Entrevista Reveladora: O que o diretor da Dark Horse pensa sobre Bolsonaro
Essas indagações foram feitas por Cyrus Nowrasteh, diretor do longa Dark Horse, uma cinebiografia sobre Jair Bolsonaro, em parceria com a Go Up Entertainment e o deputado federal Mário Frias Filho, que contou com o apoio financeiro de Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente.
Além de atuar como diretor, Nowrasteh coescreveu o roteiro junto ao irmão Mark Nowrasteh, baseando-se em um argumento elaborado por Mário Frias.
Documentos exclusivos obtidos mostram que, em março de 2024, os irmãos Nowrasteh solicitaram esclarecimentos sobre a vida de Bolsonaro e a equipe da Go Up trabalhou para fornecer informações. No entanto, muitas das fontes consultadas são conhecidas pela disseminação de desinformação, incluindo a produtora conservadora Brasil Paralelo. Várias das narrativas apresentadas aos cineastas já foram refutadas anteriormente.
As comunicações revelam ainda uma falta de entendimento sobre a realidade brasileira e o esforço da equipe da Go Up em apresentar o ex-presidente – que foi preso e condenado por tentar realizar um Golpe de Estado – como um defensor de causas justas.
A Agência Lupa mostrou que o roteiro final do filme Dark Horse altera eventos da campanha eleitoral de 2018 com a intenção de melhorar a imagem do ex-presidente ao propagar informações enganosas frequentemente divulgadas pelo clã Bolsonaro.
Defesa da Amazônia?
Um dos temas que despertou interesse dos roteiristas é a afirmação contida no argumento elaborado por Mário Frias, que aponta Jair Bolsonaro como um defensor dos povos indígenas e da Amazônia.
Cyrus e Mark questionam se Jair teve alguma interação com tribos indígenas durante seu serviço militar. Eles se perguntam: “Ele teve contato? Elas foram utilizadas nas operações? Recebeu apoio delas? Serviram como guias?”.
Na realidade, Bolsonaro atuou no Exército principalmente no Rio de Janeiro e Mato Grosso antes de ser investigado por um plano para detonar explosivos na Vila Militar e na Academia Militar das Agulhas Negras, ambas localizadas no Rio.
Isso evidencia novamente que os roteiristas receberam informações distorcidas. Eles expressaram interesse em saber mais sobre o julgamento de Bolsonaro pelo Exército.
De fato, Jair Bolsonaro nunca foi considerado uma ameaça ao regime militar; pelo contrário, ele construiu sua carreira política defendendo o Golpe cívico-militar ocorrido em 1964. Mesmo quando começou a protestar contra os baixos salários dos cadetes, não foi visto como uma ameaça significativa.
Em relação à Amazônia, os roteiristas parecem ter uma visão idealizada do protagonista do filme – bastante distante da realidade. No documento enviado, eles questionam:
Bolsonaro é um crítico ferrenho das legislações ambientais e das políticas voltadas para a proteção dos indígenas. Durante seu mandato, ele impediu que o Ibama realizasse apreensões de equipamentos usados para desmatamento ilegal, incentivou garimpos ilegais e perseguiu fiscais do órgão ambiental. Conforme dados do Instituto Socioambiental (ISA), o desmatamento na Amazônia aumentou significativamente durante seu governo.
Desinformações sobre a passagem de Jair no Exército
Outra informação incorreta enviada aos roteiristas afirma que Bolsonaro ajudou o Exército brasileiro na captura do guerrilheiro Carlos Lamarca quando tinha apenas 15 anos – uma narrativa já desmentida diversas vezes.
Bolsonaro chegou a afirmar que estava na escola quando os militares invadiram Eldorado no Vale do Ribeira à procura de Lamarca e outros guerrilheiros. Segundo relatos da Agência Pública, essa operação envolveu um cerco intenso que incluiu ataques com bombas napalm para localizar os membros do grupo. Ele diz ter assistido à reação dos professores durante os disparos entre as forças armadas e Lamarca. Contudo, houve realmente um confronto em Eldorado às 21 horas, conforme registros oficiais do Exército, quando não havia aulas.
Além disso, não há evidências documentais de que qualquer adolescente tenha contribuído com informações úteis para capturar Lamarca – conhecido como “capitão do povo”, ele conseguiu escapar do cerco e só foi localizado mais de um ano depois.
A facada de Adélio Bispo
A maior inverdade apresentada aos roteiristas refere-se à facada recebida por Bolsonaro durante as eleições de 2018. O filme Dark Horse sugere uma suposta conspiração envolvendo a esquerda e narcotraficantes nesse incidente. Três investigações realizadas pela Polícia Federal concluíram que Adélio apresentava problemas psiquiátricos e agiu sozinho.
Cyrus e Mark requisitaram mais detalhes sobre essa situação; a equipe forneceu diversos vídeos que fomentam teorias conspiratórias. Alguns desses vídeos pertencem ao canal “Dr Marcelo Soares – Advogado”, conhecido pela disseminação de desinformação. Um deles intitula-se: “Vazou – depósito de 50 mil para Adélio Bispo”, uma fake news já desmentida várias vezes por agências verificadoras; outro vídeo distorce fatos ao afirmar que Adélio revelou mandantes do crime também já desmentido.
Outro material encaminhado aos roteiristas é um ebook intitulado “Investigação paralela”, produzido pela Brasil Paralelo baseado na série homônima. Essa produção levanta várias versões sobre a facada; entre os principais entrevistados está Frederick Wassef, advogado ligado intimamente ao ex-policial militar Fabrício Queiroz, implicado em esquemas financeiros envolvendo Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Estado do Rio.
No ebook mencionado, Wassef afirma que um terceiro inquérito aberto pela PF estava prestes a identificar os mandantes do ataque. “As pessoas se revoltariam”, diz ele.
A última indagação dos irmãos Nowrasteh revela sua intenção em retratar Bolsonaro como um herói digno das telas hollywoodianas.
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Ele fez uma longa caminhada pelas ruas com seus apoiadores? div >
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“Depois dessa caminhada longa , ele chegou a um pódio onde subiu — sozinho , sem ajuda — e fez um discurso triunfante para mostrar ao mundo e seus adversários que ainda não havia desistido!”, escreveram. p >
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Essas respostas são essenciais para nossa narrativa e nossa capacidade de torná-la tão precisa quanto emocionante possível , além da dramática gratificação.
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A resposta não está presente nos documentos analisados pela Pública, mas se a equipe da Go Up quisesse ser fiel aos eventos das eleições de 2018 , poderia descrever melhor a aparição em vídeo de Jair Bolsonaro diante milhares apoiadores na Avenida Paulista , onde prometeu “varrer do mapa bandidos vermelhos” no seu último discurso eleitoral. p >
“Essa turma , se quiser ficar aqui , terá que se submeter às leis nós . Ou vão embora ou vão para cadeia” , ameaçou Bolsonaro , seis anos antes dele mesmo ser condenado e preso por tentativa de golpe estatal. p >
A reportagem tentou contato com Cyrus Nowrasteh e Go Up Entertainment mas não obteve resposta até esta publicação. p >
Novas revelações
Na quarta-feira 27 e quinta-feira 28 de maio , a Pública trouxe novas informações sobre Dark Horse ao revelar exclusividade documentos mostrando que Eduardo Bolsonaro juntamente com Go Up buscaram uma empresa húngara para pagamentos relacionados ao filme . Os registros indicam tentativas contratação “escrow account” ou “conta custodial” , além possível pagamento US$ 57 , 5 mil ao diretor Cyrus Nowrasteh . Também revelou como Mário Frias Karina Gama tentaram oferecer até R$500 mil direitos autorais história vida Bolsonaro sob determinadas condições impostas no acordo .
