Inteligência Artificial: O Dilema Global entre Progresso Acelerado e Regulação Necessária
Recentemente, a inteligência artificial tem sido um dos assuntos mais debatidos no cenário internacional. Durante uma reunião entre Donald Trump e Xi Jinping, essa tecnologia foi destacada como um dos pilares da rivalidade tecnológica entre os Estados Unidos e a China. Na Assembleia Geral da ONU, Trump também enfatizou a importância do progresso em IA, afirmando que os EUA não aceitam qualquer forma de regulamentação sobre o desenvolvimento dessas inovações. Em seu discurso, ele sugeriu que o termo “inteligência artificial” fosse substituído por “superinteligência”.
Essas declarações ocorrem em meio a diversos alertas emitidos por especialistas em tecnologia sobre os potenciais riscos que essas ferramentas digitais podem representar para a humanidade se não houver um controle adequado sobre seus avanços.
Além das discussões que caracterizam a IA tanto como uma ameaça quanto como uma solução para problemas sociais prementes, é crucial entender o que realmente está em jogo nessa corrida tecnológica. Questões como quem controla essas ferramentas, quem estabelece seus limites e quem realmente se beneficia de seu desenvolvimento são fundamentais.
Nesta edição do Pauta Pública, Veronyka “Travahacker” Gimenes, programadora e ativista reconhecida como uma das 100 pessoas mais influentes em inteligência artificial pelo Time em 2026, compartilha suas perspectivas. Diretora da plataforma Código Não Binário, Veronyka aborda a disputa entre EUA e China, os desafios da regulamentação e a concentração de poder nas grandes corporações tecnológicas, além de discutir as implicações para o Brasil.
“Neste estágio da superinteligência, mesmo que ele [Trump] esteja utilizando isso para promover um projeto autoritário e tecno-autoritário, acredito que podemos aproveitar essa terminologia em nosso favor nas discussões sobre regulação e na luta contra as Big Techs”, comenta Veronyka. Ela acrescenta: “Se não implementarmos regulamentações, estaremos sujeitos a limites além do imaginável”.
Confira os principais destaques da conversa e ouça o episódio completo abaixo.
EP 235
IAs no centro da nova disputa global: acelerar ou regulamentar? com Veronyka “Travahacker”
25 de setembro de 2026 ·
Veronyka “Travahacker” Gimenes discute os riscos e limitações do avanço tecnológico.
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p > ‘Durante seu discurso na Assembleia Geral da ONU, Trump afirmou que a corrida pela IA é uma busca pela vitória inabalável e expressou sua intenção de não desacelerar. Ele ainda sugeriu que o termo “inteligência artificial”, considerado por ele enganoso, fosse alterado para “superinteligência”. O que você pensa sobre essa afirmação?
Estamos vivendo um momento único onde debater sobre regulação se torna cada vez mais essencial. Apesar de Trump utilizar esse conceito como propaganda para um projeto autoritário, é possível tirar proveito disso nas discussões sobre regulamentação e enfrentamento às Big Techs.
Aqueles que têm trabalhado contra as Big Techs há anos acreditam que promover tecnologias abertas e públicas é o caminho certo. Agora, essas questões estão ganhando visibilidade; as pessoas estão começando a entender melhor conceitos como soberania digital versus capitalismo de plataforma.
Embora haja muito trabalho pela frente para esclarecer esses temas ao público, é gratificante ver esses assuntos finalmente recebendo atenção relevante. Fazer parte desse debate público abre espaço para discutir soberania digital – desde questões nacionais até o uso popular da tecnologia. Estamos diante de um momento contrastante, mas extremamente interessante.
Recentemente, um pesquisador da Anthropic revelou que existe mais de 10% de chance de a IA exterminar todos os humanos até o final da próxima década. Como podemos interpretar esse apocalipse iminente? Quais são realmente as ameaças envolvidas?
Existem muitos fatores a serem considerados. Olhando para a estrutura atual da internet, há diversos elementos autônomos operando sem supervisão humana direta. Sistemas autônomos podem ser explorados por indivíduos mal-intencionados ou podem ocorrer falhas durante treinamentos, causando danos significativos.
A segurança dessa estrutura é mais frágil do que se imagina. As defesas criadas visam ações humanas específicas; no entanto, atualmente enfrentamos uma escala muito maior de ataques direcionados à inteligência artificial do que anteriormente. Um caso exemplificativo é o Hugging Face, onde foram registradas milhares de tentativas de ataque antes mesmo das descobertas serem feitas.
Confiar na ideia de ter um botão que desliga agentes autônomos ou controla toda a estrutura da internet pode ser ilusório. O verdadeiro risco não reside apenas na IA desenvolvendo consciência própria; mas sim na velocidade com que esses ataques acontecem nos sistemas testados — algo muito além do ritmo humano.
A discussão também inclui o conceito de sandboxing — áreas onde modelos são treinados — que deveriam ser encaradas com cautela semelhante à segurança nuclear: um ambiente controlado mas não totalmente seguro. Vazamentos durante treinamentos não podem ser atribuídos apenas à falha humana; existem limites técnicos inevitáveis quando se desenvolve superinteligências.
O aumento na concorrência por potência pode resultar em vazamentos significativos, levando figuras proeminentes nas Big Techs a reconhecerem publicamente os riscos envolvidos. Espera-se ver cada vez mais incidentes prejudiciais — tanto para as empresas quanto para seus líderes — refletindo uma preocupação crescente com a segurança digital.
No horizonte também surgem duas preocupações relevantes: primeiro está o desenvolvimento de vírus artificiais através da IA — algo potencialmente devastador nas mãos erradas; segundo é o cenário futurístico envolvendo robôs autônomos cada vez mais presentes no mundo físico sem necessidade de treinamento prévio específico.
Com as eleições se aproximando, alguns candidatos têm utilizado discursos otimistas sobre IA como solução mágica para problemas globais. A extrema direita tem sido particularmente eficaz na construção dessas narrativas sem apresentar planos concretos. Como você interpreta essa retórica no contexto brasileiro atual?
Isso reflete um fenômeno conhecido como tecno-solucionismo adotado pela extrema direita ao longo dos anos em relação às fronteiras tecnológicas — frequentemente associada à masculinidade hegemônica típica desse grupo social dominante.
Em eventos recentes em São Francisco, por exemplo, CEOs exaltaram as virtudes da IA enquanto minimizavam suas limitações — especialmente no campo das previsões climáticas — demonstrando ceticismo quando estas desafiavam interesses corporativos estabelecidos.
A visão predominante acerca da inteligência artificial parece estar profundamente ligada ao aumento do valor das soluções oferecidas pelas corporações tecnologicamente dominantes. Com líderes políticos estreitamente conectados às Big Techs defendendo interesses corporativos acima dos riscos percebidos pelos especialistas — estamos diante de um panorama surreal onde o capital influencia decisões cruciais relacionadas ao futuro tecnológico global.
É vital empoderar-nos dessas tecnologias para resolver nossos próprios problemas sociais sem depender exclusivamente delas ou das narrativas construídas por suas corporações dominantes. A construção de nossos próprios data centers e estruturas tecnológicas deve ser priorizada para garantir nossa autonomia.
Sinais positivos estão surgindo com iniciativas voltadas à criação de nuvens soberanas no governo brasileiro — uma conquista significativa após anos de defesa contra o uso indiscriminado das Big Techs para armazenar dados públicos vitais.
A capacidade coletiva para criar alternativas viáveis será fundamental; devemos entender profundamente essas tecnologias e desenvolver soluções sustentáveis adaptadas às nossas necessidades sociais específicas — evitando assim depender exclusivamente dos serviços fornecidos pelas grandes corporações.
A China apresenta um modelo útil nesse sentido com seu planejamento estatal voltado à energia renovável nos desertos através do uso inteligente dos recursos naturais; tal visão pode nos inspirar na formulação de estratégias adequadas dentro do nosso contexto social único.
