Conferência da extrema direita em Israel homenageia Flávio Bolsonaro
Entre os dias 6 e 8 de outubro, a cidade de Jerusalém foi palco da “National Conservatism Conference”, conhecida como “NatCon”. Este evento reúne, várias vezes por ano, figuras políticas conservadoras nacionalistas de extrema direita oriundas da Europa, Estados Unidos, Israel, Reino Unido e, ocasionalmente, da América Latina.
Entretanto, a América Latina não é um foco central para esses participantes, exceto quando se discute a imigração proveniente de “nações pobres”. Nesses momentos, somos frequentemente retratados como um quintal dos Estados Unidos ou como aliados estratégicos que podem ser úteis às suas agendas. Essa experiência é baseada na minha participação em uma NatCon anterior realizada em Bruxelas em 2024 e no meu envolvimento com eventos transnacionais da extrema direita europeia desde 2022.
A conferência é financiada pela Fundação Edmund Burke, dos Estados Unidos, que conta entre seus principais patrocinadores a Heritage Foundation. Esta última é reconhecida como uma das principais influenciadoras das diretrizes políticas sob a administração de Donald Trump. Em entrevista ao New York Times, o presidente da Heritage Foundation, Kevin Roberts, afirmou que sua missão atual é “institucionalizar o Trumpismo”. Roberts fez parte do time de palestrantes em Jerusalém. Além disso, a Heritage Foundation está atenta ao cenário brasileiro: em março deste ano, Paulo Figueiredo e Alexandre Ramagem participaram de um evento promovido pela fundação em Miami.
Estive presente nesta edição da NatCon, que contou com a presença de políticos israelenses de extrema direita, líderes europeus que enfrentaram sanções por alegações de antissemitismo e figuras nacionalistas cristãs e radicais dos EUA, conforme destacado pelo jornal britânico The Guardian.
O principal enfoque da conferência foi apoiar as políticas do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu voltadas contra os palestinos. Os participantes discutiram a defesa do Estado de Israel e a aprovação das ações dos colonos israelenses na Cisjordânia, que atuam muitas vezes como milícias. Também foram abordadas medidas “anti-terrorismo” e anti-imigração tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. Um tema recorrente foi o combate ao que chamaram de “aliança verde e vermelha”, referindo-se à parte da esquerda progressista que protesta contra o genocídio palestino; entre eles estava o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani. Adicionalmente, alguns palestrantes atacaram vigorosamente a comunidade LGBTQIA+, especialmente indivíduos transgêneros, defendendo a formação de grandes famílias sem mistura cultural.
Um dos discursos mais agressivos foi proferido por Sebastian Gorka, subchefe do gabinete do presidente dos EUA e diretor sênior para contraterrorismo do Conselho de Segurança Nacional. Ele participou tanto presencialmente quanto online diretamente da Casa Branca. Gorka é conhecido por ser aliado de Eduardo Bolsonaro nos EUA e foi apresentado ao político brasileiro por Steve Bannon.
Ele declarou que atualmente existe uma nova crença: “a religião da esquerda”.
“Seja ela representada por ambientalistas adoradores de Gaia como Greta Thunberg ou pelo altar do DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão)”, afirmou Gorka. Seu discurso conectou a Irmandade Muçulmana ao marxismo e mencionou supostas ligações entre o Hamas e o Irã. “A Aliança Vermelho-Verde é real. Os islamistas colaborando com os marxistas é uma realidade”. Concluiu citando Trump: “Se você planeja machucar americanos ou matar inocentes, nós vamos te encontrar e nós vamos te eliminar”.
Neste ambiente carregado durante a conferência, o nome de Flávio Bolsonaro foi mencionado com aplausos entusiásticos pela audiência composta por cerca de 300 pessoas.
O eurodeputado Harald Vilimsky, líder da delegação do Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ) no Parlamento Europeu e vice-presidente do grupo “Patriotas pela Europa”, fez um apelo:
“Quero que a Europa una forças com Israel; aqueles que são nossos irmãos mais velhos em termos de fé. Desejo contar com os verdadeiros conservadores dos Estados Unidos ao nosso lado; não apenas republicanos nominalmente. Isso poderia alterar significativamente o desenvolvimento internacional. Quero ver Javier Milei na Argentina junto conosco. Desejo contar com José Antonio Kast no Chile ao nosso lado. Quero Flávio Bolsonaro no Brasil.”
As palavras dele provocaram uma explosão de aplausos entre os presentes. Ele acrescentou: “Brasil, Japão e muitos outros países devem se unir sob uma ideia comum; algo como ‘patriotas globais’. Um coletivo forte e uma rede poderosa em prol do conservadorismo.”
O governo Netanyahu considerou essa conferência como estratégica. Bezalel Smotrich, ministro das Finanças autodenominado “fascista homofóbico” e extremista com sanções internacionais aplicadas contra ele também esteve presente.
Além disso, compareceu o rabino Shmuel Eliyahu, que em 2023 pediu um ataque nuclear sobre Gaza e já enfrentou processos disciplinares por incitação ao racismo contra palestinos. Da Europa vieram nomes como Hans-Georg Maaßen, ex-chefe da agência alemã de inteligência interna que criticou Angela Merkel por permitir imigração em massa; Balázs Orbán também estava presente; ele é deputado no Parlamento húngaro e ex-diretor político do premiê Viktor Orbán.
Essa foi uma das conferências mais violentas que já tive a oportunidade de cobrir. Os sentimentos manifestados durante esses três dias foram repletos de ódio, ressentimento profundo, nacionalismo exacerbado e xenofobia — tudo isso marcado pelo orgulho pela crueldade demonstrada. E são essas pessoas movidas por tais emoções que almejam estar “ombro a ombro”, “nas mesmas fileiras” com Flávio Bolsonaro. E você? De qual lado deseja ver o presidente do Brasil?
