Imprensa troca exclusividade por cliques: a ascensão das redes sociais na informação
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O episódio apresentado por Fábio Porchat, produzido pelo podcast “Calma Urgente”, trouxe à tona as interações entre os Vorcaro, a Igreja da Lagoinha e a família Bolsonaro, e achei a discussão extremamente instigante. Mais do que as piadas do humorista, impressiona a habilidade em conectar os eventos de forma clara e acessível, elucidando o escândalo do Master e destacando seus protagonistas.
Essa iniciativa reúne artistas e jornalistas, encontrando uma maneira eficaz de se comunicar com o público em um contexto eleitoral tão complicado, repleto de interferências de grupos criminosos e ameaçado pela figura de Donald Trump, que é aliado das Big Techs.
Importante ressaltar que os acontecimentos que fundamentam a narrativa de Porchat não são revelações bombásticas; eles foram apresentados de uma maneira que facilita a compreensão sem se transformar em propaganda. Tal abordagem pode explicar o motivo pelo qual o perfil “Revelando”, responsável pela divulgação dos episódios, enfrentou censura (e posteriormente foi liberado) pela Meta após alcançar impressionantes 6 milhões de visualizações (com o vídeo acumulando 5,4 milhões de views no YouTube até o momento em que escrevo isso, enquanto um novo episódio já está sendo lançado).
Isso nos leva a refletir sobre o papel do jornalismo atual, especialmente aquele que ainda se apega a métodos tradicionais (como vazamentos seletivos), fontes específicas e formatos (como notícias-mercadoria), sem perceber a transformação necessária em seu papel dentro do novo cenário informativo.
Acredito que as aspirações dos proprietários das empresas jornalísticas estão restritas à negociação com Big Techs para receber pagamentos pelas notícias que costumam oferecer gratuitamente como combustível para essas plataformas – pelo menos até o momento em que a inteligência artificial assuma essa função. Afinal, não é razoável esperar muito daqueles que não veem contradição entre defender o interesse público e lucrar com anúncios de apostas esportivas – prática repudiada por cem veículos digitais durante uma manifestação liderada pela Agência Pública. Hoje (24), o presidente Lula deve assinar uma Medida Provisória proibindo as apostas no Brasil.
Para nós, profissionais da imprensa, a luta é diferente. Se queremos realmente garantir o direito à informação da população, precisamos resguardar o “ouro” do jornalismo: a interpretação dos fatos, começando pela análise política da realidade. Como afirmava Cláudio Abramo: “O jornalismo não pode ser despojado de opinião política. É necessário ter um ponto de vista claro sobre onde começa e termina essa opinião, e compreender onde ela pode influenciar ou não. O jornalista deve agir com consciência. Não se pode ser ingênuo; é preciso ser cético. E é fundamental ter um critério ético ao abordar questões.”
Essa orientação já era vital há quatro décadas; imaginem agora quando nosso trabalho está exposto a uma manipulação massiva de significados dependendo das intenções por trás dele. Quanto mais “objetiva” for uma pauta e mais “isento” for um conteúdo, maior será o poder nas mãos daqueles que dominam as redes.
Um ponto de vista fundamentado é essencial e deve emergir do conhecimento dos jornalistas sobre a realidade em questão, levando em conta o contexto histórico e os personagens envolvidos – muitas vezes negligenciado na pressa para entregar a “mercadoria”.
Conforme observou Fabiana Moraes, parte da mídia insiste em repetir erros semelhantes aos cometidos durante a cobertura da Lava Jato. Naquela época, muitos jornalistas reproduziam informações vazadas pela força-tarefa (incluindo coletivas realizadas fora do ar), selecionadas conforme interesses específicos dos envolvidos: como o juiz Sérgio Moro (que mais tarde se tornou ministro da Justiça sob Bolsonaro) e procuradores como Deltan Dallagnol, que quase obteve 2,5 bilhões de reais em um acordo entre a Petrobrás e o Departamento de Justiça dos EUA para criar uma fundação privada.
O verdadeiro significado da Lava Jato para o Brasil só foi revelado quando os jornalistas do Intercept Brasil mostraram como esses interesses resultaram em ilegalidades comprometedores para todo o processo. Essa situação se repetiu nas eleições recentes quando esse mesmo veículo expôs as conexões entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro nos áudios do Dark Horse. Até então, apenas surgiram vazamentos seletivos promovidos por André Mendonça contra Alexandre de Moraes e “Lulinha”, impulsionados pelo desejo de eleger Flávio Bolsonaro – algo evidenciado pela crise no STF e pelos eventos ocorridos no 7 de setembro em São Paulo.
Outro erro identificado por Fabiana desde 2018 foi a cobertura complacente acerca de Jair Bolsonaro; muitos não deixaram claro seu alinhamento à extrema direita nem alertaram sobre os riscos que ele representava para a democracia. Atualmente, grande parte da mídia levou tempo demais para reconhecer a interferência dos Estados Unidos nas eleições – um aspecto crucial deste pleito – além de falhar na cobertura relacionada ao lobby exercido por Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo contra os interesses nacionais, monitorado desde cedo pela Pública. Não surpreende que tanto a Pública quanto a jornalista Natalia Viana tenham se tornado alvos de ataques misóginos e desinformativos promovidos pelos lobistas mencionados.
Recentemente, noticiou-se uma suposta liderança de Flávio nas pesquisas eleitorais com base em pequenas flutuações dentro desse cenário acirrado. Na quarta-feira (23), um título na página principal do UOL sobre uma pesquisa Atlas/Intel dizia: “Flávio cresce e encosta em Lula no primeiro turno”, enquanto os dados demonstravam crescimento para ambos os candidatos mantendo rigorosamente inalterada a diferença em relação à pesquisa anterior. Um erro grosseiro corrigido algum tempo depois; mas tal fato pode ser interpretado sob uma nova luz – menos conspiratória e mais indicativa do comportamento homogêneo frequentemente observado no noticiário considerado “consensual”.
No início desta semana houve bastante agitação devido à leve alta nas intenções de voto para Flávio; este fato foi destacado como um empate técnico (3 pontos separando os candidatos) inédito no primeiro turno. Nesta quinta-feira saiu nova pesquisa Datafolha apontando um crescimento positivo de 1 ponto para Lula, restabelecendo sua vantagem sobre Flávio fora da margem de erro. Em resumo: nada mudou significativamente; as previsões continuam sendo incertas – estes são os fatos.
A estratégia adotada por Flávio consiste em afirmar repetidamente sua vitória no primeiro turno com intuito de atrair eleitores e até estimular apostas na plataforma Polymarket, gerando números fictícios divulgados por ele nas redes sociais nesta semana como se fossem resultados eleitorais reais. Mesmo que essa narrativa não o ajude efetivamente na vitória eleitoral, sabemos como essa ideia de “triunfo” pode ser utilizada como munição pelos golpistas. Não podemos nos permitir ser manipulados nesse jogo.
