André Mendonça quebra barreiras entre bolsonaristas e é visto como “o escolhido por Deus”, afirma teólogo

André Mendonça quebra barreiras entre bolsonaristas e é visto como “o escolhido por Deus”, afirma teólogo

No epicentro da controvérsia no Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro André Mendonça conseguiu romper a bolha da militância extrema e conquistou uma parcela significativa do eleitorado evangélico moderado. Com uma narrativa quase religiosa, ele se apresenta como um “servo de Deus” que combate um sistema corrupto – numa interpretação simplista de uma batalha espiritual.

Ronilso Pacheco, teólogo e diretor-executivo do Instituto de Estudos da Religião (Iser), examina a imagem que está sendo construída em torno de Mendonça como um novo “herói do Judiciário”. Contudo, ele observa que essa figura é distinta de outros já reconhecidos nessa categoria, como Sergio Moro e Joaquim Barbosa. Em conversa com a Agência Pública, Pacheco ressalta a crescente presença do nacionalismo cristão e argumenta que a luta contra a instrumentalização religiosa deve incluir a voz das comunidades de fé, ao invés de silenciá-las. Segundo ele, é fundamental que líderes religiosos corajosos se levantem para inspirar a defesa dos direitos humanos e proteger a democracia e o Estado laico.

O que representa atualmente a figura de Mendonça, especialmente para o eleitorado evangélico?

Mendonça chegou aos poucos e consolidou sua posição. Sua trajetória se alinha perfeitamente à ideia de um chamado bíblico: um pastor presbiteriano, com carreira pública, que ascendeu ao STF. Um homem humilde, que repentinamente se vê no centro de um caso crucial para a República. Após ser alvo de zombarias por suas orações em momentos decisivos, ele agora é visto como alguém escolhido por Deus por muitos, assumindo uma postura desafiadora frente aos ministros mais influentes da corte. Essa narrativa ressoa entre os pastores que transformam sua história em uma poderosa campanha de oração em favor dele. As lideranças evangélicas ligadas ao bolsonarismo não tinham muito a oferecer para incentivar o engajamento político até que ele apareceu como uma alternativa. O público em geral, incluindo os evangélicos, tende a entender mais facilmente que o pastor presbiteriano denunciou as relações impróprias entre um juiz e um banqueiro corrupto, resultando na sua perseguição.

A figura de Mendonça consegue atingir o eleitorado evangélico moderado e romper com a bolha radical bolsonarista?

Sim, isso já está ocorrendo. Eu estou envolvido nesse meio e percebo em familiares, amigos e até estranhos que a bolha foi rompida. A indignação dentro da comunidade evangélica está tomando forma. Uma espécie de proteção está sendo criada ao redor de Mendonça. O que podemos antecipar nos próximos dias é uma situação delicada: dependendo do julgamento do plenário, uma decisão desfavorável ao ministro poderá ser interpretada como uma perseguição religiosa ao único pastor na corte.

O Brasil já teve “heróis do Judiciário” em várias ocasiões, como Joaquim Barbosa, Sergio Moro e Alexandre de Moraes. André Mendonça pode assumir esse papel? Qual é sua singularidade em relação aos demais?

A manifestação ocorrida no dia 7 de Setembro na Avenida Paulista, com um boneco inflável representando Mendonça, já evidenciou que ele está sendo posicionado nesse papel principalmente por apoiadores do bolsonarismo que tentam elevar sua imagem como um contraponto ao Alexandre de Moraes. Ele está lentamente ocupando esse espaço, mas com diferenças marcantes. Joaquim Barbosa e Sergio Moro tiveram adesões diferentes; suas trajetórias estavam mais ligadas ao combate à corrupção. Embora Moro tenha estabelecido alguma conexão com o meio evangélico através do ex-procurador Deltan Dallagnol, que é batista e mobilizou os evangélicos para apoiar a luta contra a corrupção liderada por Moro. Ele foi considerado herói por parte da população, incluindo segmentos evangélicos interessados em mudanças no país. O Dallagnol fez apresentações em várias igrejas sobre corrupção e engajamento comunitário. Agora a dinâmica parece ser outra: trata-se mais de uma disputa política onde há interesses em transformar André Mendonça em um símbolo heroico. Enquanto Moro era visto como o herói limpador da corrupção no Brasil, André Mendonça emerge como protagonista de uma luta pelo poder político.

Quais podem ser as consequências de tratar trâmites jurídicos e disputas políticas como “lutas entre o bem e o mal” ou “Deus contra o diabo”?

As consequências podem ser extremamente negativas. A laicidade do Estado pode ser comprometida. É sabido que essa laicidade já enfrenta desafios no Brasil devido à forte cultura religiosa presente na sociedade. Com narrativas religiosas apresentadas como conflitos entre bem e mal, as repercussões podem ser devastadoras. Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil; é parte de uma estratégia deliberada utilizada por forças ultraconservadoras que exploram narrativas religiosas cristãs. Observa-se isso em vários partidos extremistas na Europa nos últimos anos e também nos governos conservadores emergentes na América Latina, especialmente nas discussões sobre segurança pública e combate ao narcoterrorismo – conforme exemplificado por Donald Trump com seu discurso religioso. Não surpreende que líderes como [Nayib] Bukele [presidente de El Salvador] falem sobre guerras espirituais enquanto outros na Colômbia também fazem uso dessa retórica religiosa para descrever disputas políticas. Esse alinhamento global mostra como a religião tem sido utilizada para estabelecer conexões populares e mobilizar engajamento político.

Qual deve ser o papel da política nas igrejas? É viável um distanciamento total ou pode haver uma conciliação saudável?

É necessário buscar uma relação equilibrada entre política e religião. Recentemente, o mundo ficou surpreso com os resultados das eleições do AfD (partido alemão de extrema direita) na Saxônia; esse partido possui ideologias associadas ao neonazismo. Algumas semanas antes das eleições, diversas igrejas protestantes se uniram para realizar cultos visando mobilizar seus membros contra essa candidatura extremista. Embora não tenham tido sucesso – pois o AfD foi eleito –, essas instituições tentaram evitar resultados desastrosos.Precisamos urgentemente de lideranças religiosas capazes de motivar suas comunidades em prol da democracia, do respeito às diferenças humanas e dos direitos fundamentais. Elas devem estar cientes dos riscos associados à ascensão autoritária e às armadilhas representadas pela extrema direita sem silenciar suas vozes politicamente. As pessoas não frequentam igrejas para receber aulas sobre ativismo político; elas buscam devoção religiosa e cultura. No entanto, é imprescindível reconhecer que as decisões políticas impactam diretamente as vidas dos indivíduos assim que deixam as igrejas.