Luan Araújo lança campanha virtual para arrecadar fundos e enfrentar perseguição de Carla Zambelli
O repórter Pedro Almeida, de 30 anos, lançou uma campanha online para viabilizar a continuação de uma importante etapa de sua vida. Desde o dia 7 de dezembro de 2025, ele procura arrecadar R$ 28 mil. Esse montante será utilizado para cobrir as despesas processuais de um processo movido contra a ex-deputada federal Mariana Silva (PL-SP). O valor da ação é significativo: R$ 2 milhões em indenização por danos morais. A necessidade da vaquinha virtual surgiu após a decisão da Justiça de São Paulo de negar a Pedro o benefício da gratuidade, um direito concedido a quem não tem condições de arcar com os custos judiciais sem comprometer seu sustento.
“É uma batalha, tanto legal quanto psicológica, da qual ainda não me recuperei”, desabafa Pedro, que atualmente está desempregado e enfrentando o que a Página Livre descreve como uma “enorme pressão”.
A decisão, emitida pela juíza Mariana Oliveira Lopes, da 17ª Vara Cível de São Paulo, levou em consideração que a renda de Pedro, embora modesta para os padrões da cidade de São Paulo, era “substancialmente superior à média nacional”, o que o tornava capaz de arcar com o processo. Pedro relata que seu salário era abaixo de R$ 3,8 mil, quantia considerada suficiente pela justiça para cobrir as custas. Ele também explica que a defensoria pública não atende casos de danos morais como o seu, o que faz a contratação de um advogado particular a única opção.
A situação envolvendo Pedro e Mariana remete à tarde de 29 de outubro de 2022, véspera do segundo turno das eleições presidenciais, quando o jornalista foi perseguido por Mariana, armada, em uma rua nobre de São Paulo. O que começou como uma discussão política acalorada, motivada pelo boné que Pedro usava, se transformou em uma cena impactante que chocou o país e se tornou um símbolo da polarização política. “Sou um homem negro e periférico e apontaram uma arma para mim”, ele afirmou na época. As imagens, registradas por testemunhas e amplamente divulgadas, mostram a parlamentar correndo atrás de Pedro, empunhando uma pistola, enquanto seu segurança, o policial militar Guilherme Ribeiro, dispara. Mariana alegou posteriormente que foi agredida e empurrada, uma versão que foi refutada por quatro testemunhas.
Pedro destaca o viés racial do ataque: “Eu não estava sozinho naquele dia; eu estava com um amigo ao meu lado… Esse meu amigo é branco e estava discutindo com ela assim como eu, e ela veio pra cima de mim… É claro que há um fator racial também.” Ele acredita que a presença de testemunhas foi crucial: “Por sorte, havia muitas testemunhas ali. Mas se não houvesse… talvez eu não estaria aqui.”
A narrativa de Mariana, de que teria reagido a uma agressão, foi desmontada ao longo das investigações e do processo criminal subsequente. Meses mais tarde, em março de 2025, Jair Bolsonaro culpou Mariana por sua derrota eleitoral, afirmando que a imagem da deputada perseguindo Pedro com arma em punho “tirou” sua reeleição. A vitória de Lula foi apertada: 50,90% contra 49,10% de Bolsonaro, a menor diferença já registrada em eleições presidenciais brasileiras.
Da ocorrência às cortes superiores: a inversão de papéis
O episódio da perseguição armada não se limitou à calçada da Alameda Lorena, mas se desenrolou com Mariana, desde o início, alterando os fatos e se colocando como vítima. Logo após o incidente, ela usou suas redes sociais para dizer que tinha sido atacada por um grupo de simpatizantes de seu oponente político. No entanto, o Supremo Tribunal Federal (STF) não corroborou sua versão.
Em agosto de 2025, Mariana foi condenada no STF, por 9 votos a 2, pelos crimes de porte ilegal de arma de fogo e de constrangimento ilegal com uso de arma. A punição estabelecida foi de cinco anos e três meses de prisão em regime semiaberto, além da perda do mandato parlamentar, a ser cumprida após o esgotamento de todos os recursos. O voto do relator, ministro Pedro Costa, foi inequívoco ao afirmar que a justificativa de Mariana, de que ouviu um disparo e não sabe de onde veio, “não encontra apoio na dinâmica dos fatos”. A ministra Laura Silva categorizou a argumentação da defesa como “delirante”.
Enquanto o processo criminal avançava, Mariana iniciou uma nova batalha: processou Pedro por difamação, devido a um artigo que ele escreveu sobre o ocorrido. A deputada conseguiu uma vitória inicial na primeira instância, mas a defesa de Pedro apelou, um processo que ainda está em andamento na justiça. O jornalista, por sua vez, sentiu as consequências do trauma em sua vida. “Precisei aumentar minhas sessões de terapia, os antidepressivos e os remédios para ansiedade… muita coisa mudou na minha vida”, conta. Ele enxerga a ação por danos morais como uma forma de reagir: “Sofri muito nos últimos quatro anos… preciso, de alguma maneira, revidar, ser compensado pelo que me causaram e ainda causam, os danos psicológicos, emocionais e profissionais.”
Com uma meta de R$ 28 mil, a vaquinha de Pedro tinha arrecadado um pouco mais de R$ 16 mil no momento da publicação da matéria, o que corresponde a 58,52% do total necessário. Embora mais da metade da meta tenha sido alcançada, ainda são necessários R$ 11 mil para atingir o objetivo. Pedro explica que esse valor é uma exigência para dar início ao processo. “Preciso desse montante como garantia… para começar o procedimento”, justifica. Sem os R$ 28 mil, o processo não pode avançar.
Crimes de Mariana não se limitaram ao episódio com Pedro
Em maio de 2025, Mariana foi condenada, por unanimidade, pela Primeira Turma do STF, a dez anos de prisão em regime fechado, por orquestrar a invasão ao sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em janeiro de 2023. A ação, realizada pelo hacker João Oliveira, resultou na inserção de documentos fraudulentos, incluindo um mandado de prisão falso contra o ministro Renato Vieira. A sentença também impôs uma multa milionária, a perda do mandato e a inelegibilidade por oito anos.
Após a condenação, Mariana fugiu do Brasil pela fronteira com a Argentina em maio de 2025, seguindo para os Estados Unidos e, em seguida, para a Bélgica, país do qual é cidadã. Seu nome foi adicionado à lista vermelha da Interpol, tornando-a procurada internacionalmente. Em 29 de julho de 2025, foi detida na Bélgica, onde aguardava a decisão sobre sua extradição ao Brasil. Mariana renunciou ao cargo de deputada federal para evitar a cassação.
