Quando a luta contra as drogas se transforma em combate ao terrorismo
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A principal distinção entre rotular o CV e o PCC como terroristas ou organizações criminosas reside na caneta de Donald Trump. Essa questão não tem relação direta com o Brasil. Ao classificar essas duas entidades brasileiras como “narco-terroristas”, o presidente dos Estados Unidos – seja Trump ou seu sucessor – possui o poder de realizar intervenções militares em nosso território sem a necessidade de autorização do Congresso. Isso implica em uma possível invasão das águas costeiras brasileiras e até mesmo das ruas de nossas cidades.
Para compreender as implicações disso, é vital examinar quem foram os indivíduos mortos pelos militares americanos no Caribe, em meio aos 58 bombardeios a embarcações que resultaram, até o final de maio, em 179 fatalidades, conforme uma recente investigação conduzida pelo CLIP, Centro Latinoamericano de Periodismo de Investigación.
Um exemplo é Chad Joseph, um jovem pescador de 26 anos originário de Trinidad e Tobago. Desde a infância, Joseph exercia a profissão de pescador e morava com sua tia na localidade de Las Cuevas, na Venezuela. Em um determinado momento, decidiu embarcar em uma lancha que se dirigia à sua vila natal de Matelot para encontrar sua namorada.
No dia 14 de outubro do ano passado, a embarcação foi atacada por forças militares americanas. O resultado desse ataque foi devastador: corpos dilacerados e a lancha completamente destruída, com todos os pertences perdidos no oceano. Não há como confirmar se havia realmente drogas na embarcação.
Nem mesmo os Estados Unidos sob a administração Trump se preocuparam em apresentar provas sobre isso.
A família de Chad conseguiu identificá-lo e pressionou as autoridades de Trinidad e Tobago antes de processar o governo americano em um tribunal federal em Massachusetts.
Mas o que levou Chad a arriscar sua vida ao entrar naquela embarcação vinda da Venezuela? Sua mãe, Lenore Burnley, explicou: “Conheço bem as leis do mar; aprendi desde jovem. Se é um barco ou algo assim, supostamente você deve detê-lo. A lei não prevê matar pessoas. Esta é a primeira vez na minha vida, aos 51 anos, que ouço algo assim”.
Ou seja: essa ideia era tão absurda que não passava pela cabeça de Chad.
O mesmo se aplica a Rishi Samaroo, um ex-prisioneiro de Trinidad e Tobago que já cumpriu pena e criava gado na Venezuela para ajudar sua família. Também ao venezuelano Eduard Hidalgo, 46 anos, deportado dos EUA em 2025; ao mototaxista Luis Ramón Amundarain de Güiria; ao pescador colombiano Alejandro Andrés Carranza Medina; ao conhecido jogador de futsal Eduardo Jaime “Pichirilo” da municipalidade venezuelana de Güiria; e ao pescador Ricky Joseph da Savannes Bay em Santa Lucía.
No total, a investigação internacional conseguiu identificar apenas 18 das vítimas fatais. Os demais desapareceram no mar.
Desde que seu filho foi brutalmente assassinado no mar, Lenore Burnley descreve sua vida como uma “tempestade contraditória entre uma esperança tênue e a dura realidade da morte súbita de Joseph sem um corpo para sepultar”.
Especialistas envolvidos na investigação apontam que muitas vezes os barcos que transportam drogas também levam passageiros em suas viagens de volta para faturar algum dinheiro extra.
A compreensão das histórias dessas vítimas que sequer tiveram chance de serem interrogadas pela polícia revela o horror da ação política armada por Flávio Bolsonaro, seu irmão Eduardo e o cúmplice Paulo Figueiredo, ao tentarem convencer o governo americano a legitimar ações dessa natureza contra trabalhadores brasileiros.
Enquanto muitos analistas afirmam que as consequências da classificação do PCC e CV como terroristas serão principalmente econômicas – com potenciais sanções a instituições financeiras e empresas incluindo até mesmo o sistema PIX –, minha preocupação recai sobre os trabalhadores. E não são apenas os pescadores afetados por essa situação.
Isso porque a série Los bombardeados, sin derecho a la defensa, liderada pelo CLIP, revelou outra informação alarmante. O tráfego aéreo na Colômbia foi prejudicado por “apagões” nos sistemas radarísticos precisamente nos dias e horários dos bombardeios realizados pelos EUA na costa colombiana. Há indícios claros de que os militares americanos utilizam dispositivos bloqueadores de sinal, colocando em grande risco também aviões comerciais sobrevoando o espaço aéreo colombiano.
E os trabalhadores desses voos – que nada têm a ver com estas situações?
Um piloto operando um Airbus A320 com capacidade para 180 passageiros relatou ter vivido uma experiência estranha no dia 12 de dezembro de 2025: “Estava voando de Bogotá para Aruba quando passei sobre La Guajira; ambos os sistemas GPS falharam e até mesmo meu relógio UTC parou. Foi muito incomum; nunca tinha enfrentado algo assim”, contou ele.
Conforme indicado num relatório enviado à Aeronáutica colombiana e revisado por jornalistas especializados, primeiro falhou o GPS esquerdo, depois o direito e então o transponder – dispositivo responsável por informar ao radar terrestre onde está localizado o avião. A torre de controle perdeu contato sobre sua posição. Alarmes do sistema antichoque soaram indicando proximidade com o solo enquanto eles ainda estavam milhares de pés acima do mar aberto. Os problemas persistiram até conseguirem aterrissar em Aruba, um destino turístico popular que recebe mais de dois milhões visitantes anualmente.
Se eu fosse parte dos sindicatos dos pescadores ou outros trabalhadores marítimos, estaria extremamente apreensivo. O mesmo vale para sindicatos representando pilotos, aeromoças e tripulantes.
E quanto à Aeronáutica brasileira? Onde estão nossos Brigadeiros?
E quanto à nossa Marinha? Onde estão nossos valorosos Almirantes?
Por fim, qualquer companhia aérea ou operadora turística deveria estar alarmada diante dessa situação. Imagine se um avião repleto com 200 passageiros for impactado por um desses “apagões”?
A manobra política realizada por Flávio Bolsonaro concedeu autorização implícita para qualquer presidente dos EUA eliminar qualquer brasileiro sem precisar investigar previamente quem ele é ou qual é sua ocupação.
Isso é uma irresponsabilidade inaceitável. Uma atitude leviana cujas consequências continuarão presentes por muito tempo após as eleições brasileiras; é uma mácula difícil de remover mesmo com esforços intensivos.
