Gemini se torna a chave que abre as portas das Big Techs no Piauí através da educação
Na zona leste de Teresina, uma escola estadual apresenta uma sala de aula que, à primeira vista, parece semelhante a outras instituições do Piauí: um espaço amplo com paredes claras e mesas dispostas para trabalhos em grupo. No entanto, alguns detalhes se destacam. Esta sala é equipada com Chromebooks e conta com uma poltrona que imita as cores e o design do logotipo do Google. As mesas e cadeiras seguem a mesma paleta de cores da gigante da tecnologia: azul, vermelho, amarelo e verde. Uma grande parede ao fundo é adornada por um painel que exibe a logomarca do Google for Education.
“Gostaram dessa sala? É mais um espaço tecnológico, inovador, padrão Google”, afirmou o então secretário estadual de educação do Piauí, Washington Bandeira, em um vídeo que circulou nas redes sociais na época. Ele também compartilhou com os alunos o orgulho pela visita de representantes do Liceu da Paraíba à sede do Google nos Estados Unidos. “Aproveitem bastante o Gemini, pois o Google é nosso aliado no ensino de IA”, acrescentou, referindo-se à inteligência artificial.
A chamada “sala Google” foi inaugurada no Centro de Educação Tecnológica Professor Darcy Ribeiro no dia 20 de março de 2025 e representou um passo significativo na modernização da educação pública no estado. Além de Teresina, outros municípios como Regeneração e Amarante também implementaram “salas Google” em suas escolas públicas. Esses espaços coloridos simbolizam a colaboração entre o governo do Piauí e grandes empresas de tecnologia.
Desde 2022, o governo piauiense tem estabelecido contratos substanciais com multinacionais do setor tecnológico. O governador Rafael Fontelles (PT), candidato à reeleição, aparece como favorito nas pesquisas eleitorais.
Uma pesquisa realizada pela Agência Pública revelou que foram assinados R$ 93,7 milhões em acordos diretos e indiretos entre o governo do Piauí e empresas como Google, Microsoft, Oracle e Amazon Web Services (AWS), além de integradoras locais. Mais da metade desses contratos está relacionada à educação, totalizando R$ 36,4 milhões, que representa mais de um terço do montante total.
Esses contratos abrangem a aquisição de plataformas digitais, infraestrutura em nuvem, licenças de software, equipamentos e soluções em inteligência artificial. Em muitos casos, incluem também a contratação de revendedores nacionais.
Parte dos investimentos está direcionada ao ensino da inteligência artificial nas escolas públicas. O Piauí foi pioneiro ao incluir essa disciplina obrigatória já em 2024 – algumas instituições utilizam a ferramenta Teachable Machine do Google para este fim. Em junho de 2026, foi lançado um novo programa para expandir o ensino da IA às escolas municipais; inicialmente será implementado em 50 municípios com planos para alcançar todas as 224 cidades até 2027.
Pesquisadores e especialistas em educação digital expressam preocupações sobre o modelo adotado no Piauí e em outros estados brasileiros. Eles alertam sobre os riscos associados à dependência tecnológica e à falta de mecanismos transparentes para governança e proteção de dados.
Rodrigo Nejm, doutor em psicologia especializado em direitos digitais no Instituto Alana, destaca que existe uma desigualdade significativa no acesso a saberes tecnológicos entre países desenvolvidos e os emergentes. Para ele, embora se reconheçam essas assimetrias tecnológicas é importante evitar qualquer forma de submissão ou dependência.
“Não se trata apenas do uso das plataformas internacionais; o problema central reside na possibilidade dessas empresas abusarem dos direitos dos estudantes brasileiros”, afirma Nejm. Ele argumenta que parte dos recursos destinados à transformação digital deveria ser investida no desenvolvimento de soluções locais que sejam auditáveis e transparentes. Essa abordagem é essencial para fortalecer a soberania digital na educação no Brasil.
Julia Abad, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), ressalta que as plataformas educacionais não apenas coletam dados cadastrais dos alunos; elas acumulam informações sobre frequência escolar, desempenho acadêmico e comportamentos diversos. Com o avanço da inteligência artificial, essas plataformas podem gerar inferências sobre perfis educacionais.
“Os dados pertencem a crianças e adolescentes sob proteção especial pela LGPD [Lei Geral de Proteção de Dados], pelo ECA [Estatuto da Criança e do Adolescente] e pelo Código de Defesa do Consumidor”, explica Abad. “Inovações na educação não devem transformar alunos em meras commodities para interesses comerciais”, defende.
De acordo com Abad, as consequências vão além da privacidade individual; elas afetam a soberania digital do país. À medida que grandes empresas concentram ferramentas educacionais e tecnológicas nas escolas brasileiras, sua influência sobre a formação educacional torna-se cada vez mais significativa.
Os especialistas também alertam sobre os perigos da estratégia conhecida como “vendor lock-in”, ou dependência excessiva dos fornecedores. Isso acontece quando uma instituição se vê refém de um único fornecedor devido aos altos custos envolvidos na migração para outra solução ou adaptação dos sistemas existentes.
Abad levanta uma questão fundamental: qual é o impacto democrático ao construir a educação pública fundamentada em plataformas privadas? A democratização pode ser comprometida quando parte significativa da disseminação do conhecimento ocorre em ambientes controlados por interesses privados, limitando a transparência e a participação social.
Contratos
Uma análise realizada por nossa equipe investigativa abarca 981 Diários Oficiais do Piauí entre 2022 e 2026. Nesse levantamento foram identificados 56 contratos firmados pelo poder executivo estadual com Big Techs.
A Secretaria Estadual da Educação (Seduc) concentra a maior parte desses acordos. O contrato mais expressivo foi assinado em 2022 para aquisição de 16.330 Chromebooks destinados aos professores da rede pública estadual com um investimento superior a R$ 29 milhões. Embora esses dispositivos sejam fabricados por diferentes marcas, operam exclusivamente com o sistema ChromeOS criado pelo Google.
Nos anos subsequentes, os gastos foram direcionados principalmente para licenças das plataformas utilizadas nas escolas diárias. Os contratos referentes ao Google Workspace for Education Plus garantem acesso aos serviços essenciais como email corporativo, armazenamento na nuvem e gerenciamento das salas virtuais via Google Classroom. Esses acordos aparecem nos registros financeiros ao longo dos anos indicando continuidade no uso dessas ferramentas pela rede estadual.
Além das plataformas educacionais mencionadas anteriormente, a Seduc também adquiriu soluções voltadas para gestão informacional como as licenças do Microsoft Power BI utilizadas para organização dos indicadores educacionais.
Documentos analisados indicam que a nova disciplina obrigatória sobre IA foi introduzida junto com a incorporação gradual das tecnologias dessas gigantes empresariais no cotidiano escolar.
O ambiente digital utilizado por professores e alunos passa a ser fornecido pelo Google enquanto contratos com a Microsoft se ampliaram abrangendo plataformas corporativas e análise dos dados escolares. A infraestrutura necessária para computação em nuvem passou a ser responsabilidade da Amazon Web Services através de um contrato cuja natureza permanece parcialmente sigilosa.
Valores sob sigilo
Um contrato cujo valor permanece sob sigilo foi firmado em outubro de 2024 entre o Governo Estadual do Piauí por meio da Empresa Estadual de Tecnologia da Informação (ETIPI) com a GW Cloud Tecnologia e Serviços S.A., visando integrar serviços da Amazon Web Services (AWS). O único documento que conseguimos localizar foi um extrato publicado no Diário Oficial datado de 10 de outubro daquele ano informando sobre a assinatura ocorrida em maio daquele ano com validade prevista para 12 meses oferecendo serviços especializados relacionados à infraestrutura AWS sem divulgar oficialmente seu valor total.
No entanto, descobrimos um aditivo referente ao contrato original prevendo um acréscimo adicional correspondente a R$ 4,3 milhões num percentual total equivalente ao aumento de 25%. Assim sendo, estima-se que o valor inicial deve atingir cerca R$ 21 milhões anuais quando somadas as modificações contratuais posteriores. Ao buscar confirmação junto à ETIPI sobre os valores mencionados obtivemos como resposta que seria necessário requerer tais informações através da Lei geral de Acesso à Informação devido à natureza sensível desses contratos conforme declarado pelo órgão responsável.
Influência internacional
A aproximação entre o governo piauiense e as grandes empresas tecnológicas parece estar embasada numa visão otimista quanto às parcerias possíveis. Em agosto desse ano (2023), o governador participou pessoalmente dunha missão oficial aos EUA onde constavam visitas ao complexo Googleplex localizado em Mountain View bem como à sede da Amazon Web Services situada Washington D.C.. Durante sua estadia na sede do Google ele expressou interesse em aprofundar laços colaborativos destacando sua intenção tornar Piauí um polo regional para programadores startups além engenheiros qualificados neste novo cenário digital contemporâneo envolvendo serviços relacionados nuvem inteligência artificial(IA) aplicada saúde pública entre outros temas relevantes discutidos naquele encontro formalizado.
O governador demonstrou entusiasmo durante seus pronunciamentos registrando características positivas sobre as contribuições trazidas pelas ferramentas dessa gigante tecnológica apontando-a como motor propulsor melhorias globais por meio suas inovações além disso descreveu seu compromisso buscando estreitar relações colaborativas envolvendo futuras parcerias estratégicas.
