Desvendando o amanhã profissional em meio à instabilidade atual
A relação entre o ser humano e as máquinas tem sido uma constante no ambiente de trabalho desde a Revolução Industrial. No começo do século 19, por exemplo, operários do setor têxtil na Inglaterra começaram a destruir equipamentos que ameaçavam suas vagas, um movimento conhecido como Ludismo, frequentemente considerado ingênuo ou até mesmo irrelevante nos dias atuais. A ideia predominante ainda é que o progresso não pode ser detido; assim, cabe aos trabalhadores adaptarem-se: aprender a manusear as novas tecnologias para garantir sua sobrevivência.
Atualmente, esse cenário se repete com a ascensão da Inteligência Artificial (IA) nas empresas. As IAs não apenas executam tarefas específicas, mas também estão envolvidas em processos de recrutamento, avaliação de desempenho e podem até prever um futuro onde a figura do trabalhador humano desapareça. Embora ainda haja incertezas sobre a viabilidade desse futuro, é indiscutível que cada vez mais companhias estão investindo na implementação dessas tecnologias e exigindo que seus colaboradores se familiarizem com elas.
Para discutir as dúvidas acerca do futuro do trabalho e as implicações práticas e simbólicas desse momento histórico, o Pauta Pública convidou a socióloga e psicanalista Marta Bergamin, que coordena o curso de pós-graduação em Sociopsicologia na Fesp (Fundação Escola de Sociologia e Política).
Confira os principais tópicos abordados e ouça o podcast completo abaixo.
A transformação provocada pela inteligência artificial no mercado de trabalho é uma das grandes preocupações contemporâneas. Dois casos concretos ilustram bem essa questão, relatos recebidos pela nossa equipe. O primeiro envolve um ex-funcionário de uma operadora telefônica que passou 12 anos na empresa até que seu setor foi totalmente substituído por IA. Ao buscar nova colocação, ele percebeu que todos os processos seletivos estavam sendo realizados com a ajuda de IA, onde perguntas eram formuladas para criar perfis psicológicos dos candidatos sem retorno após longas entrevistas. O segundo relato é de um programador altamente qualificado que agora se vê mais como um instrutor da IA do que como um profissional atuante em sua área específica. Gostaria que você comentasse sobre essa nova realidade do trabalho mediada pela inteligência artificial.
Acredito que este é um tema muito pertinente atualmente, pois a inteligência artificial está se infiltrando na vida das pessoas de diversas maneiras. Embora ainda não tenha gerado um desemprego estrutural em larga escala, alguns setores já enfrentam suas consequências. Observamos também um futuro incerto para muitos trabalhadores. Vale destacar que essa tecnologia atualmente está sob controle privado, dominada pelas Big Techs, cujas decisões moldam o panorama da internet e seu uso nas empresas.
Outro ponto crucial diz respeito à mensagem enviada aos jovens sobre suas perspectivas profissionais. A narrativa de que a IA vai substituir empregos humanos influencia diretamente seus planos futuros. Isso gera uma crise existencial para os jovens, impactados por questões como crises ambientais e conflitos globais além das relacionadas ao trabalho. Há uma preocupação crescente sobre quem terá acesso às oportunidades criativas no mercado de trabalho; enquanto algumas profissões permanecem altamente qualificadas, muitos trabalhadores podem ser relegados a funções mecânicas e desprovidas de criatividade.
A grande questão reside no fato de que todos merecem ocupar funções significativas que ofereçam identidade e subjetividade ao trabalho realizado. Historicamente, o trabalho teve papel central na construção da identidade pessoal; hoje em dia, isso parece ter mudado consideravelmente. As pessoas estão buscando novas formas de se identificar através da religião ou questões sociais.
A concentração do poder nas mãos dos proprietários das Big Techs acarreta uma desigualdade crescente na sociedade atual. Atualmente, observamos bilionários acumulando mais riqueza do que o PIB de várias nações – como isso afeta o mundo do trabalho?
Esses indivíduos têm acumulado não apenas riqueza financeira mas também um enorme poder decisório sobre aspectos fundamentais da própria IA, resultando em profundas mudanças no mundo laboral. Com isso, podemos esperar impactos cada vez mais significativos nos próximos anos.
Analisando notícias sobre IA provenientes da China, percebemos uma abordagem diferente devido à forte regulação estatal naquele país. Isso sugere uma convivência social com a IA distinta da observada no Ocidente.
A necessidade é encontrar modelos adequados para regulamentar essa nova realidade tecnológica. Devemos nos perguntar se realmente desejamos substituir humanos em todas as atividades ou se podemos debater e regular esses usos de forma consciente.
A distribuição equitativa da renda gerada pelo trabalho também é fundamental para essa conversa.
Pós-pandemia assistimos a um aumento significativo na concentração de riqueza promovida pelas Big Techs em expansão. Enfrentamos uma realidade onde muitos dependem das plataformas digitais mediadas por algoritmos para trabalhar; essas plataformas vêm monopolizando setores do mercado laboral rapidamente após a pandemia.
A introdução de novos nichos econômicos relacionados às apostas online ilustra como a renda gerada pelo trabalho está sendo apropriadamente alterada por empresas capitalistas contemporâneas. Essa mudança sugere um discurso crescente onde trabalhar não é mais essencial para obter renda significativa; ao invés disso, propõe-se buscar fortuna através da sorte.
A propagação desse discurso tem implicações diretas nas vidas das pessoas comuns e deve ser analisada criticamente.
E esses discursos muitas vezes se entrelaçam com aqueles promovidos por coaches motivacionais ou líderes religiosos voltados ao empreendedorismo – criando narrativas prejudiciais quando vinculadas à cultura contemporânea dos influenciadores digitais.
Estamos presenciando transformações significativas no mercado laboral; influenciadores tornaram-se uma profissão viável com redes sociais projetadas para amplificar tais mensagens comerciais – isso altera profundamente nossa percepção tradicional sobre trabalho e formação acadêmica enquanto elites continuam enviando seus filhos para estudar fora sem intenção de retorno ao país.
No contexto da machosfera online temos observado um aumento alarmante nos índices de feminicídios e violência contra mulheres correlacionado ao surgimento dessa cultura nos jovens homens conservadores influenciados por esses canais digitais – mostrando como esses discursos impactam diretamente nosso entendimento sobre emprego e relações sociais.
A situação é complexa; discutimos aqui questões relacionadas ao planejamento futuro individualizado diante da precarização atual do emprego – conforme Richard Sennett mencionou anteriormente sobre o desaparecimento do longo prazo no planejamento profissional. É fundamental cultivar métodos eficazes para sonhar e realizar aspirações profissionais enquanto proporcionamos esperança aos jovens sobre oportunidades futuras no mercado laboral.
