Iniciativa Artemis: Brasil desenvolve “superplantas” para nutrir a vida no espaço e na Terra
Reconhecido mundialmente como o “celeiro do mundo”, o Brasil pode estar à beira de um novo avanço significativo. Pesquisadores nacionais estão trabalhando no desenvolvimento de plantas que conseguem se adaptar e crescer no espaço. Essa inovação é crucial para a produção de alimentos em um cenário global cada vez mais desafiador, especialmente devido às mudanças climáticas.
A investigação faz parte do programa Artemis, que recentemente completou sua segunda missão tripulada à Lua, com o retorno seguro de quatro astronautas à Terra na data de 10 de abril.
O objetivo do Brasil é estabelecer fundamentos para a criação de “fazendas” no espaço, que abastecerão astronautas durante suas missões. Nomeada Rede Space Farming Brazil, a pesquisa é coordenada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), contando com a colaboração da Agência Espacial Brasileira (AEB) e especialistas de 22 instituições diferentes.
Os cientistas têm como meta desenvolver “superplantas” através da variabilidade genética, que apresentem maior produtividade, resistência e valor nutricional, além de otimizar o consumo de água e energia.
Na fase inicial do projeto, as escolhas para os testes recaíram sobre a batata-doce e o grão-de-bico, uma vez que essas culturas demandam menos água e calor em comparação com outras. Gradualmente, novas espécies serão incorporadas aos experimentos, incluindo aquelas utilizadas na fabricação de medicamentos e fibras.
“A adaptação dessas plantas permitirá a seleção de novos genótipos mais adequados às condições climáticas que enfrentaremos nas próximas décadas, simulando artificialmente o que se espera em termos de temperatura e outros fatores ambientais futuros”, explica Alessandra Fávero, coordenadora da pesquisa na Embrapa.
Por que isso é relevante?
- O programa Artemis iniciou suas atividades em 2012 sob a liderança dos Estados Unidos e sete outros países. Atualmente, 56 nações firmaram acordos de cooperação relacionados ao projeto.
- Uma auditoria realizada pela NASA indica que o programa já consumiu cerca de 93 bilhões de dólares ao longo dos 13 anos desde seu lançamento.
A pesquisadora Fávero enfatiza que os protótipos desenvolvidos poderão ser aplicados em regiões vulneráveis às crises climáticas, tanto em áreas urbanas densamente povoadas quanto em zonas rurais isoladas. “Essa é uma estratégia voltada para fortalecer a segurança alimentar das comunidades locais”, acrescenta.
Desafios da vida no vazio cósmico
Entre os principais obstáculos enfrentados pelos pesquisadores está a necessidade de criar um ambiente capaz de proteger as plantas da radiação ionizante presente no espaço. Embora pareça um vasto vazio escuro, o cosmos está repleto de partículas minúsculas que se deslocam em altíssimas velocidades e podem prejudicar qualquer forma de vida ao interagir com a matéria.
Para reproduzir essas condições extremas, laboratórios brasileiros estão realizando simulações. No ano passado, foi feito um experimento inicial em uma missão espacial análoga, criando um ambiente terrestre que imita as circunstâncias encontradas em uma estação espacial.
Esse experimento teve sucesso e ocorreu no Habitat Marte, um projeto da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), onde foram cultivadas mudas de tomate utilizando técnicas hidropônicas e aeropônicas – métodos que não requerem solo.
No mês de abril deste ano, a Rede Space Farming Brazil enviou sementes de grão-de-bico e batata-doce por meio de um foguete da Blue Origin, empresa do bilionário Jeff Bezos. As sementes ficaram expostas à microgravidade por cinco minutos antes de serem submetidas a análises genéticas. Em agosto seguinte, outras plantas brasileiras como morangos e orquídeas foram enviadas para a Estação Espacial Internacional (ISS).
A primeira fase deste programa está prevista para durar cinco anos com simulações realizadas na Terra. A próxima etapa incluirá testes realizados em órbita terrestre enquanto a terceira fase contemplará experimentos em ambientes mais profundos no espaço, como na Lua.
Da Lua à floresta tropical
A ciência brasileira também está engajada em projetos além da agricultura espacial: o país se prepara para sua primeira missão lunar. No contexto do programa Artemis, está sendo desenvolvido o SelenITA, um nanossatélite projetado para orbitar a Lua e explorar seu polo sul com foco no estudo dos campos magnéticos e da topografia lunar. O nome faz referência à selenita, um cristal cuja luminosidade remete à luz da lua.
A previsão é que o lançamento do nanossatélite ocorra na próxima fase do programa Artemis, agendada para 2028. Os dados obtidos serão fundamentais para futuras missões tripuladas à Lua conforme informações fornecidas pela AEB. O projeto conta com a colaboração entre o Instituto Tecnológico Aeronáutico (ITA), a agência brasileira e a NASA dos Estados Unidos.
A Força Aérea Brasileira (FAB) afirma que os estudos vinculados ao SelenITA contribuirão significativamente para avanços em diversas áreas como sistemas espaciais embarcados, navegação orbital e telecomunicações em profundidades espaciais.
Tais tecnologias são aplicáveis também em ferramentas cotidianas como monitoramento por satélite da Amazônia ou vigilância das fronteiras nacionais garantindo compartilhamento seguro das informações sensíveis.
“Iniciativas como o SelenITA promovem o desenvolvimento tecnológico nacional, capacitando engenheiros e solidificando uma base industrial robusta. Além disso, incentivam a formação científica entre jovens talentos nas áreas estratégicas”, destacou a Aeronáutica ao responder à solicitação da Agência Pública.
A importância da participação brasileira no programa Artemis
Os acordos firmados pelo Brasil em 2021 relacionados ao programa Artemis estabelecem protocolos de intenções entre países sem criar obrigações tecnológicas específicas.
“Esses acordos definem regulamentos voltados aos fins pacíficos e não predatórios na exploração do sistema solar, especialmente envolvendo a Lua e Marte”, explica Gabriel Rodrigues Hickel, astrofísico da Universidade Federal de Itajubá (Unifei).
Segundo ele, embora os benefícios diretos dessa participação possam não ser imediatos para a população brasileira, há perspectivas positivas no médio e longo prazo. “As inovações geradas durante a corrida espacial entre as décadas de 1950 e 1970 nos proporcionaram avanços significativos nas telecomunicações via satélite até melhorias nos diagnósticos médicos”, pontua Hickel.
O cientista também ressalta que os estudos realizados pela Embrapa podem trazer resultados valiosos aplicáveis não apenas ao cultivo espacial mas também para terras áridas ou menos férteis aqui na Terra. “No processo de desenvolvimento das espécies adequadas ao espaço pode-se descobrir variedades mais produtivas mesmo sob condições adversas”, acrescenta.
A AEB menciona que suas iniciativas relacionadas à exploração espacial são pautadas pelo multilateralismo tendo parcerias com os EUA e China por meio do programa CBERS vigente há mais de três décadas.
No âmbito das prioridades espaciais brasileiras estão três frentes principais: renovação da frota satelital; conquista autônoma do espaço; consolidação dos centros lançadores nacionais. A intenção é transformar o Centro Lançamento Alcântara no Maranhão em um hub comercial competitivo no mercado global ampliando as operações iniciadas com parcerias com empresas internacionais como Innospace da Coreia do Sul.
No entanto, até 2030 não existem negociações ativas relacionadas ao envio de astronautas brasileiros ao espaço.
