Na Antiga Babilônia, apostas preditivas alimentam conflitos e geram lucros impressionantes

Na Antiga Babilônia, apostas preditivas alimentam conflitos e geram lucros impressionantes

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O renomado autor argentino Jorge Luís Borges, um dos meus preferidos, explora em seu conto “A loteria da Babilônia” uma loteria que se torna uma força determinante na vida de todos os cidadãos. A narrativa sugere que, para incluir todos os membros da sociedade nesse jogo, ele acaba por definir os destinos de cada um.

Borges escreve: “Como todos os homens da Babilônia, fui pro-cônsul; como todos, escravo; também conheci a onipotência, o opróbrio e as prisões. (…) Essa variedade quase atroz deve-se a uma instituição que repúblicas alternativas desconhecem ou que nelas opera de forma imperfeita e secreta: a loteria”.

Aqueles que não têm recursos financeiros para participar do jogo entregam suas vidas a ele; assim, os prêmios podem surgir tanto como recompensas quanto como castigos. A cada rodada da loteria, define-se quem governará, quem será governado, quem se tornará escravo e quem será punido.

Quando leio sobre o impressionante crescimento do chamado “mercado de apostas preditivas”, sempre me recordo desse conto de Borges. Destacando-se nesse cenário está a plataforma Polymarket, cujo fundador Shayne Coplan, um jovem americano de 27 anos, acumulou uma fortuna aproximada de US$ 1 bilhão ao criar o “Jogo do Bicho” contemporâneo.

No Polymarket, qualquer pessoa tem a liberdade de elaborar uma aposta e negociar ações que representam resultados de eventos futuros no mundo real. As apostas podem variar amplamente, desde questões como “O TikTok será banido nos EUA este ano?” até “Michelle visitará Bolsonaro na prisão sozinha?”.

Plataformas como Polymarket e Kalshi permitem apostas em dólar e transações em criptomoedas. Assim como em um jogo de cartas, uma aposta só se torna válida quando mais de um usuário concorda em participar.

Conforme informado pelo próprio site do Polymarket, o apostador não compete contra uma casa de apostas tradicional, mas sim contra outros usuários; por isso “não há nenhuma ‘casa’ que possa excluí-lo por ganhar demais”. Isso implica um potencial ilimitado para lucros.

Entretanto, além da ausência de regulação e da alta probabilidade do mercado ser utilizado para lavagem de dinheiro por criminosos, existe outro problema significativo relacionado à forma como a Polymarket se apresenta e busca construir sua reputação.

O site argumenta que “estudos demonstram que os mercados preditivos tendem a ser mais precisos do que especialistas individuais porque combinam notícias, pesquisas e opiniões em um único valor representativo das probabilidades de um evento. Nossos mercados proporcionam probabilidades exatas e imparciais em tempo real sobre eventos relevantes para você. Eles buscam pela verdade.”

Essa afirmação é completamente absurda; no entanto, a crença disseminada nessa ideia – junto ao colossal volume financeiro movimentado pelo site (mais de 10 bilhões negociados apenas em março deste ano) – criou uma situação reminiscentes das obras borgesianas.

Por um lado, indivíduos com acesso a informações privilegiadas têm feito apostas no Polymarket visando lucrar com elas.

No início deste ano, o soldado americano Gannon Ken Van Dyke obteve lucros de 400 mil dólares ao apostar sobre o momento exato da Operação Resolução Absoluta – quando o Exército dos EUA invadiu a Venezuela sob o pretexto da ameaça de um cartel fictício visando capturar Nicolás Maduro. Van Dyke tinha conhecimento antecipado sobre a ação devido à sua participação no planejamento dela. Recentemente, ele foi indiciado pelo Departamento de Justiça por utilizar informações confidenciais para benefício pessoal e outros crimes relacionados.

Por outro lado, apostadores na Polymarket têm tentado influenciar a realidade para alinhar os acontecimentos às suas apostas.

No mês passado, Emanuel Fabian, jornalista do Times of Israel, publicou uma matéria indicando que um míssil iraniano havia atingido Beit Shemesh. Pouco tempo depois da publicação, recebeu ameaças anônimas pedindo para alterar sua reportagem à medida que o governo israelense afirmava que o míssil havia sido interceptado e que apenas fragmentos haviam caído ao solo.

Fabian insistiu em sua análise baseada na evidência visual do impacto causado pelo míssil.

A pressão aumentou rapidamente; as ameaças tornaram-se agressivas e até mesmo mortais. Tudo isso aconteceu porque existia uma aposta no Polymarket relacionada à possibilidade do Irã atingir Israel com um míssil.

Fabian manteve sua versão dos fatos. Ao permanecer fiel à verdade jornalística, causou perdas financeiras significativas para alguns apostadores enquanto outros lucraram enormemente.

Dessa forma, assim como ocorre nas Bets tradicionais, permitir apostas em “eventos isolados” pode facilmente corromper indivíduos em busca de resultados lucrativos.

Parece algo semelhante a manipular uma partida esportiva na vida real. Imagine quanto poderia custar convencer um governante a emitir um decreto em uma data específica, considerando possíveis ganhos na casa dos milhões?

A presença massiva de apostadores anônimos (com pseudônimos como Fredi9999 ou WindWalk3) munidos com criptomoedas cuja origem é desconhecida representa um risco imenso quando se trata de influenciar eventos políticos.

Muitos já estão obtendo lucros com as guerras envolvendo Donald Trump e Netanyahu; quanto mais caos houver, melhor para eles.

A situação ainda é mais alarmante. Donald Trump Jr., filho mais velho do presidente americano atual, atua como investidor não remunerado na Polymarket enquanto também é consultor pago da Kalshi. Além disso, a empresa responsável pela rede social Truth Social – atualmente processando Alexandre de Moraes por censura na Flórida – anunciou recentemente planos para lançar sua própria plataforma de apostas preditivas chamada “Truth Predict”. O primeiro evento apostável seria a vitória de Donald Trump nas eleições de 2028 – algo proibido pela Constituição americana.

No Brasil, o governo federal decidiu proibir as operações da Polymarket após deliberações do Conselho Monetário Nacional (CMN). Um total de 27 plataformas relacionadas foram bloqueadas pela Anatel imediatamente após essa decisão.
Essa medida é plenamente justificável dada aos riscos envolvidos.

Cabe ressaltar que essa proibição foi parcialmente impulsionada pelo forte lobby das Bets no Congresso Nacional brasileiro; esses grupos não desejam abrir mão dos seus lucros estimados em 1% do PIB nacional provenientes dessa epidemia das apostas. Contudo,a decisão merece aplausos pela proteção aos cidadãos diante dos enormes perigos envolvidos.

Ainda que tenha sido desativada pela Anatel e seu site esteja inacessível no Brasil atualmente, a Polymarket continua ativa com páginas traduzidas para o português e diversas apostas relacionadas às eleições presidenciais deste ano. Não há dúvida, esse tipo de aposta pode impactar eventos decisivos nas eleições futuras como ocorreu com as tentativas de assassinato contra Donald Trump e Jair Bolsonaro.

Certa vez além nessa distorção moral crescente na sociedade contemporânea , algumas publicações já começam a relatar as apostas feitas no Polymarket como previsões legítimas do futuro dignas de cobertura jornalística objetiva.

Dessa forma,a previsão torna-se também objeto noticiável, infiltrando-se numa realidade cada vez mais complexa.
Uma profecia auto-realizável surge neste contexto.

Pensando nisso tudo,e novamente evocando Borges: no conto “A loteria da Babilônia”, ele descreve uma loteria tão enraizada na sociedade que poucos conseguem recordar suas origens.

“Não indaguei sobre sua história; sei que os magos não conseguem entrar em consenso; conheço seus poderosos objetivos; é impossível saber da Lua para quem não entende astrologia. Venho de um país vertiginoso onde essa loteria compõe parte fundamental da realidade: até hoje pensei tão pouco nela quanto nas ações indecifráveis dos divinos ou nos labirintos do meu coração”.

Acredito estar vivendo num período crucial onde empresas abandonam qualquer ética visando maximizar lucros enquanto governos e sociedades sucumbem perante essa nova ordem mundial.

A atividade das Bets é consequência lógica das Big Techs, cujas práticas viciaram muitas pessoas ao redor do mundo enquanto barram qualquer tentativa governamental de impor limites ao seu domínio através do lobby massivo destinado à proteção incondicional desse império social vicioso.

No Brasil,o fenômeno das Bets evoluiu ao ponto onde legislações foram alteradas favorecendo seus interesses enquanto cooptavam diversos setores capazesde debater seriamente seus malefícios sociais – incluindo entretenimento e mídia.Agora,sua próxima etapa é expandir negócios semelhantes à Polymarket,sendo estas empresas também implicadas em estratégias intensivas voltadas ao lobby buscando ocultar suas verdadeiras intenções sob disfarces respeitáveis. 

Caminhamos rumo a um universo insano.E nesse mundo insano faz sentido observar destruídas todas as conquistas trabalhistas civilizatórias,cidadãos logo poderão apostar seu tempo ou trabalho na grande casa global das apostas caso não consigam arcar financeiramente com suas jogadas.Viveremos numa versão moderna da Babilônia antes mesmo darmos conta disso,tendo nossos direitos reduzidos sob alegações irrestritas acerca da liberdade absoluta permitindo qualquer cidadão participar dessa vasta loteria mundial.