Anúncios e recomendações políticas irregulares persistem nas plataformas durante o dia da eleição
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Durante as polêmicas a respeito da influência das grandes empresas de tecnologia na lisura do processo eleitoral no Brasil, as plataformas digitais mantiveram a veiculação de anúncios políticos irregulares e a promoção de conteúdos de candidatos no período de resguardo das eleições de 2026.
O resguardo para a veiculação paga ou impulsionada de propaganda eleitoral na internet abrange as 48 horas que antecedem e as 24 horas que seguem a votação, conforme estipulado pelo art. 29, § 11, da Resolução TSE nº 23.610/2019. A mesma norma também estabelece regras sobre os tipos de propaganda eleitoral disponíveis na internet e regula o impulsionamento de conteúdo nos artigos 28 e 29.
O levantamento revelou um total de 568 anúncios irregulares na plataforma Meta, além de 18 anúncios ativos no Kwai e um no Google Ads, sem contar pelo menos seis campanhas fraudulentas que se faziam passar pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O estudo também registrou recomendações orgânicas de conteúdos provenientes de contas oficiais de candidatos no TikTok e YouTube durante o dia da eleição. Os dados foram coletados pelo Observatório das Big Techs, projeto desenvolvido pelo NetLab UFRJ, um laboratório dedicado à pesquisa sobre internet e redes sociais vinculado à Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
A análise foi realizada em duas frentes distintas: uma focada nos anúncios pagos, chamada Observatório da Publicidade Política, e outra voltada para o estudo das recomendações algorítmicas, que examinaram os conteúdos sugeridos organicamente por TikTok, YouTube e Instagram.
Falsos anúncios do TSE afirmam que eleitor poderia votar pela internet
Na parte referente à publicidade política, foram contabilizados os 568 anúncios irregulares veiculados na Meta relacionados a um total de 15 candidatos. No Kwai, foram registrados também 18 anúncios ativos e um no Google Ads durante o período restrito. A pesquisa ainda encontrou 45 anúncios associados a dez páginas candidatas que alteraram suas datas-limite para continuar ativos no dia da votação.
Entre os casos registrados na Meta estavam pelo menos seis campanhas fraudulentas que se passavam pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ou pela Justiça Eleitoral. Conforme apurado pelo NetLab, esses anúncios eram veiculados tanto por perfis falsos imitando contas oficiais utilizando a marca do TSE e nomes como “TSE Informa”, quanto por contas que aparentavam ser de usuários comuns.
Essas campanhas promoviam uma falsa narrativa sobre a criação de uma modalidade oficial chamada “voto digital”, permitindo aos eleitores votarem remotamente, seja de casa ou por meio do celular. Para conferir veracidade à fraude, os anúncios exploravam situações que poderiam dificultar a ida às urnas, como chuvas intensas, problemas médicos e dificuldades para locomoção.
Ao clicar nos anúncios fraudulentos, os usuários eram redirecionados para sites externos que solicitavam o CPF para supostamente iniciar o processo de votação. Uma das mensagens identificadas dizia: “Você não precisa ficar em fila para votar. O TSE criou o voto digital para garantir sua participação nesta eleição pelo celular com total segurança.” O NetLab destaca que esse tipo de mensagem pode induzir eleitores ao erro quanto à necessidade do comparecimento presencial nas seções eleitorais e levanta preocupações relacionadas à coleta indevida de dados pessoais.
Além disso, foram detectados anúncios da loja Vinho B II Mito promovendo produtos como vinhos e facas com imagens de figuras políticas e apoio explícito a determinadas candidaturas.
O relatório também apontou falhas na transparência das ferramentas utilizadas para monitorar esses anúncios. Na Meta, pesquisadores notaram discrepâncias entre os anúncios categorizados como “inativos” e aqueles ainda considerados ativos na biblioteca da plataforma. No Kwai, foram observadas etiquetas como “em pausa”, sem documentação clara sobre esses status e divergências entre os dados apresentados na plataforma e aqueles exportáveis para análise.
Em resposta à situação, o Google declarou que sua política proíbe anúncios políticos no Brasil e assegurou que suas equipes trabalham constantemente para evitar descumprimentos dessa norma. A empresa também fez questão de diferenciar entre publicidade paga e conteúdo orgânico no YouTube, enfatizando que as Diretrizes da Comunidade são aplicadas independentemente do viés político dos criadores.
Íntegra do posicionamento do Google
“O Google apoia as eleições brasileiras conectando milhões às informações confiáveis e relevantes. Desde 2024, nossa política proíbe anúncios políticos no Brasil. Aplicamos nossas diretrizes rigorosamente e agimos prontamente em caso de violações. Este estudo demonstra que nossas equipes conseguiram prevenir abusos com sucesso; apenas um anúncio foi identificado até agora. Desde maio de 2024, não permitimos o uso do Google Ads para promover conteúdo político no Brasil — isso inclui qualquer anúncio relacionado a candidatos ou partidos durante as Eleições Gerais de 2026. Em relação ao conteúdo orgânico no YouTube, aplicamos nossas Diretrizes da Comunidade globalmente e publicamente disponíveis consistentemente independente da orientação política dos criadores visando proteger a integridade da plataforma.”
TikTok “para você” sugere conteúdos políticos durante a votação
Na segunda vertente do estudo, o Observatório da Recomendação Algorítmica focou em como as plataformas sugeriram conteúdos políticos durante o dia do pleito. Segundo informações obtidas pelo NetLab, a Resolução TSE nº 23.732/2024 define diretrizes sobre sistemas recomendatórios e propaganda eleitoral online. As análises revelaram recomendações relacionadas aos candidatos tanto no TikTok quanto no YouTube.
No TikTok, o feed “Para Você” apresentou uma alta proporção de sugestões políticas — aproximadamente 53,8% dos vídeos analisados abordavam esse tema. A plataforma recomendou um total de 18 vídeos distintos provenientes de sete contas oficiais dos candidatos. Flávio Bolsonaro (PL) foi mencionado em seis dessas recomendações; Lula (PT) e Fernando Haddad (PT) apareceram quatro vezes cada um; enquanto Jones Manoel (PSOL) e Gustavo Gayer (PL) tiveram duas recomendações cada; por fim Nikolas Ferreira (PL) e Biólogo Henrique (MDB) apareceram uma vez cada um.
Por outro lado, na seção Shorts do YouTube observou-se uma proporção menor dedicada ao conteúdo político — apenas 1,26% das recomendações feitas diziam respeito ao tema — embora continuassem sendo sugeridos vídeos publicados por contas oficiais dos candidatos. Foram identificados17 vídeos únicos provenientes de seis contas diferentes; Lula teve quatro menções; Jerônimo Rodrigues, Gleisi Hoffmann e Fernando Haddad apareceram três vezes cada; enquanto Nikolas Ferreira teve duas recomendações.
No Instagram não foram encontradas indicações relacionadas aos conteúdos compartilhados por contas oficiais dos candidatos na seção Reels; o material político representou somente 1,8% das sugestões analisadas.
O NetLab alerta que essas recomendações persistirem durante o dia da eleição pode gerar desigualdade na visibilidade entre os candidatos. Além disso, os pesquisadores enfatizam que as limitações nas práticas transparentes das plataformas dificultam a avaliação precisa do alcance dessas irregularidades. Os resultados apresentados representam apenas uma fração do problema existente em termos globais quanto aos anúncios veiculados e às recomendações realizadas durante o primeiro turno das eleições.
