Três anos após o 7 de outubro, palestinos continuam a arcar com as consequências
O destino me colocou na Cisjordânia neste 7 de outubro, um dia que marca o terceiro aniversário do ataque terrorista do Hamas, que resultou na morte de aproximadamente 1.000 pessoas, entre civis e militares. Esse evento desencadeou uma série de massacres perpetrados pelo Estado de Israel, que até agora já ceifou mais de 75 mil vidas e deixou mais de 170 mil palestinos feridos apenas na Faixa de Gaza.
Atualmente, o Brasil enfrenta intensos conflitos internos e é compreensível que a atenção esteja voltada para questões locais. Contudo, talvez possamos extrair lições valiosas sobre resistência e resiliência a partir da experiência de um povo que tem enfrentado opressão, colonização e tentativas sistemáticas de apagamento por mais de um século.
Meus avós sobreviveram ao Holocausto; minha avó, originária da Polônia, e meu avô da Romênia, passaram por campos de concentração e carregavam números tatuados em seus braços. Jovens imigrantes no Brasil, eles se encontraram e constituíram família. É em respeito a essa trajetória que não posso permanecer em silêncio diante do genocídio étnico que se desenrola live stream nas telas dos nossos celulares.
Nos últimos dias, percorri a Cisjordânia e visitei comunidades palestinas que estão sendo despejadas e atacadas por milícias israelenses compostas por colonos e soldados. A Cisjordânia é uma região palestina localizada no Oriente Médio, à margem ocidental do rio Jordão, entre Israel e Jordânia. Conforme os Acordos de Oslo da década de 1990, a área foi dividida em três zonas administrativas: Zona A sob controle total da Autoridade Palestina; Zona B com controle compartilhado; e Zona C, onde cerca de 60% está sob domínio israelense total em termos administrativos e de segurança.
Entretanto, os limites dessa divisão tornam-se cada vez mais difusos à medida que os colonos israelenses expandem seu território.
Essas experiências ainda serão transformadas em reportagens. Recomendo a leitura da Pauta Pública desta sexta-feira (09/10), onde o diretor geral do Centro de Assistência Jurídica e Direitos Humanos de Jerusalém (JLAC), Issam Aruri, membro do Conselho de Comissários da Comissão Independente de Direitos Humanos da Palestina (ICHR), oferece uma análise profunda do conflito na região.
Gostaria de compartilhar uma das histórias mais impactantes que conheci até agora: a de uma mulher com 67 anos, residente em um vilarejo localizado em Masafer Yatta, nas colinas ao sul de Hebrom, cerca de 70 km ao sul de Ramallah – a capital administrativa da Cisjordânia. Por motivos evidentes, não mencionarei seu nome. Sua vila está completamente cercada por assentamentos israelenses que buscam expulsar os palestinos que ali habitam há gerações, sobrevivendo da colheita das oliveiras e criação de ovelhas.
A comunidade vive sem água encanada ou eletricidade. O cenário é marcado por pedras, areia e pequenas construções improvisadas. Embora cabos elétricos passem sobre a vila em direção aos assentamentos israelenses, os moradores palestinos não têm acesso à energia elétrica. Um portão foi instalado na estrada principal, podendo ser fechado pelos soldados a qualquer momento sem aviso prévio, limitando o direito dos moradores ao livre trânsito mesmo em situações emergenciais. Essa prática é comum na região; até mesmo ruas dentro das comunidades são frequentemente bloqueadas pelas forças israelenses.
“Foi aqui que um colono israelense assassinou meu filho”, relata a mulher apontando para um espaço comunitário que já foi destruído diversas vezes. Esse local abriga o único banheiro disponível para os habitantes. As casas tinham banheiros originalmente, mas foram demolidos ou considerados zonas militares inacessíveis aos moradores. Sua filha reside perto dali mas não pode usar seu banheiro nem construir outro sem autorização das autoridades. Além disso, o celeiro no quintal foi declarado “zona militar” e trancado; portanto, a família não consegue levar seus animais para pastar ou se aproximar do pequeno abrigo. O exército israelense aparece esporadicamente para alimentar as ovelhas e cabras que estão morrendo aos poucos.
“Um colono entrou aqui e atirou na cabeça do meu filho”, ela narra enquanto aponta para seu neto pequeno, que estava no colo dele na hora do ataque. “O colono disparou na frente de todos nós. Chamamos a polícia para investigar; levaram o corpo embora mas não penalizaram o agressor.” Alguns dias depois do ocorrido, ela encontrou o colono caminhando tranquilamente pela área e questionou-o: ‘Por que você matou meu filho?’. Ele reagiu empurrando-a com tanta força que ela caiu batendo a cabeça numa pedra e desmaiou; o portão estava fechado e só conseguiu atendimento médico dias depois. Ela sofreu concussão cerebral e perdeu parte da visão devido ao impacto. “Quebrei ossos”, disse ela emocionada. “Mas nenhuma dor se compara à angústia por não ter podido enterrar meu filho.” Com lágrimas nos olhos enquanto ajustava seu hijab preto ao redor do rosto cansado.
Não faltam evidências documentais dessas atrocidades. Todas as comunidades visitadas mostraram vídeos mostrando colonos invadindo propriedades, cortando oliveiras centenárias à noite enquanto cantavam músicas ameaçadoras ou prometiam colocar fogo nas casas dos moradores. Em todas as vilas fui informada sobre como os habitantes organizam turnos noturnos para evitar serem queimados enquanto dormem.
As violações são amplamente documentadas por organizações dedicadas aos direitos humanos na região. Eu testemunhei árvores derrubadas e animais mortos durante minha visita; enfrentei barreiras em pontos de checagem onde soldados fortemente armados me obrigaram a sair do carro para verificar documentos pessoais antes de permitir minha passagem através das barreiras detectores. Visitei uma escola palestina onde as crianças eram obrigadas a manter todo o lixo acumulado dentro das salas por semanas porque era proibido jogá-lo fora no pátio.
Enquanto caminhava por um mercado árabe aberto em Hebrom escutava relatos sobre como os corredores estreitos foram cobertos com grades para impedir ataques com pedras vindas dos altos prédios quando fui cercada junto com colegas jornalistas por soldados israelenses armados até os dentes. Um deles apontou sua arma contra nós.
Os moradores afirmam que a Cisjordânia está se transformando em Gaza. No entanto, também expressam sua determinação em permanecer firme em sua terra ancestral após gerações vivendo ali: “O massacre vai ter um fim”, disse um senhor diante das oliveiras queimadas pelos colonos israelenses. “O que eles pretendem fazer? Matar sete milhões? Não temos para onde ir; esta é nossa casa”.
Três anos se passaram desde aquele fatídico 7 de outubro quando a Palestina começou a ser punida incessantemente desde então. No entanto, ouvi uma frase poderosa dita por uma mulher cujo testemunho considero relevante também para nossa realidade atual:
“A maior dificuldade é evitar tornar-se um monstro; não desejar morte como eles desejam pelas nossas vidas.” Enquanto tanques avançam sobre bebês em Gaza quero ver prosperidade nas crianças deles também. Esse desafio exige esforço diário; nossa indignação deve nos fortalecer na luta pela resistência sem nos transformar em monstros”.
