Trump promete reconstrução de Gaza e conselho de paz, mas será apenas uma ilusão?
Em 19 de fevereiro, o presidente Donald Trump convocou a primeira reunião do Conselho da Paz para discutir a reconstrução de Gaza, após ter intermediado um acordo de vinte pontos que pôs fim à guerra de dois anos entre o Hamas e Israel. De acordo com um relatório das Nações Unidas, após o conflito, mais de 81% de todas as estruturas prediais foram danificadas ou destruídas, e 1,4 milhão de palestinos necessitam de abrigo emergencial.
Considerando o histórico de Trump durante o primeiro ano de seu segundo mandato, no qual fez avaliações infladas sobre o estado da economia e declarações delirantes sobre seus sucessos em missões de paz, alguns observadores estão céticos quanto à sua mais recente empreitada internacional.
Com base nessa primeira reunião pública, o Conselho da Paz parece ser uma invenção de Trump, concebida para concentrar poder absoluto em suas mãos na supervisão da reconstrução de Gaza, enquanto busca enriquecer sua família, amigos e principais aliados internacionais. Os críticos argumentam que se trata também de uma manobra para enfraquecer as Nações Unidas e expandir o poder pessoal de Trump em todo o mundo.
O evento inaugural do Conselho foi realizado no Instituto da Paz dos Estados Unidos, entidade financiada pelo Congresso – que Trump controla desde que tomou posse como presidente. É importante lembrar que, em dezembro de 2025, ele renomeou o instituto para Instituto da Paz Donald J. Trump dos Estados Unidos.
Durante o discurso de 45 minutos de Trump na cerimônia de abertura do Conselho da Paz, ele frequentemente se desviou do assunto em questão e elogiou sua própria capacidade. Em um dado momento, ele se vangloriou: “Acredito que este seja o conselho mais importante, certamente em termos de poder e prestígio”. Um grande elogio para os participantes de um evento exclusivo para convidados, que excluiu países da África Subsaariana, dado o desprezo de Trump por essa região do mundo.
Trump chegou a se gabar: “Nunca houve nada parecido, porque estes são os maiores líderes mundiais”, referindo-se aos vinte e sete participantes oficiais presentes no evento. Foi uma afirmação bastante duvidosa. Entre os presentes, estavam representantes de dezesseis nações árabes ou de maioria muçulmana, bem como seus aliados favoritos da extrema direita: Viktor Orbán, da Hungria, Nahib Bukele, de El Salvador, e Javier Millei, da Argentina.
Outros vinte e dois países, incluindo Alemanha, Reino Unido, Suécia e Noruega, bem como a União Europeia, enviaram observadores, embora atualmente não demonstrem nenhuma predisposição para ingressar no Conselho. A França recusou-se a participar, assim como a Cidade do Vaticano. Fiel à tendência de Trump de se vingar daqueles que o desagradam, ele retirou um convite que havia feito ao primeiro-ministro canadense, Mark Carney, devido às disputas em andamento que mantém com o vizinho do norte dos Estados Unidos.
A proposta de criação do Conselho da Paz foi originalmente contida na Resolução 2803 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, aprovada em 17 de novembro de 2025. Ela foi concebida para implementar o Plano de Paz de Gaza de outubro de 2025 entre Israel e o Hamas, estabelecendo um Comitê Nacional para a Administração de Gaza e uma Força Internacional de Estabilização para garantir o cumprimento do acordo de paz.
A República Popular da China e a Rússia se abstiveram na votação da resolução das Nações Unidas, presumivelmente porque ela concedia muito poder aos Estados Unidos. No entanto, tanto Israel quanto a Autoridade Palestina apoiaram a proposta. O Hamas criticou a resolução por “atribuir à força internacional tarefas e funções dentro da Faixa de Gaza, incluindo desarmar a resistência, retirar sua neutralidade e transformá-la em parte do conflito em favor da ocupação”.
No início deste ano, Trump promoveu o Conselho da Paz como um possível substituto para as Nações Unidas, comentando que “com todas as guerras que resolvi, as Nações Unidas nunca me ajudaram em nenhuma delas”. Dois dias depois, ele realizou uma cerimônia de assinatura da carta de fundação do Conselho em um evento paralelo realizado durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça.
Conselho da paz, uma organização absolutista
A estrutura autoritária, quase monárquica, do Conselho da Paz lembra a Organização Trump, um conglomerado que administra as propriedades do presidente. A carta do Conselho designa Trump como presidente vitalício e lhe concede o poder de nomear seu sucessor.
Assim como as condições para pertencer ao clube Mar-a-Lago de Trump em Palm Beach, Flórida, em que os membros devem pagar uma taxa de adesão de um milhão de dólares, os países que desejam permanecer no Conselho da Paz como membros permanentes terão que pagar um bilhão de dólares. Trump terá controle total sobre esses fundos. Outros estados-membros cumprirão um mandato de três anos e poderão ser reconduzidos a critério de Trump.
Os membros do Conselho Executivo do Conselho da Paz, todos nomeados por Trump, lidam com diplomacia e investimentos. A maioria são leais a Trump: seu genro Jared Kushner; o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio; O empresário Steve Witkoff, com seu enviado especial ao Oriente Médio; Marc Rowan, o bilionário CEO da Apollo Global Management, que contribuiu com um milhão de dólares para a campanha eleitoral de Trump em 2024; Yakir Gabay, um bilionário cipriota-israelense do ramo imobiliário; e Robert Gabriel Jr., vice conselheiro de Segurança Nacional dos EUA de Trump.
Outros membros oferecem uma fachada técnica e aparentemente neutra ao projeto. Entre eles estão o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair; o presidente do Grupo Banco Mundial, Ajay Banga; e Nikolay Mladenov, político e diplomata búlgaro que foi Coordenador Especial das Nações Unidas para o Processo de Paz no Oriente Médio. Mladenov também chefia o Comitê Nacional para a Administração de Gaza, que também está sob o controle de Trump.
Surpreendentemente (ou não), o Conselho da Paz de Trump não inclui nenhum representante palestino, embora o Comitê Nacional para a Administração de Gaza, criado para supervisionar as operações diárias do serviço público e da administração de Gaza, inclua técnicos palestinos independentes.
Durante a cerimônia de posse do Conselho, nove membros prometeram um total de 7 bilhões de dólares para a reconstrução de Gaza. Trump superou esse valor ao anunciar que os Estados Unidos se comprometeriam com 10 bilhões de dólares, embora o porta-voz americano não tenha indicado de onde viria esse dinheiro ou como seria usado. Até o momento, o presidente americano não consultou o Congresso dos EUA nem obteve autorização para financiar o projeto. No final do ano passado, as Nações Unidas estimaram que a reconstrução de Gaza custaria 70 bilhões de dólares. Muito mais precisará ser arrecadado se o esforço de reconstrução for bem-sucedido.
Trump nomeou o general americano Jasper Jeffers para comandar a Força Internacional de Estabilização. Albânia, C
