Imposto em Alta: A Polarização Entre Trabalhadores e Empresários da Indústria de Calçados Sob a Decisão de Trump

Imposto em Alta: A Polarização Entre Trabalhadores e Empresários da Indústria de Calçados Sob a Decisão de Trump

Após o anúncio do governo dos Estados Unidos sobre a implementação de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) emitiu um comunicado expressando sua “extrema preocupação” com essa decisão. A entidade alertou que essa medida agrava uma situação já delicada e “aumenta a insegurança para as empresas” tanto no Brasil quanto nos EUA. Estimativas indicam que, após a introdução da primeira sobretaxa em 2025, as exportações das companhias brasileiras apresentaram uma queda de 13%, resultando em uma perda de 2,6 bilhões de dólares.

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), sob a liderança de Paulo Skaff, manifestou seu descontentamento com a nova tarifa, argumentando que ela prejudica “significativamente a competitividade do Brasil em relação a concorrentes internacionais”. A Abicalçados, que representa o setor calçadista, um dos mais impactados pela medida, também revisou suas expectativas para o ano e estima uma redução média de 7,1% nas exportações desse produto, um aumento considerável em relação ao que havia sido previsto antes da sobretaxa.

O presidente da Abicalçados, Haroldo Ferreira, participou de uma reunião com membros do governo federal na terça-feira, 21 de julho, em Brasília. O objetivo foi discutir estratégias para mitigar os efeitos negativos no setor calçadista, responsável por cerca de 280 mil empregos no Brasil. Durante as negociações, foram abordadas propostas como a criação de linhas de crédito com custos reduzidos para as indústrias e o aumento do retorno tributário sobre os produtos exportados. Além da Abicalçados, também estiveram presentes representantes da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) e dos setores automotivo, plástico e eletrônico.

Entretanto, os trabalhadores do setor calçadista parecem não compartilhar da mesma inquietação que os empresários. Sindicatos e associações das principais regiões produtoras de sapatos para exportação do país — Rio Grande do Sul e interior paulista (com destaque para Franca) — acreditam que “não há motivo para pânico”, já que muitas empresas têm buscado alternativas além das vendas aos Estados Unidos. Um exemplo é o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, que entrou em vigor provisoriamente em maio deste ano.

João Nadir Pires, presidente da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias do Calçado e do Vestuário do Rio Grande do Sul, comenta: “Desde os primeiros sinais [do tarifaço] dados pelos Estados Unidos, as empresas que exportam não dependem exclusivamente dessa atividade. Elas realizam apenas uma parte das vendas”. Ele acrescenta: “É claro que sentem falta dessa demanda americana, mas já estão se preparando com suas equipes e análises de mercado em busca de novas oportunidades”.

Os mercados que surgem como possíveis alternativas incluem Colômbia, Peru, Equador e Argentina. De acordo com dados da Abicalçados, este último é o segundo maior destino dos calçados brasileiros. Relatórios mostram que as exportações brasileiras destinadas à Argentina foram significativas nos últimos anos: em 2023 foram enviados 13,7 milhões de pares desse produto para o país vizinho. A principal preocupação expressa por João é com a concorrência oriunda da China.

Por que isso importa?

  • Além do Brasil sujeito à tarifa de 25%, os EUA impuseram tarifas adicionais de 50% sobre produtos provenientes do Canadá
  • Outros países como Indonésia, México e Paquistão também foram incluídos nas medidas punitivas americanas, embora com taxas menores de 10%.

Wellington Paulo de Oliveira, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Calçados de Franca — o segundo maior polo calçadista do Estado paulista — afirma que essa nova tarifa não deve desencadear um movimento significativo de demissões na região. Contudo, ele menciona outro desafio enfrentado pelas indústrias locais: a escassez de mão-de-obra especializada migrando para setores como a construção civil.

Por outro lado, Giovani Baggio, economista-chefe da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul, acredita que demissões já estão ocorrendo no setor. Ele cita dados do CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), indicando uma perda acumulada até 2026 de 3.382 postos na indústria do couro e calçados no Rio Grande do Sul.

“É fundamental intensificar a busca por novos mercados através de acordos comerciais”, defende Baggio. “Nos últimos anos o Brasil tem avançado nesse sentido; temos acordos com Mercosul e União Europeia em andamento e um novo acordo com Singapura entrando em vigor em agosto.” Ele ainda menciona avanços nas tratativas com países como Noruega e Islândia pela EFTA (Associação Europeia de Livre Comércio), além das negociações iniciais com Japão. Contudo, ele enfatiza que um acordo com os EUA seria essencial”.

O governo federal anunciou nesta quarta-feira, 22 de julho, a terceira fase do Plano Brasil Soberano — criado em 2025 para proteger empresas e empregos afetados pelas tarifas norte-americanas. Na nova fase serão alocados R$ 18,5 bilhões em financiamentos: R$ 13,5 bilhões provenientes do Tesouro Nacional e R$ 5 bilhões disponibilizados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Os recursos poderão ser utilizados para capital circulante ou aquisição de bens produtivos; investimentos em inovação tecnológica; adaptação dos produtos; além da prospecção e abertura em novos mercados. As duas primeiras fases do plano já alocaram R$ 16 bilhões e R$ 21 bilhões respectivamente; esta última teve R$ 19 bilhões solicitados até agora.

O que dizem os dados

Um relatório da Abicalçados revela que as exportações brasileiras no segmento calçadista totalizaram US$ 958 milhões e aproximadamente 103 milhões de pares em 2025; cerca de 30% dessas vendas aos EUA não foram concretizadas devido à primeira sobretaxa imposta por Donald Trump.

As projeções para 2026 indicam uma tendência negativa nas exportações brasileiras: as estimativas variam entre uma diminuição entre 4% a quase 9%. Contudo, essa retração não se deve apenas às relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos.

A Abicalçados observa que fatores internacionais como conflitos envolvendo Israel e Irã influenciam diretamente nos preços globais do petróleo e nas taxas cambiais — variáveis críticas para o comércio internacional — levando à desaceleração econômica global e impactando negativamente as exportações.

Além disso, a Argentina demonstra uma diminuição nas compras enquanto países asiáticos se mostram cada vez mais competitivos no mercado. A entidade também menciona incertezas relacionadas às políticas comerciais dos EUA.

A organização destaca ainda um declínio nas exportações realizadas na modalidade “private label”, onde se utiliza fabricantes terceirizados — esse fenômeno começou antes mesmo das sobretaxas impostas pelos EUA desde o início de 2023.

“A queda nas vendas ao principal mercado importador brasileiro está diretamente relacionada à redução geral das exportações nacionais entre os anos mencionados”, conclui a Abicalçados no relatório. Eles observam quedas também nos embarques destinados a outros sete destinos relevantes: Argentina, Equador, França, Peru, Chile, Espanha e Uruguai.

Segundo o estudo da Abicalçados essas perdas afetaram vários mercados estratégicos para a indústria brasileira. Apenas Paraguai e Colômbia registraram crescimento significativo entre os anos analisados.

Como chegamos até aqui

As preocupações geradas pelas tarifas impostas pelos EUA têm sido um ponto central na diplomacia brasileira desde a presidência Donald Trump. Diversos países sofreram consequências semelhantes devido às sobretaxas aplicadas pelo ex-presidente norte-americano sob alegação de práticas comerciais desleais por outras nações além da questão relacionada ao déficit comercial americano.

No dia 2 abril de 2025 foi estabelecida por Trump uma tarifa global inicial de 10% sobre todos os produtos importados pelos EUA mediante à Lei dos Poderes Econômicos Emergenciais Internacional (IEEPA). Mais tarde naquele ano — especificamente em julho — essa taxa foi elevada para brasileiros quando foi aplicada uma sobretaxa adicional sobre produtos nacionais no valor equivalente a 50%.

A justificativa política por trás dessa decisão estava ligada ao julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) contra Jair Bolsonaro por tentativa alegada golpe contra o governo. Em correspondência direcionada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva Trump criticou esse julgamento afirmando tratar-se “de uma caça às bruxas” que deveria ser encerrada. Essa estratégia foi organizada pelo filho Bolsonaro Eduardo Bolsonaro após sua mudança para os Estados Unidos em fevereiro daquele ano sob pretexto defender seu pai contra acusações feitas pela Justiça brasileira. Apesar das pressões exercidas por Trump inclusive através aplicação da Lei Magnitsky contra ministros STF resultou na condenação Bolsonaro à prisão por mais de vinte anos.

As tarifas iniciais foram suspensas após encontro entre Lula Trump na Malásia durante novembro daquele mesmo ano juntamente ao anúncio posterior retiradas das sobretaxas adicionais então vigentes também foram canceladas posteriormente pela Suprema Corte Americana já fevereiro seguinte . No entanto Trump reverteu essa situação ao impor novamente tarifas sob justificativa diferente baseadas seção específica legislação comercial americana.

Em junho passado terminou investigação realizada pelo governo americano referente seção específica lei comercial aberta contra Brasil desde julho anterior . Apesar dos esforços diplomáticos realizados pelo governo brasileiro Trump decidiu aplicar nova sobretaxa às mercadorias brasileiras estabelecendo início efetivo desta medida na data marcada quarta-feira passada ,22 julho .