Gigantes da Tecnologia Assumem o Papel de Novos Impérios Midiáticos

Gigantes da Tecnologia Assumem o Papel de Novos Impérios Midiáticos

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As grandes empresas de tecnologia estão se consolidando como a nova mídia. Esta foi uma das principais constatações do evento intitulado “Como cobrir as Big Techs e superar a captura corporativa”, promovido pela Pública em colaboração com o Centro Latino-americano de Periodismo de Investigación (Clip), o Lighthouse Reports e o Democracy for Sale, durante o Festival Internacional de Jornalismo em Perugia, na Itália.

Mais de 100 jornalistas participaram, ao longo do dia, de debates intensos e esclarecedores, conduzidos por renomados jornalistas investigativos globais. Entre eles estavam Julia Angwin, pioneira na investigação sobre algoritmos e fundadora do The Markup, primeira plataforma dedicada à investigação das Big Techs; Maria Teresa Ronderos, fundadora e diretora do Clip; Julie Posetti, pesquisadora que introduziu o conceito de “captura de plataformas” e diretora de pesquisa no International Center for Journalists; além de Daniel Howden, diretor do Lighthouse Reports; e Frederik Obermaier, jornalista responsável pelo vazamento dos documentos do Panama Papers, um dos maiores escândalos relacionados a informações confidenciais sobre empresas offshore.

A dinâmica do evento foi regida pelas “Chatham Rules”, que proíbem filmagens ou gravações e impedem a citação direta de participantes. A adoção dessa abordagem mostrou-se eficaz: a restrição à gravação fez com que todos se concentrassem inteiramente nas discussões.

A mesa inaugural abordou o novo papel das redes sociais, oferecendo diferentes perspectivas sobre como se deve compreender a influência das Big Techs nos dias atuais. Um dos modelos apresentados sugere que essas empresas representam uma nova versão de indústrias extrativistas, como petróleo e gás, mas sua extração refere-se aos nossos dados e conteúdos. Outra interpretação interessante considera essas empresas – especialmente devido à aliança com Donald Trump – como uma nova classe de corporações mercantilistas, similar à Companhia das Índias Orientais do século XVI.

A conclusão que as Big Techs se configuram como novos conglomerados midiáticos é crucial para compreender por que elas se aliam a regimes autoritários. Historicamente, autocratas sempre tentaram controlar os meios de comunicação – desde Hitler, que utilizou o rádio para manipular informações, até Vladimir Putin, que perseguiu veículos críticos e fomentou a compra de mídias afins. Isso ilustra como o controle da informação é fundamental para solidificar qualquer regime ditatorial.

No contexto atual, dominar a opinião pública implica controlar algoritmos que determinam quem tem voz, quem escuta e quem consegue ser ouvido. Portanto, é compreensível que autocratas como Donald Trump ou figuras controversas como Elon Musk busquem exercer controle sobre plataformas sociais como o X (ou a “truth social” no caso de Trump), utilizando-as para normalizar discursos e ideologias antidemocráticas que seriam restringidas em ambientes onde os princípios democráticos ainda prevalecem.

Dessa forma, ao aprofundar essa reflexão, torna-se evidente que nós, enquanto jornalistas, nos tornamos adversários necessários dessa nova ordem autoritária global. Uma ordem caracterizada por machismo, militarismo e ideais distorcidos oriundos do Vale do Silício. Por isso encontros como o realizado em Perugia e iniciativas investigativas transnacionais como A Mão Invisível das Big Techs são mais vitais do que nunca. Todos saímos com a convicção de que temos um longo caminho pela frente.