Das celebrações ao lamento: os instantes finais de um homem negro antes da tragédia com a polícia

Na madrugada de 5 de julho, um domingo, Wesley dos Reis Cordeiro, conhecido como Tuca, um trabalhador autônomo de 41 anos e homem negro, voltava para casa após celebrar o segundo aniversário de sua neta com amigos e familiares. Durante o trajeto, ele foi fatalmente atingido por um tiro disparado durante uma abordagem policial no Jardim Comercial, localizado no bairro Capão Redondo, na zona sul de São Paulo.

Conforme dados do levantamento Pele Alvo, desenvolvido pela Rede de Observatórios da Segurança e que abrange informações de nove estados brasileiros, São Paulo ocupou a quarta posição em número de mortes entre pessoas negras em 2025, totalizando 499 óbitos. O estado ficou atrás da Bahia (1243), Rio de Janeiro (588) e Pará (516). O estudo revela que a maioria das vítimas era do sexo masculino. Entre os indivíduos na faixa etária de Tuca (40 a 49 anos), as mortes decorrentes da violência policial aumentaram em São Paulo: foram 208 casos em 2024 e 248 em 2025, representando uma elevação de 19% no último ano.

Momentos antes do trágico incidente, imagens capturadas por familiares e fotografias da festa mostram Tuca se divertindo. Ele era sempre o animador das celebrações. Após cantarem “Parabéns para Você”, a família se reuniu na frente da residência para socializar e aproveitar a noite. O vídeo abaixo ilustra claramente a alegria dele naquele momento.

Apesar da animação habitual, seus amigos notaram que Tuca estava mais reflexivo naquela noite. “Ele parecia diferente do que costumava ser. Estranhamos seu comportamento; ofereci-lhe uma cerveja e ele recusou. Em um momento, percebi que ele olhava para as crianças com um olhar distante, como se quisesse guardar aquele instante só para si. Era como se algo estivesse pesando em sua mente”, relata Grazielly dos Reis, sua irmã caçula.

Por que isso importa

  • Em 2025, as ações policiais resultaram em 6.519 mortes no Brasil, marcando um aumento de 4,5% em comparação ao ano anterior (6.238 vítimas), conforme revelado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP).
  • No primeiro trimestre de 2026, a violência policial resultou na morte de 1.716 pessoas, ou seja, aproximadamente três mortes diárias.

Outro fato que chamou atenção foi o desejo insistente de Tuca em voltar para casa naquela noite. Ele era conhecido por ser o primeiro a chegar às festas e o último a sair; portanto, seus parentes acharam incomum esse comportamento e começaram a brincar com ele. A irmã chegou até a apostar R$ 50 que ele estava apenas brincando. Contudo, persistiu em afirmar que queria ir embora devido ao cansaço após ter trabalhado no sábado.

Alguns familiares tentaram convencê-lo a ficar mais um pouco até que sua neta dormisse; mesmo assim, Tuca insistiu em chamar um motorista por aplicativo. No entanto, como o filho e o namorado da sobrinha estavam utilizando motos naquela noite, decidiram levá-lo junto com sua esposa Pamela Souza, de 38 anos.

Cerca de cinco minutos após deixarem o local juntos nas motocicletas, uma viatura da Polícia Militar passou pelo local onde alguns familiares ainda estavam presentes e seguiu na mesma direção deles. Às 2h30 da madrugada, câmeras de segurança registraram as duas motocicletas transitando pela Rua Henrique Sam Mindim.

A primeira moto transportava Pamela e seu filho; logo atrás vinha Tuca na garupa da moto do namorado da sobrinha. Em seguida à dupla surgiu uma viatura policial. De acordo com os policiais envolvidos na ocorrência registrada em Boletim de Ocorrência (BO), uma ordem para parar teria sido ignorada. No entanto, segundo Pamela, o condutor havia reduzido a velocidade antes mesmo de conseguir parar completamente quando Tuca foi baleado. “Eles diminuíram a velocidade da moto mas não conseguiram parar completamente; foi então que ele [o policial] atirou”, relata Pamela.

O tiro atingiu o lado esquerdo do tórax de Tuca; ele caiu da moto alguns metros à frente. Em estado de choque e sem compreender a situação enquanto temia ser atingido também, o piloto dirigiu-se rapidamente para casa e alertou Pamela e seu filho sobre o ocorrido.

Ambos retornaram ao local onde encontraram Tuca caído no chão; contudo, os policiais já haviam isolado a área impedindo-os de se aproximar dele.

Supostamente armado

Conforme relatado no Boletim de Ocorrência registrado no 47º DP (Capão Redondo), o tiro que feriu Tuca foi disparado pelo policial militar Héctor Luiz de Macedo durante uma ronda junto ao soldado Lucas Benitelli da Costa.

Os agentes afirmam que durante o patrulhamento preventivo avistaram duas motocicletas com características semelhantes às frequentemente utilizadas em assaltos na área.

Pâmela compartilha que durante seu trajeto para casa cruzaram com “alguns motociclistas fazendo racha”. Na visão dela: “Acho que alguém chamou os policiais porque estavam causando confusão; talvez eles tenham pensado que estávamos envolvidos nisso”, comenta.

Entretanto, segundo os policiais responsáveis pela abordagem inicial à motocicleta onde estava Tuca, foi “uma fita cobrindo parcialmente a placa” que gerou suspeição sobre eles. Isso motivou os agentes a seguirem atrás das motos.

Os policiais narram ainda que “ao perceberem a aproximação da viatura policial”, os ocupantes das motocicletas tentaram fugir desobedecendo à ordem dada para pararem. Durante essa perseguição perceberam também que Tuca segurava um casaco cobrindo totalmente suas mãos “aparentando ocultar algo”.

Na sequência do evento descrito pelos agentes policiais ocorre “no curso da fuga”, quando Tuca teria supostamente feito “menção de erguer uma das mãos encobertas pelo casaco”, gesto interpretado pelo soldado Héctor como potencialmente ameaçador ao ponto dele decidir efetuar um único disparo.

Entretanto essa interpretação não é corroborada por aqueles próximos ao falecido; um vídeo gravado por um transeunte mostra claramente que seu casaco estava amarrado na cintura durante todo o incidente.

Os policiais também relataram no BO que após Tuca ter caído da moto continuaram sua perseguição antes de retornar ao local do acidente. Neste meio tempo “várias pessoas se aproximaram” do local onde ocorreu a queda; assim não se descarta a possibilidade de alguém ter retirado uma eventual arma ou objeto pertencente a Wesley antes do retorno dos oficiais. O vídeo evidencia Tuca caído sem ninguém próximo dele naquele instante.

A versão apresentada pelos policiais provocou indignação entre os familiares. “Meu irmão não era criminoso; ele realmente estava voltando para casa descansar e não estava fugindo como alegam”, declara Grazielly.

Perseguição e medo de retaliação

Familiares relataram à Agência Pública que ao chegarem ao local já encontravam tudo isolado pelos policiais e foram impedidos de se aproximar rapidamente de Tuca. Tentativas feitas por eles para registrar filmagens foram frustradas pela atuação dos oficiais. Uma testemunha anônima afirmou estar com medo das consequências por conta das ameaças recebidas dos policiais durante esse momento conturbado: “Um deles disse ‘Eu mato você também’”, revelou ela ao comentar sobre as ameaças feitas enquanto desligavam as câmeras acopladas às fardas.” No registro consta ainda que Héctor Luiz não utilizava câmera corporal durante essa ocorrência; já Lucas Benitelli sim.

No decorrer do domingo seguinte à morte de Tuca, seus familiares procuraram por imagens gravadas nas residências e estabelecimentos comerciais próximos; todavia já haviam entregado essas gravações aos policiais anteriormente.

Durante o velório e sepultamento de Tuca houve uma viatura posicionada na entrada do cemitério: “Eles estavam lá fora nos observando todo tempo”, contou um familiar sob anonimato.

No dia seguinte ao sepultamento (6 de julho), amigos e parentes organizaram uma manifestação para expor publicamente sua indignação acerca do ocorrido. Por volta das 19h vestiram camisetas estampadas com fotos de Tuca acompanhadas pela mensagem: “Deixamos aqui nossa gratidão e levamos para sempre sua história. Você parte mas deixa marcas indeléveis na memória dos corações”, além do bordão característico dele: “Escute aqui”. Eles buscavam ser ouvidos naquele momento doloroso.

A concentração ocorreu exatamente no ponto onde ocorreu a queda; lá bloquearam as vias montando barricadas com pneus incendiados. Rapidamente várias viaturas chegaram ao local onde os manifestantes estavam posicionados; os policiais se colocaram diante do bloqueio lançando balas de borracha e bombas lacrimogêneas tentando dispersar os participantes daquela ação pacífica obrigando-os assim a recuar para suas casas.

Outro lado

Em resposta aos questionamentos sobre as ações dos policiais durante a manifestação ocorrida no dia seguinte à morte de Tuca,a Secretaria Estadual da Segurança Pública enviou uma nota à Pública, afirmando: “A Polícia Militar esteve presente monitorando uma manifestação realizada na rua Waldemar Ortega no Capão Redondo na noite do dia 6; neste evento um grupo ateou fogo em objetos obstruindo via pública.Foi acionado o Corpo Bombeiros para extinguir as chamas.O bloqueio foi removido posteriormente sem registros conhecidos envolvendo detidos ou feridos”.

Referente à morte de Tuca,a SSP declarou: “As polícias Civil e Militar estão investigando todas as circunstâncias relacionadas ao caso.A abertura do Inquérito Policial Militar (IPM) foi determinada,e este caso está registrado como morte resultante intervenção policial no 47.º DP.O DHPP foi requisitado bem como perícia no local.A análise dos laudos periciais juntamente às imagens fornecidas pelas câmeras operacionais será feita visando esclarecer todos os fatos”.

São Paulo: o estado mais letal

Informações coletadas pelo Ministério Público Estadual indicam que entre janeiro e junho deste ano ocorreram 129 mortes causadas por intervenções policiais na capital paulista.No mesmo período em 2025 foram registradas120 fatalities.No estado,somente neste intervalo os agentes públicos ocasionaram368 mortes em2026 comparados às388 em2025>.

Em termos gerais,no ano passado São Paulo revelou-se como o estado mais letal nos últimos cinco anos,totalizando857 mortes conforme levantamento realizado pelo MPSP.Nacionalmente,dados fornecidos pelo Ministério da Justiça confirmamque6.519 pessoas perderam suas vidas devido intervenção policial até agora neste ano.

O relatório Pele Alvo divulgado recentemente pela Rede Observatórios Segurança apontaqueale talidade policial alcançou seu nível máximo desde2019 nas nove unidades monitoradas.Pelo levantamento realizadoem2025 forammorteados4 .330indivíduoscomoresultadointervenções policiaiselerepresentaumacrescimentode6 ,4 % frentea2024.