A América Latina em ebulição: a mistura explosiva de extrema direita, terrorismo e os Estados Unidos

A América Latina em ebulição: a mistura explosiva de extrema direita, terrorismo e os Estados Unidos

O recente pedido de recontagem dos votos nas eleições presidenciais colombianas, que culminou na vitória do candidato de direita Miguel Uribe, trouxe à tona discussões sobre a saúde democrática na América do Sul. Esse incidente se insere em um contexto mais amplo, caracterizado por instabilidades políticas, concorrências eleitorais acirradas e o crescimento de novos líderes da extrema direita em uma região tradicionalmente dominada por ideologias de esquerda e centro-esquerda, ao mesmo tempo em que a influência dos Estados Unidos sobre os governos sul-americanos se intensifica.

Nesta edição do Pauta Pública, a convidada Flavia Loss de Araújo, doutora pelo Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI-USP) e docente no Centro de Estudos das Negociações Internacionais (CAENI), discute o panorama político atual da América Latina e suas implicações para as eleições brasileiras de 2026.

Durante a análise da relação entre Brasil e Estados Unidos, Flavia chama atenção para os perigos envolvidos em transformar questões internas de segurança em pautas internacionais. “Internacionalizar esse problema só agrava a situação, pois os Estados Unidos utilizam essa estratégia conforme seus próprios interesses, não levando em consideração as necessidades do Brasil.”

Confira os principais tópicos abordados na entrevista e ouça o podcast completo logo abaixo.

EP 222
O caldeirão político em que ferve a América Latina


Flavia Loss analisa o aumento da extrema direita na América do Sul e o impacto dos Estados Unidos nas eleições.

0:00

15
15


No contexto colombiano, Abelardo de la Espriella foi o vencedor, sucedendo Gustavo Petro, um presidente alinhado à esquerda. Como você interpreta o resultado desse pleito? Quais são suas relações com o avanço da direita na América Latina? E esse desfecho impacta, de alguma forma, as eleições no Brasil?

A confirmação da vitória de Abelardo de la Espriella já era esperada após o segundo turno. No primeiro turno, Iván Cepeda liderava nas pesquisas, fazendo com que o resultado final surpreendesse muitos analistas. Embora Gustavo Petro tenha apresentado um governo positivo em diversos aspectos, isso não foi suficiente para garantir a aceitação popular necessária para sua continuidade. A vitória apertada demonstra que as promessas feitas pela nova liderança conseguiram ressoar com uma parte significativa do eleitorado.

Entretanto, é importante ressaltar que isso não representa uma derrota completa para a esquerda. O discurso radical adotado por De la Espriella prevaleceu e deve ser encarado como um fato relevante. A violência continua sendo um tema crucial na agenda política sul-americana, algo sempre presente na Colômbia e que também se faz sentir cada vez mais nos demais países vizinhos.

Abelardo fez questão de associar sua campanha às estratégias já aplicadas por Nayib Bukele em El Salvador. Essa similaridade entre ambos os candidatos é notável. Atualmente, já podemos observar um fenômeno conhecido como “bukelismo” na América Latina, onde partidos e candidatos adotam uma abordagem rigorosa contra a criminalidade. É fundamental lembrar que cada país enfrenta tipos diferentes de violência; no caso da Colômbia, não é apenas a questão do narcotráfico que preocupa. Embora tenha havido uma desmobilização das guerrilhas, ainda existem vestígios dessas organizações e grupos paramilitares ativos.

Estamos prestes a testemunhar uma nova fase para a direita radical na Colômbia. Embora já tenhamos visto uma direita forte representada por Álvaro Uribe, essa nova vertente apresenta características distintas e mais estridentes em seu discurso. Essa nova direita está se reinventando e conta com apoio internacional considerável.

Refletindo sobre o Brasil, essa eleição colombiana não altera diretamente nosso cenário interno, mas fortalece o discurso radical que já ganha força aqui também. É uma pauta que atrai interesse popular até mesmo entre setores mais progressistas devido à relevância do problema.

As soluções para essas questões são diversas e algumas delas vêm da extrema direita ou da direita radical. Durante as campanhas eleitorais seguintes no Brasil, será possível observar candidatos dessa linha aproveitando-se desse fenômeno crescente que propicia vitórias eleitorais ao campo conservador.

É inegável que há um crescimento expressivo da extrema direita na América Latina alinhada ao trumpismo americano. Como você avalia esse fenômeno regional e sua conexão com a visão dos Estados Unidos sobre a América Latina como seu “quintal”, buscando expandir sua influência na região?

A presença histórica da direita na América Latina é algo bem documentado; passamos por períodos ditatoriais apoiados pelos EUA. Contudo, não se esperava ver essa renovação tão forte nos últimos dez anos — algo que pegou até mesmo alguns setores da esquerda desprevenidos quanto às suas reações frente ao fortalecimento dessa nova direita.

Como especialista em relações internacionais, observo como esse movimento renovado está se organizando globalmente — isso não é mais restrito apenas a alguns países isolados; trata-se agora de um fenômeno articulado publicamente.

Esses grupos têm realizado encontros internacionais como o CPAC (Conferência de Ação Política Conservadora), criado nos anos 70 nos EUA e atualmente expandido para lugares como Cidade do México e várias cidades brasileiras como Campinas e Porto Alegre. Essas reuniões reúnem figuras proeminentes da extrema direita visando articular politicamente suas ações numa rede mobilizada.

É claro que o trumpismo continua sendo um dos pilares desse movimento — oferecendo suporte financeiro significativo — criando uma linha ideológica muito clara. Aqueles alinhados com esse pensamento político obtêm vantagens significativas e adaptam seus discursos às realidades locais.

Essa corrente política está consolidada e deve ser considerada seriamente pelas esquerdas regionais, pois não se limita simplesmente a algumas vitórias eleitorais esporádicas. É vital compreender melhor essa tendência emergente para desenvolver estratégias eficazes contra ela no futuro.

No Brasil, observamos com apreensão a decisão dos EUA em rotular organizações como Comando Vermelho e PCC como narcoterroristas — um movimento que gera inquietação sobre possíveis intervenções americanas na região. Ao mesmo tempo, segmentos da extrema direita brasileira tentam associar Lula a essas facções criminosas. Como você interpreta essa situação? Existe risco real de interferência dos EUA nas eleições brasileiras?

Esse reconhecimento do PCC e do Comando Vermelho como ameaças é uma situação delicada para o Brasil: essa classificação pode ser mal interpretada durante as campanhas eleitorais [ser contra essa rotulagem] não implica defender essas organizações criminosas — mas sim abordar conceitualmente qual seria uma ameaça nacional ou internacional.

Quando analisamos PCC e Comando Vermelho sob a ótica das operações políticas dos cartéis mexicanos ou das organizações narcotraficantes colombianas, percebemos que sua atuação não possui caráter político típico do terrorismo. Eles buscam infiltrar-se nas instituições estatais sem intenção genuína de subverter esses sistemas estabelecidos.

Enquanto isso, essas organizações permanecem limitadas em seu alcance internacional — embora expandam suas atividades pela região — ainda estão longe de serem considerados movimentos verdadeiramente globalizados como os cartéis mexicanos são capazes disso fora do Brasil devido à dinâmica interna existente aqui.

Assim sendo, PCC e Comando Vermelho representam problemas graves dentro do território nacional com impactos diretos sobre nossa população — algo reconhecido por todos nós. Contudo falta à esquerda abordar essa questão adequadamente entre seus eleitores: precisamos promover políticas eficazes para combater esses problemas internos sem deixar espaço para interpretações errôneas sobre intervenções externas.

Internacionalizar esses conflitos sob a ótica terrorista traz riscos adicionais porque tal narrativa pode ser instrumentalizada politicamente por interesses externos, desviando-se completamente das necessidades brasileiras reais no combate às drogas e à violência desenfreada no país.
Portanto é imperativo separar claramente entre questões nacionais urgentes versus agendas políticas externas manipuladoras — simplificá-las apenas pode resultar em consequências adversas futuras tanto para nós quanto para as populações afetadas diretamente pelos conflitos internos.

Às vezes parece haver uma esperança ingênua quanto à intervenção americana — imaginando-se que eles venham resolver nossos problemas por meio da força militar. Isso nunca funcionou antes nem irá funcionar agora — exemplos claros incluem situações desastrosas como no Afeganistão onde os resultados foram extremamente negativos.
Se conseguirmos educar nossa sociedade acerca dessa história rica em fracassos relacionados às intervenções externas talvez possamos perceber coletivamente quão prejudicial seria permitir tais interferências ao nosso contexto nacional—todos devemos trabalhar juntos nessa tarefa crucial!