Pesquisadora alerta: STF se aproxima de um irreversível colapso de credibilidade
Nos últimos dias, os eventos relacionados ao Supremo Tribunal Federal (STF) têm ocupado espaço significativo nas manchetes, tanto em âmbito nacional quanto internacional. A sessão extraordinária da Corte, que ocorreu na terça-feira (15), tinha como objetivo definir o futuro da investigação do ministro Alexandre de Moraes no caso Banco Master. No entanto, a reunião foi interrompida após um pedido de vista, com prazo de até 90 dias para nova análise.
Nesta edição do Pauta Pública, Eloísa Machado de Almeida, professora de direito da Fundação Getúlio Vargas e coordenadora do grupo de pesquisa Supremo em Pauta, é convidada para discutir o atual contexto e as expectativas futuras para o STF.
Segundo Eloísa, a crise enfrentada pela Corte atingiu um estágio em que não há soluções simples ou rápidas para restaurar sua capacidade decisória e recuperar o respeito da sociedade brasileira. “Essa situação ultrapassou o limite do retorno […] O momento atual é de mitigação de danos. Qualquer perspectiva futura parece bastante negativa”, afirma.
Ela também destaca a relevância do jornalismo na elucidação dos fatos envolvendo os ministros do STF, mas alerta sobre os riscos que a imprensa pode representar para a democracia ao se alinhar a interesses políticos, especialmente em ano eleitoral.
A seguir, confira os principais tópicos abordados na conversa e ouça o podcast completo disponível abaixo.
EP 234
“STF em ponto de não retorno” – com Eloísa Machado de Almeida
18 de setembro de 2026
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A coordenadora do grupo de pesquisa Supremo em Pauta discute a crise no STF e os desafios para recuperar sua credibilidade.
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No dia 15, a tão aguardada sessão do STF que deveria decidir sobre a investigação do ministro Alexandre de Moraes foi suspensa após um pedido de vista por parte do ministro Flávio Dino. Quais são suas considerações sobre essa sessão e as possíveis repercussões dessa decisão diante da crise atual?
Em virtude da complexidade da crise no Supremo Tribunal Federal, que envolve múltiplos ministros simultaneamente, era previsível que um dos tópicos centrais fosse a discussão sobre quem poderia participar dessa sessão. Embora Dias Toffoli e Nunes Marques tenham se declarado suspeitos para deliberar, considero inadequado que Mendonça e Moraes participem de um caso que diz respeito diretamente aos seus interesses.
Creio que seria prudente dedicar tempo nessa sessão para discutir as questões levantadas pelas mensagens que envolvem vários ministros, diretamente ou por meio de familiares. Em minha opinião, essa sessão aprofundou ainda mais a crise no STF e deixou sem respostas os caminhos que o tribunal deverá seguir em relação às denúncias relacionadas aos supostos crimes cometidos por seus membros.
A sessão mostrou-se incapaz de apresentar soluções ou até mesmo delinear próximos passos. Observou-se um grande desgaste entre os ministros presentes. Portanto, o pedido de vista feito pelo ministro Flávio Dino pareceu ser uma medida adequada para acalmar os ânimos antes do período eleitoral e evitar qualquer uso indevido das informações discutidas.
A temática desta temporada do Pauta é “diálogos para entender o que é real”. Essa questão se torna pertinente no atual contexto brasileiro: o que realmente importa neste cenário conturbado? O que deve ser observado com atenção pelos ouvintes?
A fase inicial das investigações gera uma sensação confusa devido à quantidade excessiva de documentos disponíveis, tornando difícil discernir o que é relevante.
Esse cenário ilustra bem o estágio atual das investigações no Supremo Tribunal Federal. Somente com a evolução das apurações,e através dos relatórios finais da Polícia Federal que poderão resultar em indiciamentos e potenciais denúncias pelo Ministério Público, conseguiremos entender como esses documentos se conectam com práticas ilícitas.
Isso representa uma narrativa — uma explicação sobre os acontecimentos relacionados ao Banco Master — investigando se houve participação de ministros ou figuras influentes e como as provas amplamente divulgadas corroboram essas histórias ou podem desmentir impressões prévias.
Portanto, não é surpresa estarmos confusos; isso ocorre porque essas informações brutas raramente são acessíveis ao público geral. O que emerge são as narrativas construídas pelos órgãos responsáveis pela acusação e investigação penal, cuja construção ainda está em andamento devido à fase inicial das apurações.
O alerta aos ouvintes é observar cuidadosamente as informações disponíveis; não por conta de viés potencial, mas porque muitas delas estão sendo utilizadas para apoiar narrativas sem uma avaliação completa ainda realizada.
Quais seriam as possibilidades para o STF restabelecer sua credibilidade junto à população como um órgão imparcial na aplicação da lei? Como pode a Corte superar essa situação?
Acredito firmemente que este momento já ultrapassou um ponto crítico e não existe solução rápida ou fácil à vista. A crise se firmou e tende a se agravar ainda mais. Os danos serão profundos e talvez irreversíveis. Assim sendo, a principal tarefa da Corte será mitigar esses danos tanto internamente — na sua habilidade decisória — quanto externamente — na necessidade de garantir que suas decisões sejam respeitadas pelos demais poderes.
Em minha visão, estamos numa fase onde o STF precisa focar na contenção dos danos. Qualquer panorama futuro parece sombrio. Se nada for feito quanto à investigação dos ministros ou mesmo se forem instauradas investigações formais, isso trará problemas. O afastamento temporário ou definitivo desses ministros acarretaria igualmente complicações adicionais.
Portanto, nesse ponto sem retorno aparente, parece claro que a Corte enfrentará um caminho desafiador para restaurar sua capacidade decisória e recuperar seu respeito público — algo que pode levar tempo e resultar em restrições impostas por outros poderes.
Sinto informar que minha percepção é bastante pessimista nesse sentido. Um tribunal fragilizado emergirá dessa situação e isso não será benéfico considerando a conjuntura brasileira repleta de promessas constitucionais ainda por cumprir.
