestade em um evento severo aconteceu rapidamente e sem detecção pelos sistemas de monitoramento.
Isso evidencia uma falha no Rio Grande do Sul: a falta de manutenção da infraestrutura existente e investimentos adequados para se adaptar às novas realidades climáticas. Com a temperatura média global superando 1,5ºC, desastres dessa magnitude são esperados com frequência crescente. Assim, adaptar-se tornou-se uma necessidade urgente: é preciso preparar nossas residências para lidar com extremos térmicos e planejar o abastecimento de água e alimentos diante das secas e enchentes recorrentes. Também é essencial implementar sistemas de alerta para emergências climáticas, protegendo-nos contra tempestades devastadoras ou incêndios florestais.
A injustiça climática
A ausência de alertas torna ainda mais desafiadora a capacidade de resposta às emergências climáticas. Isso também reflete uma questão de justiça social: como evidenciado por situações emergenciais anteriores, os mais vulneráveis são os mais afetados. São essas pessoas que perdem suas economias durante enchentes ou deslizamentos e têm menos recursos para enfrentar as consequências por viverem em áreas arriscadas.
Um exemplo claro dessa desigualdade foi observado em fevereiro de 2023 em São Sebastião, litoral paulista. Uma das maiores tempestades registradas no Brasil resultou na queda de quase 800 mm de chuva em poucas horas e causou 65 mortes devido a deslizamentos de terra; muitas vítimas eram moradores de ocupações irregulares nas encostas da Serra do Mar. Assim como no Nepal, não houve alertas sonoros ou avisos prévios.
Entretanto, avanços significativos têm sido feitos nos últimos anos para estabelecer sistemas preventivos de alerta. Após os eventos trágicos nas cidades serranas do Rio de Janeiro em 2011, o governo da então presidente Dilma Rousseff criou o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Este órgão público reúne cientistas e técnicos altamente qualificados e tornou-se parte integrante da vida cotidiana ao fornecer avisos sobre chuvas intensas e secas severas. A integração das infraestruturas de comunicação também permitiu que alertas chegassem diretamente aos celulares dos cidadãos.
Ainda assim, é necessário avançar ainda mais.
A Organização Meteorológica Mundial tem promovido ativamente um programa denominado “Alertas Preventivos para Todos”. Com as tecnologias disponíveis — como satélites para monitoramento em tempo real e redes globais de comunicação — é possível salvar vidas ao antecipar desastres potenciais. Além disso, há um crescente acúmulo de conhecimentos tradicionais que podem ser compartilhados entre países; não raramente são essas experiências locais que fazem diferença significativa. Um exemplo disso foi observado entre populações indígenas na Indonésia, onde anciãos com profundo conhecimento das marés conseguiram alertar suas comunidades sobre um tsunami iminente.
Por fim, enfrentamos outro desafio crucial: combater a desinformação. Esse aprendizado se tornou evidente durante os incêndios em Los Angeles no ano passado; muitas pessoas perderam suas casas porque duvidaram dos avisos emitidos pela mídia tradicional ao deixarem de acompanhar as notícias confiáveis.
Neste contexto atual — marcado pela intensificação das mudanças climáticas — negar essa realidade (como tem feito Flávio Bolsonaro) representa não apenas um risco significativo; é uma verdadeira ameaça!
Para saber mais:
Prevention Web – site dedicado ao fornecimento notícias e recursos da agência da ONU voltada à redução dos riscos associados a desastres naturais.
