Estudo da Abin revela que a extrema-direita brasileira atua como aliada na estratégia de Trump

Estudo da Abin revela que a extrema-direita brasileira atua como aliada na estratégia de Trump

Com um semblante sério e as mãos cruzadas, o embaixador dos Estados Unidos no Panamá, Kevin Cabrera, divulgou um vídeo no canal do Departamento de Estado no YouTube no dia 13 de agosto de 2026, afirmando: “Agora, a América tem a oportunidade de estabelecer uma nova ordem”. Essa declaração remete à Doutrina Monroe, que data do início do século XIX e que considerava o continente americano como esfera de influência dos EUA. O ex-presidente Donald Trump reviveu essa doutrina para justificar intervenções políticas, militares e econômicas em outros países, incluindo o Brasil, especialmente em um ano eleitoral. A Agência Pública revelou que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) está monitorando esses movimentos através de relatórios internos que descrevem os discursos de figuras da extrema-direita como “facilitadores” para ataques à soberania nacional.

Em um documento recente enviado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e à Polícia Federal (PF), a Abin classificou o risco de interferência e influência dos EUA nas eleições brasileiras como “crítico”. A jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, foi quem trouxe essa informação à tona. Relatórios semelhantes têm sido elaborados desde novembro de 2025, quando a administração Trump começou a intensificar seus esforços por hegemonia na América Latina.

Dentro da extrema-direita brasileira, há alinhamentos ideológicos com a administração Trump. De acordo com análises da Abin, esses grupos extremistas são vistos como aliados dos interesses americanos no Brasil. O Secretário de Defesa dos EUA, Peter Hegseth, já havia designado os países latino-americanos como “quintal” de Washington em uma entrevista à Fox News no ano anterior. Essa retórica foi contestada pelo presidente Lula durante seu discurso na Assembleia Geral da ONU na terça-feira, 22 de setembro: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, afirmou ele, que também é candidato à reeleição.

Fontes consultadas pela reportagem sob condição de anonimato revelaram que o principal interesse dos EUA reside na exploração de terras raras — o Brasil possui mais de 20% das reservas globais desse recurso. A Pública destacou que logo após assumir o cargo, Trump assinou um decreto visando acelerar a produção desses minerais críticos para reduzir a dependência em relação à China. O documento ressalta que “minerais críticos são essenciais para a prontidão militar americana”, sendo fundamentais para diversos equipamentos militares como jatos e submarinos.

A Pública também informou que a embaixada americana no Brasil fez contato com Sóstenes Cavalcanti (RJ), líder do PL na Câmara dos Deputados, solicitando uma reunião com dois representantes do Departamento de Estado. A missão dessa dupla seria semear desconfiança sobre as urnas eletrônicas brasileiras. Entretanto, o Itamaraty negou os vistos para Riley Bernes e Samuel Samson.

Diante desse cenário tenso nas relações diplomáticas, o Ministério das Relações Exteriores ainda não concedeu sua aprovação à indicação feita por Donald Trump para a embaixada nos EUA no Brasil. O indicado é Daniel Perez, representante da Flórida — equivalente a um deputado estadual — cuja nomeação foi aprovada pelo Senado americano em 7 de agosto. Contudo, ele não poderá assumir sem previamente receber o agrément, conforme estipulado pela Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas de 1961. Esse agrément é uma formalidade necessária antes da indicação e não foi realizado neste caso específico.

Perez é um fervoroso defensor do movimento nacionalista Make America Great Again (MAGA) e mantém laços próximos com Marco Rubio. A Pública destacou que ele desempenha um papel crucial nos planos expansionistas de Trump e poderia ser uma figura significativa nas tentativas de interferir diretamente nas questões legislativas brasileiras.

Atenção da Abin aos discursos intervencionistas

O monitoramento realizado pela Abin abrange discursos que possam ter caráter intervencionista e causar repercussão nas instituições brasileiras além de gerar apoio popular para intervenções americanas. Os agentes da inteligência estão atentos às atividades contínuas desses discursos, considerando tanto políticos radicais quanto influenciadores digitais alinhados à extrema-direita.

“Diferentemente do cenário das eleições anteriores há quatro anos atrás, onde havia risco real ao Estado Democrático de Direito, hoje enfrentamos uma situação marcada por interferências externas; os EUA mostram preferência por forças opositoras que facilitam seus interesses”, destacou uma fonte da Abin sob condição de confidencialidade. 

As iniciativas destinadas a fomentar apoio à intervenção americana se intensificaram em 2026. Um exemplo disso ocorreu em 16 de julho com Marco Rubio convocando 66 países para se unirem contra o que chamou de “terrorismo da extrema esquerda”. Sem apresentar evidências concretas, Rubio — filho de imigrantes cubanos conservadores e membro da elite econômica da Flórida — acusou Cuba de espionagem e infiltração nos Estados Unidos. 

Em sequência, em 22 de setembro, os 14 países latino-americanos integrantes do “Escudo das Américas”, uma aliança militar criada por Donald Trump, firmaram um acordo para aplicar sanções contra facções criminosas como Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), incluindo congelamento de bens e restrições à imigração e vistos.